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Segunda, 20 de março de 2017

Barro nos zói!

A arruda (Ruta graveolens) serve como base para produção de pasta que alivia ardor nos olhos

Marcos Guião - redacao@revistaecologico.com.br



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Dona Celita e o barro: alívio para os olhos - Imagem: Marcos Guião

Dona Celita e o barro: alívio para os olhos - Imagem: Marcos Guião

Num tem coisa mió que andança no sertão. O vivente se vai indo pra lugar nenhum, mas a alegria da andança na natureza dá aragem na alma e a fadiga nem existe. É só contentamento. Foi numa dessas que Chico da Mata me jogou com um cardume de mulheres, todas carregadas de sabedoria das plantas. Confesso que num tenho prática de conhecimento na caatinga, e achei essa oportunidade uma belezura.

O sertão ainda tava verdolengo derivado das poucas chuvas caídas na semana anterior nos eitos de Catuti. Mas isso não era aliveio, porque o sol tava estralando e o calor montado. Na prevenção, a mulherada passou protetor solar na cara, emprestando umas as outras, mas eu declinei dessa prática. A turba barulhenta se foi indo num despropósito de alegria pro meio dos garranchos espinhentos, debulhando conhecimento e trocando figurinhas. De repente, dei de reparar que dona Celita, uma das mais esperta e faladeira do grupo, amuou. Num tardou ela chamar pela cumadre Tilda e as duas foram se desgarrando, caçando sombra aqui, acolá e quando pensa que não, estacaram.

- Daqui num dou nem mais um passo - disse firme dona Celita. Chico se acercou pra perguntar a razão. Ela mostrou os olhos congestionados, vermelhos e lacrimejantes.

- É essa praga de protetô, que se escorreu com o suor e tá arruinando meus zóio... - lamentou ela, enquanto lavava mais uma vez o rosto completamente congestionado. Dali mesmo deu-se meia volta e, no trote até a casa, ela desgarrou do grupo e saiu na carreira em busca de alívio. Chico marchou atrás e eu junto. Quando chegamos em casa de seu Joaquim, a charrete já tava com a égua arriada e ela se ajeitando pra buscar socorro em Catuti, distante doze quilômetros.

Com jeito, Chico ponderou sobre o esforço e a conduziu até a sala. Lá ela se deitou, deixou a cabeça no braço do sofá e manteve os olhos fechados. Rapidamente ele foi até a horta, colheu arruda (Ruta graveolens), amassou no fundo de uma caneca e espremeu o sumo sobre duas colheres de argila medicinal dispostas num prato, misturando tudo até formar uma pasta maleável. Sem pestanejar, rumou até a sala e colocou uma pelota de argila em cada olho, esparramando com cuidado enquanto falava baixinho:

- Se avexe não, dona Celita, daqui um tim seus zóis tão bão de novo... Sem muita convicção, ela concordava com a cabeça, mas desconfiada chamava por sua cumadre Tilda sem parar.

Depois ela confessou os pensamentos:

- Onde já se viu isso? Em zóio dos outro inté barro eles punha... É porque num é o dele que tá doendo...

Pois num demorou um átimo e ela já deu ponto de alívio. Mais uns minutinhos à toa e ela se levantou, lavou o rosto e voltou pra sala só alegria e sorrisos. Aquilo me pareceu milagre. Calado, me arretirei prum canto e fiquei no reparo da festa que se seguiu. A gente num sabe é de nada dessa vida.

Inté a próxima lua! 

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