Segunda, 26 de setembro de 2016

Chumbo no bororó

A sabedoria do sertão ensina como aproveitar as propriedades medicinais de plantas como a mutamba e e as cascas do pacari

Marcos Guião - redacao@revistaecologico.com.br



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Mutamba (Guazuma ulmifolia)

Mutamba (Guazuma ulmifolia)

Dia desses esbarrei lá nos barrados de Serra Mineira e cheguei numa comunidade por nome de Cafundó. É um amontoadinho de casas com vielas empoeiradas e um povo bão, onde conheci Pedro Souza, personagem dos mais interessantes. Dotado de voz anasalada e arrastada, ele ia debulhando conversas soltas e contação de socorro dado a um e outro da região, numa roda de prosa com outros companheiros de catação de plantas. Os companheiros de faina vez por outra enriqueciam os causos com detalhes deslembrados por seu Pedro e assim ouvi essa história que agora divido com vocês.

“Teve um tempo aqui” – disse seu Pedro – “que morou um sujeito assim esquisito, maniado no roubo de galinha, e o povo deu de se armar pra combate do larápio. Maria Viúva, mulher séria e trabalhadeira, fadigada com tanta roubalheira no seu galinheiro, se enfezou e acabou por arrumar uma garrucha porveira, daquelas antiga que se carregava pela boca. Por premeiro deu um bocado de tiro nos tronco de bananeira para ganhar treino e numa noite de minguante se botou em espera nas beira do galinheiro. Lá pelas tantas da noite, as bichinhas deram sinal de mexida e ela correu o dedo no gatilho. No pipoco da garrucha o ladino saiu vazado. E foi assim que Tião de Arlita teve uma banda da popa da bunda prejudicada pelo tiro, que esparrodou aquela chuva de pórva”.

Continua seu Pedro: “No raiá do dia, ele me procurô buscano recurso pra uma queixa antiga de amorróida. Nem desconfiei da encrenca e dei-lhe umas cascas de mutamba (Guazuma ulmifolia) para tomar e banhar ofensa de tamanho desconforto. O tratamento consta de ponhá nove pedaço da casca nuns dois litros de água fervente, tomá três golos e depois fazer um banho nas partes com o restante. Isso no premero dia. E já no outro, se usa só oito pedaço. E no outro só sete e assim por diante, até chegá num pedaço só. Notei outra moléstia nele não e ele se foi. Pois mais tarde, me aparece a muié dele, Arlita, com converseiro arrodeado, até que sem jeito, contou o sucedido. Bão, aí mudei a receita, pois o veneno do chumbo fica garrado nas entranhas e a dor é muita”.

“Saí de pronto em busca de casca do pacari (Lafoensia pacari) e arranquei umas lascas arrumada. Expriquei que ele devia encher uma gamela de água, ponhá uns pedaço da casca e com as lasca maió era pra bater na água do mermo jeito que se faz omeleta. Aquilo dá uma espuma sem igual e é essa espuma que se deva banhá a popa cheia de chumbo. No começo a espuma escorre pretinha e aos pouco vai ficando mais alvinha, já dando ponto de que o veneno do chumbo se foi. Pronto, assim ele fez e assim sarou. Num delatou muito e ele se mudou daqui com a famía, acho que de vergonha...”

Inté a próxima lua!

 

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