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Quarta, 22 de março de 2017

Passarinhar é preciso

O Brasil também se destaca por projetos que envolvem o cidadão comum como observador, coletor de dados e aliado da conservação ambiental

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Hoje existem mais de 10 mil espécies de aves registradas 
no planeta, como o sanhaço-azul (Thraupis episcopus) - Imagem: Domínio Público

Hoje existem mais de 10 mil espécies de aves registradas no planeta, como o sanhaço-azul (Thraupis episcopus) - Imagem: Domínio Público

Elas estão presentes em praticamente todos os ambientes. Podem ser observadas em matas fechadas, nas afastadas regiões de montanha e também nas praças e jardins dos movimentados centros urbanos. Com cerca de 10 mil espécies, que desfilam cores, plumagens, cantos, formas, voos e comportamentos variados, as aves têm valor ambiental, econômico, cultural, étnico e até mesmo espiritual para povos de diferentes partes do mundo.

O Brasil é o segundo país em número de espécies, com mais de 1.900, atrás apenas da Colômbia. Desse total, 268 ocorrem somente aqui e 164 são consideradas globalmente em risco de extinção. Os desmatamentos e a consequente diminuição das florestas nativas país afora – para dar lugar a lavouras e pastagens – ameaçam a sobrevivência de várias aves, assim como a caça e o tráfico de espécimes.

Excelentes bioindicadoras de qualidade ambiental, as aves atuam como detectores de mudanças ocorridas nos variados ecossistemas. Através da avifauna observada em determinado local ou região – as espécies presentes ou ausentes e sua abundância – é possível conhecer suas características, seu estado de conservação e também a qualidade de serviços ambientais prestados pela natureza, entre eles a oferta de água limpa.

De acordo com a Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil), organização sem fins lucrativos com sede em São Paulo (SP), a araponga (Procnias nudicollis), por exemplo, só é encontrada em florestas bem preservadas. Já o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), espécie ameaçada de extinção, habita apenas locais onde há nascentes com água pura, enquanto o pardal (Passer domesticus) e o pombo-doméstico (Columba livia), espécies originárias da Europa, são encontradas em ambientes altamente urbanizados.

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Soldadinho-do-araripe: espécie ameaçada de extinção, habita apenas locais onde há nascentes com água pura - Imagem: Wikimedia

Mudanças climáticas

Alterações no status de conservação e na distribuição das espécies também podem levar a soluções de problemas não rastreáveis de outras formas. Monitoramentos feitos ao longo das últimas quatro décadas pela National Audubon Society, organização que representa a aliança BirdLife International nos Estados Unidos, revelaram que 58% das 305 espécies de aves que migram para o continente, no inverno, mudaram significativamente suas áreas de invernagem em direção ao norte – algumas delas em centenas de quilômetros –, devido às mudanças climáticas.

As aves desempenham ainda funções ecológicas vitais, tais como dispersão de sementes, polinização e controle de pragas. Vale citar o “trabalho” de espécies como jacus, sanhaços e arapongas, que se alimentam de frutos, engolindo as sementes sem quebrá-las. Depois, elas são eliminadas junto às fezes em lugares mais distantes, onde germinam e dão origem a novas plantas.

Os beija-flores, por sua vez, se alimentam do néctar das flores e, ao carregar o pólen em seus bicos, realizam a polinização. Há também aves predadoras, que atuam no controle de animais considerados pragas. Entre elas estão as andorinhas (aves insetívoras) e as corujas (que se alimentam de roedores).

 

Conhecimento compartilhado

Do ponto de vista do lazer, da geração de conhecimento e do incentivo ao turismo sustentável, as aves também têm seu protagonismo. A observação de aves (birdwatching, em inglês) é uma prática que atrai milhões de pessoas em todo o mundo. Gente que vivencia momentos únicos de atividade ao ar livre, além de compartilhar conhecimento e interesses em comum.

Estima-se que existam mais de 30 mil observadores de aves no Brasil, número que não para de crescer. Desde 2014, a SAVE Brasil desenvolve o Projeto Cidadão Cientista, por meio de financiamento da Fundação Grupo Boticário. Seu objetivo é envolver observadores de aves na coleta de dados populacionais das espécies existentes em Unidades de Conservação (UCs).

“O engajamento nas atividades tem sido cada vez maior e o número de participantes cresce a cada campanha. Com isso, já geramos um grande volume de dados que contribuíram para aumentar o conhecimento sobre as espécies existentes em parques, reservas e outras unidades de conservação de diferentes regiões”, frisa o ornitólogo Pedro Develey, mestre e doutor em Ecologia e diretor-executivo da SAVE Brasil, ONG que integra a aliança global BirdLife International, presente em mais de 120 países.

