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Segunda, 26 de setembro de 2016

Uma festa para os sentidos

Abertos a visitantes de qualquer idade e com as mais variadas condições físicas, jardins sensoriais permitem vivências e descobertas que aguçam os cinco sentidos, favorecendo a aprendizagem e o equilíbrio emocional

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Sentir a natureza em toda a sua intensidade e desvendar as diferentes formas que ela assume para marcar presença na vida das pessoas, através da visão, sons, sabores, aromas e texturas. Para permitir que o visitante vivencie essas sensações num único espaço, é preciso fazer bem mais do que apenas reunir plantas ou combinar os elementos certos. É necessário apontar o caminho para que cada um redescubra – a seu modo e no seu tempo – o desejo de interagir com as belezas naturais e, com isso, também reflita sobre a importância de conservá-las.

Essa é a proposta dos jardins sensoriais, espaços de conhecimento, lazer e experimentação que vêm ganhando terreno em várias cidades Brasil afora. Abertos à visitação pública, esses oásis de verde e de vida, ao contrário do que muitos pensam, não são voltados apenas para pessoas com deficiência.

Pelo contrário. São um passaporte para que o visitante, de qualquer idade e com as mais variadas condições físicas e emocionais, vivencie e explore os mil e um tons de verde que colorem uma planta, o gosto amargo de uma erva, o aroma adocicado de uma orquídea, a maciez de uma folha ou o barulhinho bom da água jorrando numa fonte. Do ponto de vista conceitual, a proposta do jardim sensorial é apresentar ao visitante mais do que os olhos estão acostumados a ver, estimulando e aguçando todos os seus sentidos por meio do contato com plantas e outros elementos naturais.

A maioria desses espaços combina plantas e estruturas simples e bastante conhecidas, tais como canteiros com ervas aromáticas e temperos caseiros tradicionais, entre eles alecrim, manjericão e orégano. Oferecem, ainda, plantas mais propícias a serem “decifradas” pelo toque dos dedos, como espécies que têm folhas lisas e macias, como a gynura, popularmente conhecida como veludo-roxo.

Exuberância e biodiversidade

Segundo especialistas em paisagismo e botânica, desde a antiguidade os jardins são reconhecidos como importantes espaços de lazer e de prazer, mesclando um paradigma que oscila entre o sonho e a realidade. São locais, portanto, ideais para reverenciar a natureza em toda a sua exuberância e desfrutar das boas sensações que o contato com ela propicia. Principalmente para quem vive nas grandes cidades, boa parte delas encapsulada pelo cinza do concreto e pela poluição gerada pelo trânsito pesado.

No caso dos jardins sensoriais, todas essas características se somam a outros cuidados essenciais. Em especial àqueles voltados para a adequação dos espaços para receber crianças, idosos e também pessoas com de algum tipo de limitação física. Ou seja, são projetos que agregam diferenciais construtivos, favorecendo a circulação dos visitantes, por meio de rampas, por exemplo, e também de canteiros com altura pré-determinada, possibilitando assim a passagem e o contato de cadeirantes com as plantas existentes.

Campeão mundial em biodiversidade, o Brasil dá um banho de cores, texturas e possibilidades quando o assunto é a vasta paleta de espécies que podem ser escolhidas para compor um jardim sensorial. A instalação de fontes e de cascatas tornam a experiência dos visitantes ainda mais completa, reproduzindo sons que remetem ao correr de riachos, trazendo sensação de paz e de relaxamento. Alguns circuitos sensoriais também permitem explorar outros sons naturais, como o canto de pássaros livres que habitam o local.

Educação ambiental inclusiva: em agosto, 40 atletas paralímpicos brasileiros visitaram o Jardim Sensorial do Jardim Botânico, no Rio  - Divulgação/JBRJ

À flor da pele

Um dos mais conhecidos jardins sensoriais brasileiros é o do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Totalmente acessível e adaptado com rampas, ele tem áreas com piso táctil e informações sobre as diferentes espécies disponíveis em braile. Criado em 1989, ele foi reaberto ao público ano passado, depois de ficar mais de um ano fechado para revitalização e reforma.

Entre as plantas escolhidas para compor o espaço destacam-se suculentas, orquídeas, manjericão, alecrim e hortelã. Todas as visitas são guiadas. Usando vendas, os visitantes circulam pelo local e experimentam as mais diferentes sensações, em total comunhão com a natureza e com os sentidos à flor da pele. Outra atração é o jardim sensorial da Vale, que fica no Parque Botânico da mineradora, em Vitória (ES).

Em Belo Horizonte, vale a pena conhecer a Trilha dos Sentidos e o Jardim Sensorial do Museu de História Natural e Jardim Botânico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no bairro Santa Inês. Eles foram criados em 2006/2007 por meio do projeto “Do macro ao micro: uma viagem pelo mundo vegetal” e têm como foco a popularização da botânica e a inclusão do deficiente visual em atividades relacionadas ao meio ambiente. Funcionam de terça a sexta-feira, das 10h às 16h, sábados e domingos, das 10h às 17h, e recebem, em média, 4.600 visitantes por mês.


