Segunda, 05 de junho de 2017

O semeador da palavra

Transgressor? Galã? Esqueça os rótulos. Padre Fábio de Melo é um dos maiores pensadores e comunicadores da atualidade quando o assunto é fé, fraternidade e ecologia interior

Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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Fábio José de Melo Silva é mineiro de Formiga (MG) - Foto: Divulgação

Fábio José de Melo Silva é mineiro de Formiga (MG) - Foto: Divulgação

Quando vi o Padre Fábio de Melo pela primeira vez na TV, fiquei incomodado por ele frequentemente não usar o vestuário comum aos sacerdotes católicos, incluindo batinas, túnicas, alvas ou colarinhos romanos. Na minha cabeça, essas vestimentas eram algo indissociável da figura que um padre é e do que representa.

No entanto, não quero entrar no mérito da obrigatoriedade do uso porque sou leigo nesse assunto. Sendo essa minha visão conservadora ou preconceituosa (ou nenhuma das duas), ela me impediu de enxergar uma lição que se desdobrava frente a meus olhos naquele momento: ninguém deve ser ou pensar como desejamos. Ninguém deve ser julgado pelo que veste. O mundo e a humanidade devem evoluir, a cada dia, para que possamos compreender o outro dentro do todo. Temos de olhar as pessoas com um olhar, primeiro, descontruído. E, assim, construí-las conforme os tijolos que elas nos dão.

Padre Fábio é um evangelizador. Ele tem alma e currículo de professor, veio a este mundo para pregar, ensinar, ser ouvido. Ser farol, um guia a levar as pessoas para seguirem o exemplo do Cristo. É um ser humano sensível às causas sociais, à arte, às Sagradas Escrituras, à justiça, à música que enobrece. Respeita o próximo. Resumindo: ajuda os outros a se construírem na Verdade.

Quando ele fala, há um cuidado com a palavra. “Tenho aprendido que o amor é o melhor jeito de responder às questões do mundo. Experimento isso na carne. Eu fico melhor cada vez que amo. Digo isso como religioso que sou”, afirma ele em um dos muitos artigos que escreveu. Sim, ele é escritor – lançou 13 livros e vendeu 3,5 milhões de cópias. E também compositor e cantor: são 20 discos e dois milhões de CDs vendidos ecoando mensagens evangélicas no som do carro, do computador e na estante de milhares de brasileiros. “Tudo o que eu faço, eu faço como padre.”

Assim como todo ser humano, Padre Fábio é um rio. E rio é lugar de encontro. A humanidade precisa se reencontrar, respeitar suas margens, seus afluentes, matar a sede de quem pede apoio na caminhada da vida. Enfim, fazer merecer a chuva que abençoa o caminho para semear e colher bons valores. “Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo”, já dizia ele. E cada um de nós pode perpetuar “na esperança das confluências” que o futuro nos guarda.

Sejamos abertos e atentos para as mensagens e lições que Padre Fábio compartilhou conosco. Confira algumas delas:

 

“Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo.”

 

Poder da palavra

“Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio. Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar na palavra que escolhemos dizer.”

Celibato

“Fico indignado quando a sociedade interpreta a vida celibatária como mera restrição da vida sexual. Fico indignado quando vejo as pessoas se perderem em argumentos rasos, limitando uma questão tão complexa ao contexto do ‘pode ou não pode’.”

Amor

“Gosto de conjugar o verbo ‘amar’ no imperativo – ‘Ame!’. Não há necessidade de complementos. Ame este ou aquele. Ame agora ou depois. É só amar. É só seguir a ordem que o verbo sugere: ‘Ame!’.”

Primavera

“Primavera é tempo de ressurreição. A vida cumpre o ofício de florescer ao seu tempo. O que hoje está revestido de cores precisou passar pelo silêncio das sombras. A vida não é por acaso. Ela é fruto do processo que a encaminha sem pressa e sem atropelos a um destino que não finda, porque é ciclo que a faz continuar em insondáveis movimentos de vida e morte.”

“A primavera só pode ser o que é porque o outono lhe embalou em seus braços. Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra seus destinos de fecundidade. É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição. Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras e dos assovios dos ventos. Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que mais tarde serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.”

Sexualidade

“A sexualidade é apenas um detalhe (da questão de ser padre). Castidade é muito mais. É um elemento que favorece a solidão frutuosa, pois nos coloca diante da possibilidade de fazer da vida uma experiência de doação plena. Digo por mim. Eu não poderia ser um homem casado e levar a vida que levo. Não poderia privar meus filhos de minha presença para fazer as escolhas que faço.”

Solidão

“Eu não sou um homem solitário. Apenas escolhi ser só. Não vivo lamentando o fato de não me casar. Ao contrário, sou muito feliz sendo quem eu sou e fazendo o que faço. Tenho meus limites, minhas lutas cotidianas para manter a minha fidelidade, mas não faço desta luta uma experiência de lamento. Já caí inúmeras vezes ao longo de minha vida. Não tenho medo das minhas quedas. Elas me humanizaram e me ajudaram a compreender o significado da misericórdia.”

Semente

“O florido sobre a terra não é acontecimento sem precedências. Antes da flor, a morte da semente, o suspiro dissonante de quem se desprende do que é para ser revestido de outras grandezas. O que hoje vejo e reconheço belo é apenas uma parte do processo. O que eu não pude ver é o que sustenta a beleza.”

“A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes. A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento. Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.”

Influência

“É mais fácil que alguém nos roube de nós mesmos, porque cada vez que nós somos influenciados – e existe uma força para levar de nós aquilo que temos de mais precioso, que é a nossa liberdade – então, já estamos sendo roubados. Cada vez que você percebe que tem de deixar de ser você mesmo para estar num grupo, quando percebe que a sua vontade está fragilizada ou que o outro tem um acesso inescrupuloso às suas decisões, você está
sendo roubado.”

Viver

“A vida é fruto da decisão de cada momento. Talvez seja por isso que a ideia de plantio seja tão reveladora sobre a arte de viver. Viver é plantar. É atitude de constante semeadura, de deixar cair na terra de nossa existência as mais diversas formas de sementes. Cada escola, por menor que seja, é uma forma de semente que lançamos sobre o canteiro que somos. Um dia, tudo o que agora silenciosamente plantamos, ou deixamos de plantar em nós, será plantação que poderá ser vista de longe.”

 

Quem é ele

Fábio José de Melo Silva é mineiro de Formiga (MG), filho de Dorinato Bias Silva e Ana Maria de Melo. Nasceu em 03 de abril de 1971 e ordenou-se sacerdote em 15 de dezembro de 2001. Formado em Teologia na Faculdade Dehoniana, é pós-graduado em Educação e mestre em Teologia Sistemática. Recentemente, ele foi biografado pelo repórter Rodrigo Alvarez: o livro “Humano Demais”, que conta a história do padre desde o nascimento até o reconhecimento nacional, pode ser encontrado em todas as grandes livrarias do país.

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