Segunda, 05 de junho de 2017

Botando banca

Das mídias impressas tradicionais para conteúdos alternativos. Conheça a história da banca, que reinventou o modo de trabalhar

Roberto Francisco de Souza - redacao@revistaecologico.com.br



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Imagem - Domínio Público

Imagem - Domínio Público

Enquanto o mundo discute o fim da economia e das revoluções industriais revisitadas, enquanto empresas pregam seu sermão da montanha da inovação, fingindo que se reinventam, estou andando na Savassi, em Belo Horizonte, rua Paraíba cruzando Gonçalves Dias. E vejo que ali tem uma banca.

Explico melhor: não é uma banca. Foi uma banca, pelo menos daquilo que se espera de uma banca - cheia de jornais, revistas Contigo, Palavras Cruzadas e montes de coisa nenhuma.

A banca falia. Verdade verdadeira, ela tinha virado depósito das bugigangas dos distribuidores. Entrava semana, saía semana, Seu João (vamos chamá-lo assim) recebia e devolvia o que ninguém mais queria ler. João bem podia ser um informante do Ibope, sempre pronto a responder que hoje “jornal vende menos”.

Nas horas vagas, ele toureava achacadores que cobravam o espaço de mídia no costado da banca e, como desgraça pouca bem fosse bobagem, uns anos antes um douto diretor da Escola de Arquitetura, bem em frente, obra do arquiteto mineiro Shakespeare Gomes, deu de torrar o saco do João e argumentou que a pobre coitada da banca tava plantada bem na frente dos olhos do dono do sacolão, do outro do lado da rua, o que impedia vistas ao conjunto da obra e ofendia os brios do já defunto projetista e a honra da cidade. Procurou a Secretaria Municipal de Cultura, processou a banca que deu com os burros n’água para, incontinente, ser lançada na clandestinidade.

Nosso João resistia cada dia menos, de modo que estava por jogar a toalha quando apareceram os loucos. Saídos da mesma ofendida escola em frente, uns arquitetozinhos resolveram reinventar a banca.

Quem afinal somos nós, pensaram eles, para mudar assim o destino do deletério comércio? Não sendo nada de nada, só estudantes, nada havia que se pudesse perder. Daí...

Reinventaram a Banca!

E ela, que voltou a ser banca de verdade, devolveu com choro e ranger de dentes o estoque que tivesse das edições reunidas de coisa nenhuma, passou um Veja nas prateleiras e começou a povoá-las de sonhos.

A meninada maluca me explicou que agora a nova banca publica Zines, criação que minha dileta ignorância denunciou que eu nem sabia o que era. E era legal pra caramba quando eu entendi.

Chamaram pessoas que recriaram os livros e eles agora não eram só para ler: agora esculpidos, misturavam a forma com o conteúdo, produzindo loucura ainda maior que a deles próprios.

Como loucura atrai as gentes, logo logo a praça em frente se viu cheia de visitas em lançamentos dos metalivros, regados por escassas doses de cerveja já que, além de loucos, eram duros.

Vieram jornais e TVs para entender no que a Banca havia se tornado. Eu mesmo quis ver com esses olhos que a terra não há de comer, pois eu quero é ser cremado.

E vi! Vi um negócio renascer. Vi uma banca viçar de novo. Vi seu dono acreditar! Também atravessei a rua e, lá da calçada do sacolão, vi que a banca conversava com a obra do Gomes. Ela agora não agredia, mas fazia parte, em forma e espírito, daquela Escola.

Foi nesta hora que eu disse para mim mesmo que ia assustar os exploradores que quisessem destruir a vida que renasce e os fiscais-de-p***-alguma, doidos para multar o ato da criação.

Que venham prefeitos e secretários. Que venham hordas de achacadores e intelectuais complexados, querendo dizer que banca não é cultura. Que venham empresas, querendo ensinar ao João e a seus arquitetos o que é inovação! Venham e toco todos a correr, sem medo algum. Enquanto correm, gritarei, plagiando o Ibrahim Sued: os cães ladram e a banca segue, drummoneamente, no meio do caminho. 

 


Tech Notes

Para conhecer a Banca
goo.gl/tGNHHF

Aprenda o que é um Zine
goo.gl/UD92Od

Um pouco da história da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte
goo.gl/6Uzb43


(*) CEO & Evangelist da Kukac Plansis, fundador do Arborea Instituto. 

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