Quarta, 09 de setembro de 2009
Arte que dá forma ao pilão
Pilão de madeira é tradicional em Minas e indispensável para a preparação de um bom remédio caseiro
Em Brejinho, no norte de Minas, Zé Grosso
mantém viva a tradição aprendida com o pai
(Marcus Guião)
O trabalho com plantas medicinais requer cuidados que normalmente o consumidor final nem imagina necessários. Afinal, lidar com a saúde de pessoas é tarefa de grande responsabilidade. Por isso, o primeiro passo para se preparar um remédio de qualidade é a escolha, ainda no campo ou na horta, de uma matéria-prima de primeira. O passo seguinte é passar um pente fino no material colhido, desprezando as partes amareladas, furadas ou doentes, pois não se pode fazer um bom remédio a partir de uma planta doente, não é mesmo?
Depois vem a etapa de higienização, lavando, raspando as cascas mortas, picando o que foi apurado em pequenos pedaços e, finalmente, secando de maneira apropriada. Quando devidamente processado e seco, você pode armazenar o material por anos. Mas aí surge um cabra doente e você lança mão de seu estoque para combater um mal-estar de estômago, por exemplo. Qual é a melhor forma de preparar seu remédio? Como xarope? Suco? Tintura ou o pó? Nesse caso o pó da planta é bem indicado e um dos utensílios mais antigos e eficientes neste tipo de preparação é o pilão.
Já vi dele de todo modelo, tamanho e tipo de material – cobre, alumínio, louça e madeira. De acordo com as tradições sertanejas, o pilão de madeira é o melhor, mas não pode ser qualquer madeira. Ela deve ser escolhida obedecendo aos critérios de resistência a pancada, durabilidade, beleza, além de estar bem seca. Aqui, falamos de jatobá, gameleira, angico, aroeira, ipê, pau-preto, peroba e por aí vai. Cada região tem suas preferências, mas todos são unânimes em afirmar que a madeira não pode ser muito amarga e nem perfumada demais, senão ‘contamina’ tudo o que se prepara no pilão.
Outro dia estava na comunidade de Brejinho, Norte de Minas, e conheci Zé Grosso, um pilãozeiro de mão cheia. Homem reservado, de poucas palavras e muita atitude, de longe botei reparo nele, agachado, assoprando um braseiro em cima de um toco, na porta de casa. De forma metódica e paciente, desenrolava verdadeiro ritual em no da rua e eu ficava me perguntando que diabos ele estava fazendo. No segundo dia, não resisti e fui assuntar. Cheguei de mansinho, conversando pelas beiradas e logo fiquei sabendo que aquela empreita era a confecção de um pilão. Com o seguimento da prosa e a curiosidade aguçada, fiquei surpreso com a simplicidade da coisa.
Ele me confessou que não tinha muitas ferramentas para fazer um serviço daquela envergadura, mas repetia o mesmo procedimento usado por seu pai para furar aquele toco de pau-preto, madeira dotada de dureza incomum. As bordas do futuro pilão eram revestidas de um barro preparado ali mesmo, cavando um pequeno buraco no chão, adicionando um pouco de água e formando uma pasta mole. Essa massa é cuidadosa e criteriosamente espalhada, para impedir a queima daquela área, e as brasas despejadas no miolo da peça de madeira vão, lentamente, provocando o afundamento da cuia.
Ao fim do dia, esse braseiro é retirado e, pela manhã, recolocado, repetindo a operação por até 20 dias, ou seja, até “dar ponto de cuia”. Com o buraco central pronto, ele pegou uma ferramenta afiada, tipo formão, raspou as bordas e o fundo do pilão. Para finalizar, colocou alguns cacos de telha e pedaços de tijolos misturados com um pouco de areia, batendo com a mão do pilão de forma cadenciada por meia hora. Segundo sua experiência, este último procedimento limpa completamente o rastro de carvão deixado pelo fogo e deixa as paredes internas bem lisinhas. Depois de lavar bem, está pronto para usar e transformar em pó o que for de necessidade do vivente. Aprendeu a fazer pilão? Até a próxima lua cheia.
Comentários
Nenhum comentario cadastrado
Assim falou...
Campanha de liderança climática
Ensáio fotográfico
Entrevista
Jornada evolutiva IV
Kid Itabirito
Natureza medicinal
Parques de Minas XI
Virtudes da lua cheia de setembro
Cultura