Entenda melhor

O jardim sensorial se destina a estimular os cinco sentidos: visão, olfato, tato, gustação e audição.

Para estimular a visão, são indicadas espécies como: camélia (Camellia japonica), gerânio (Pelargonium peltatum, hortorum ou domesticum, etc), crisântemo (Chrysanthemum morifolium e outras variedades), flor-de-cera (Hoya carnosa), violeta (Violeta odorata), calêndula (Calendula officinalis), cavalinha (Equisetum giganteum ou hyemale), hibisco (Hibiscus sabdariffa), entre outras.

Para o olfato: ervas aromáticas, como as usadas para chás e temperos: camomila (Matricaria chamomilla), orégano (Origanum vulgare), alecrim (Rosmarinus officinalis), manjericão (Ocimum basilicum) e hortelã (Mentha). Podem ser usadas, ainda, espécies com flores perfumadas, a exemplo das gardênias (Gardenia jasminoides), da orquídea Sherry baby (aroma de chocolate), diplodenia (aroma de tutti frutti), alisso (aroma de mel) e erva-luísa e tuia-limão (aroma de limão).

Tato: para o contato direto com as plantas, pelo toque, são ideais as suculentas ou crassulaceaes, como o bálsamo, plantas com folhas aveludadas, como a gynura (veludo-roxo) e corações-emaranhados (Ceropegia woodii); flor-de-maio (Schlumbergera truncata) ou de outubro (Rhipsalidopsis rosea).

Gustação: para despertar esse sentido, basta experimentar as ervas aromáticas do canteiro olfativo. Pode-se, ainda, optar por canteiros de frutíferas (para chamar os passarinhos), com tomatinhos e morangos.

Audição: o barulho da água de fontes e cascatas tem poder terapêutico e acalma. Plantas que fazem barulho com a passagem do vento podem ser outra opção ou pequenos sinos de vento pendurados nas árvores.

Outros locais com jardim  sensorial: Jardim Botânico de Brasília e Jardim Zoobotânico da Amazônia (também conhecido como Bosque Rodrigues Alves).


Conheça e experimente

Quem quiser criar um jardim sensorial doméstico pode incluir também as chamadas PANCs (Plantas alimentícias não convencionais), tais como o ora-pro-nóbis e a taioba, verduras típicas da culinária mineira. Conheça outros exemplos de PANCs:

Beldroega Portulaca oleraceae: indicadora de boa fertilidade do solo. Refogados ou crus, os talos e as folhas são comestíveis. As flores podem ser usadas em saladas.

Dente-de-leão Taraxacum officinale: refogado com alho e sal.

Capuchinha Tropaeolum majus: as flores são usadas para
colorir saladas.

Jambu Acmella oleracea: essencial no tacacá, prato típico da culinária amazônica.

TaiobaX. sagittifolium: refogar os talos verdes e as folhas.

SalicórniaSarcocornia perennis: dela é produzido um fito sal que tem baixíssimo percentual de sódio, ômega 6 e 3.

GoyaMomordica charantia: muito usada na culinária japonesa.


Mais sensibilidade

Paulo Henrique: “O jardim traz sensibilidade em meio ao racional” - Divulgação/JBRJ

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) também abriga um jardim sensorial. Inaugurado em 2014, ele faz parte de uma ação de extensão organizada pelo professor do Departamento de Botânica, Daniel Sales Pimenta. “Com as visitas guiadas, os interessados exploram da maneira correta as inúmeras possibilidades que esse jardim oferece. O principal objetivo do espaço é trazer à tona a sensibilidade em meio ao racional, quebrando a rotina e a pressa do dia a dia”, explica.

O jardim, que já recebeu mais de seis mil visitantes, é dividido em quatro partes: fogo, água, terra e ar. Em cada uma delas o ambiente apresenta variações no tipo de plantas – são mais de 30 espécies – e também no terreno em que se pisa. Durante a visita guiada, os participantes são convidados a tirar os sapatos e a vendar os olhos para ampliar, assim, a gama de sensações que o percurso pode causar.


DEPOIMENTO

“Como monitor, vivi incontáveis experiências com os visitantes, em sua maioria acontecimentos e bate-papos inspiradores e muito emocionantes. Em uma delas, um homem adulto, acompanhado da mulher e do filho, depois de ouvir a explicação sobre o local, se propôs a fazer o percurso. Disse estar estressado com o patrão e que a visita o ajudaria a ‘melhorar a cabeça’. Ao fim, maravilhado com as sensações experimentadas, mas meio sem jeito de me abraçar, ele me estendeu a mão. Falei para não ter vergonha e me abraçar. Caímos na gargalhada! Agradecido e chorando, ele prometeu voltar.”

Paulo Henrique Brasileiro Silvério, mestrando em Ecologia na UFJF e ex-monitor do jardim sensorial

FONTES/PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

Marizeth Estrela Paisagismo, sites IBDA/Fórum da Construção, Vale, UFJF e Agência Brasil.


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