Quarta, 22 de março de 2017

O deus que não se esconde

Algo estranho acontece em minh’alma. Tanto que tenho estudado as coisas da inteligência artificial. E, quanto mais estudo, mais a ciência comprova um Deus que não existe.

Roberto Francisco de Souza - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem: Domínio Público

Imagem: Domínio Público

Algo estranho acontece em minh’alma. Tanto que tenho estudado as coisas da inteligência artificial. E, quanto mais estudo, mais a ciência comprova um Deus que não existe.

Tampouco existe alma.

Somos hologramas, algoritmos perdidos na vastidão de um chip. Nosso DNA, um processador barato de uma civilização, sabe-se lá qual, brincando num videogame cósmico.

Em “Homo deus”, uma breve história do amanhã, o historiador israelense Yuval Noah Harari tece, com lógica impressionante, todos os argumentos que nos colocam sozinhos nesta nave azul do universo. Trata-se de trajetória, quantas vezes retratada em ficção, de não devermos, antes de tudo, temer o transcendente, almas penadas ou seres de outros planetas. Em alguns anos, nossos bisnetos não nos reconhecerão mais como espécie igual. Seremos seres inferiores para eles, imiscuídos com as máquinas. Nós, mutantes ao contrário. Eles, a espécie dominante: homodeuses!

Alerta-me o corretor ortográfico: homodeuses não existem, mas tudo faz incômodo sentido! Com sua pouca propensão a negociar, a ciência aponta para a impossibilidade de deuses que se escondem em planetas distantes, no céu de nossa infância ou em igrejas de qualquer crença. Tampouco se esconderia nesta ou naquela crença e faria pouco caso dos que lutam em seu nome, suprema ironia, piada pronta, defensores irredutíveis do Inexistente.

Mas, eu ia contando, algo estranho acontece nessa pobre alma que nem existe, que não pode interagir com a matéria de meu corpo, que não faz sentido algum nem tem utilidade. Quanto mais estudo, quanto mais entendo os riscos do futuro que se avizinha, mais ela clama por Deus, mais O encontra.

Eu me pergunto, sem poder pedir em nome do amor deste Criador que não pode me acudir: como posso sentir tanto o Inexistente?

Reviro meu passado. O ano é 1980. Estudando física para me tornar engenheiro, um professor desatento toca meu coração. Corta uma longa tira de papel, torce-a em parafuso e cola as pontas. Meus olhos pretensiosos se calam. Apresenta-me a lemniscata, o símbolo do infinito. Sem lado de dentro, sem lado de fora, sem começo, sem fim.

Eu não sabia, mas ali me diplomava. Nada mais haveria para se aprender. Nada mais seria relevante. Paciente, o Deus que não existe me viu espalhar pela vida, certo de que desistiria para voltar à essência. Deu-me o gosto pelo essencial.

Agora que, tenho certeza, o mundo passa pela sua mais desafiadora transformação, nossa chance final de sermos humanos; agora que me cabe seguir pelo mundo e evangelizar na tecnologia que transformará pela quarta e mais definitiva vez a nossa história; agora que Deus já não existe, eu O encontro.

Nunca esteve escondido em lugar algum!

Nunca quis deter-se em chamas em minha sarça ardente.

Estava ali, todo o tempo, em todo lugar, antes de qualquer livro sagrado, antes de qualquer galáxia, antes de qualquer coisa existente.

Continua lá, rindo dos que buscam na técnica e só nela a explicação de existir.


Tech Notes:

A lemniscata de Bernoulli https://goo.gl/0dOKVO

HomoDeus https://goo.gl/C3eRHk

O universo é um holograma? https://goo.gl/votf4h


(*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.

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