Segunda, 26 de setembro de 2016

Carta ao amigo Pokémon Go

Roberto Francisco de Souza - redacao@revistaecologico.com.br



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Prezado Pokémon Go,

Escrevo estas mal traçadas linhas, imbuído da mais profunda consternação pela sua situação: perseguido, humilhado, capturado e mantido em cativeiro. E, ainda por cima, enxovalhado de tantas formas pelos que o classificam como marginal de quinta. Uma voz precisava surgir em sua defesa. Pois que seja a minha!

Olho no tempo as tantas vezes em que a tecnologia nos ofereceu símbolos que pudéssemos destruir e atacar para o bem de nossas consciências. Sabe, amigo, o avanço dessa tal ciência tem este condão: olhamos nesse horizonte intrigante, ou na ponta do presente, o que conecta este mundo de possibilidades com a realidade do hoje. Sempre para dizer a frase tão carcomida: “No meu tempo? No meu tempo tudo era melhor, brincávamos na rua, não havia violência”.

Dita assim, repetida, a frase flutua entre a falsidade e a confirmação de uma tese. Se todo o tempo passado fora melhor, então há que se concluir, amigo, que a humanidade deseja andar de ré, num flashback enlouquecido.

Concluo pela falsidade: não desejamos andar para trás, apenas tememos o futuro. Quanto mais a ciência falar em imortalidade neste século XXI, e isso nos assusta, não morrer será assustador. Se assim for, a fronteira final...

Você não é um jogo, Pokémon. É um teste, uma espécie de avant-première de uma das faces da mais profunda transformação que a humanidade já viveu, quando deixamos de nos adaptar à tecnologia para que ela se adapte a nós. Chamo isso de “a revolução da interface”.

Em 2007 previ que o mundo virtual de “Second Life”, que pode ser criado pelo próprio internauta, transformaria a internet em 2011. Atrasei cinco longos anos para, agora, você, seu pequeno danado, conseguir em dias que milhares de pessoas depurem, inteiramente de graça e de forma voluntária, a tecnologia da realidade aumentada.

Estou assustado! Enquanto brincam e discutem o quanto você afastará as pessoas da realidade, vozes se levantam, a minha em coro, para dizer que um mundo de possibilidades se abre para a educação, a ciência, a arquitetura, as artes, o crescimento da humanidade.

Imagine desfrutar de uma trilha cultural sem sair do lugar? Imagine as possibilidades para estudantes, em todo lugar, poderem vivenciar o que só uma imensa quantidade de dinheiro poderia proporcionar com visitas presenciais? Imagine criar desafios e jogos para achar não você, Pokémon, mas pedras, metais, vegetais, coisas sem-fim que estudamos hoje em quadros brancos (sem graça de tão brancos)?

Saio em teu socorro, Pokémon, e digo, numa fúria poética: quem és tu, afinal? Serás futuro, experimento ou completo marginal?

Entre dúvidas e assombro, continuo a acreditar na boa escolha de avançar sempre. Continuo a crer que a única chance de provarmos nossa humanidade é enfrentarmos, até a última cena, a ciência que a desafia.


Tech Notes:

Lembra de Second Life? goo.gl/48dsh2

Sobre a imortalidade goo.gl/DCeuzt

As possibilidades do Pokémon Go na Educação http://goo.gl/vUkLTc


(*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.

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