Arara-canindé

Arara-canindé (Ara ararauna) -  Imagem: Wikimedia

Plataforma virtual 

Nas trilhas percorridas, as espécies são observadas, identificadas, contadas e registradas. Todos os dados coletados são publicados na plataforma eBird, onde os participantes postam as suas listas. De 2014 até julho de 2016, a SAVE Brasil promoveu 32 campanhas na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, com a participação de mais de 150 pessoas. Desde 2004, o trabalho da instituição já contribuiu para a proteção de uma área equivalente a 60 mil campos de futebol de Mata Atlântica, por meio da articulação e apoio para a criação de UCs.

Ano passado, o Cidadão Cientista ampliou suas atividades, através de uma parceria com o Observatório de Aves do Instituto Butantan e a Prefeitura de São Paulo, por meio da sua Divisão Técnica de Medicina Veterinária e Manejo da Fauna Silvestre (Depave 3). Develey lembra que a participação da sociedade na contagem sistematizada de aves é bastante popular na Europa e nos Estados Unidos.

“É crescente o número de observadores que alimenta programas de monitoramento usados para documentar consequências das intervenções humanas no meio ambiente. As atividades têm como base o conceito de cidadão cientista, visando envolver as pessoas nos debates do campo científico e ampliar tanto a participação ativa quanto o compromisso da sociedade na construção de uma ciência pública e engajada”, conclui.


Fique por dentro

Entre os seis biomas brasileiros – Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampas e Pantanal, além das zonas Costeira e Marinha – o campeão em número de aves é a Amazônia, com 1.300 espécies. A Mata Atlântica aparece em segundo lugar, com 1.020. A ave-símbolo brasileira é o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris). Já a maior ave do país é a ema (Rhea americana).

No Brasil, 17 espécies de aves globalmente ameaçadas de extinção dependem das florestas próximas a cursos d’água para sobreviver. Desse total, três estão criticamente ameaças: pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) e tiê-bicudo (Conothraupis mesoleuca).

O Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) atualiza e revisa periodicamente a lista de aves do Brasil, especialmente quando novas espécies são descritas pela ciência. Em 2013, ocorreu a maior descoberta da ornitologia brasileira dos últimos 140 anos, quando 15 novas espécies de aves amazônicas foram descritas simultaneamente.

Na mitologia japonesa, o tsuru ou grou (Grus japonensis) é considerado uma ave sagrada, símbolo de saúde, fortuna, boa sorte, longevidade e paz. A espécie representa também o amor conjugal e a fidelidade, pois mantém um único parceiro ao longo de toda a vida.


BH também se destaca

Tipos de passarinhos

Minas Gerais tem registradas cerca de 780 espécies de aves, enquanto todo o continente europeu apresenta aproximadamente 860. Em Belo Horizonte, conforme dados da ONG ECOAVIS – Ecologia e Observação de Aves, podem ser observadas cerca de 350 diferentes espécies.

Só no Parque das Mangabeiras, um dos mais visitados da Região Centro-Sul, já foram avistadas aproximadamente 160 espécies, entre elas jacu (Penelope obscura) e saracura (Aramides saracura).

Outro local de destaque para a observação na capital mineira é a Lagoa da Pampulha. Ela atrai diversas aves migratórias, tais como o maçarico-solitário (Tringa solitaria) e o maçarico-de-perna-amarela (Tringa flavipes), que se reproduzem na América do Norte.

Confira, a seguir, técnicas, dicas e cuidados na observação:

1 – São basicamente duas as técnicas de observação de aves na natureza. A primeira é a de percurso: o observador caminha por locais de sua escolha, ficando atento a toda movimentação ao seu redor.

2 – A segunda é a técnica da espera: o observador escolhe um ponto fixo, onde provavelmente poderá encontrar uma grande quantidade de espécies, e aguarda ali a oportunidade de observá-las. Os locais mais propícios ao aparecimento de aves são: cursos d’água, árvores frutíferas, bordas de mata, comedouros, etc.

3 – A principal dica é manter silêncio, além de movimentar-se devagar e evitar vestir roupas com cores chamativas. Prefira as de cor bege (nos campos e praias) e as de tons verdes (nas áreas de mata).

4 – Entre os acessórios mais usados pelos observadores estão guias de campo, cadernetas de anotações, binóculos, câmeras fotográficas (lentes, tripés etc.) e celulares.

5 – Em relação à segurança, a dica é caminhar com cuidado. Em local urbano, sem mato, fique atento para não pisar em buracos. Use protetor solar e chapéu, para evitar insolação e queimaduras, e só entre em áreas permitidas. Em locais de mata, use perneiras (para evitar picadas de cobra) e mantenha-se alerta quanto à presença de insetos, principalmente vespas e abelhas.

Para outras dicas de segurança, acesse: www.wikiaves.com.br/wikiaves:manual_de_seguranca

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Comentários

Maria Alice Côrtes Figueira Amorim Parga

Olá. Vale a pena ver/ler/divilgar os livros escritos pelo músico e compositor Tavinho Moura, Pássaros poemas do Vale do Aço e Vale do Mutum. Um.belo registro das andanças e observações do artista mineiro, amante de passaros. :) Maria Alice Parga


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