Quarta, 09 de setembro de 2009
Disciplina
Virgem: a humildade de viver bem com os próprios limites
(Sheyla Alves)
O signo de Virgem está associado à sexta casa da Mandala Astrológica e ao elemento terra. Não mais a terra fecunda do plantio de Touro (segunda casa), mas a terra esgotada de suas reservas nutritivas após uma recente colheita, aquela que já fez todo o trabalho de germinação e maturação. Os frutos são colhidos e tornam-se a prioridade. A terra fica endurecida, aguardando ser refeita para o novo ciclo. Como um signo de Terra, Virgem relaciona-se às funções reais da vida: preservar, cultivar, cuidar e tratar de tudo através de um trabalho assíduo no mundo das formas.
O momento de Virgem é o da colheita real ou simbólica, tomar posse do fruto do trabalho, de onde se investiu. O resultado de uma colheita deve ser pesado e medido, avaliado criteriosamente, calculado e distribuído para durar até a próxima colheita. É hora da disciplina, de estabelecer limites precisos, de ser metódico e ordenado. É preciso saber quanto do que se colheu será consumido, quanto pode se transformar em economias e quanto deve ser trocado em outros gêneros necessários à vida. Uma avaliação cuidadosa e crítica quanto aos erros cometidos e sua reparação são essenciais para organizar a continuidade da própria vida.
Mas, quando se trata de criticar, o grande risco é se deixar paralisar pelo medo de falhar, de não ser suficientemente bom. De alguma forma, todos nós sabemos de nossas limitações e insuficiências. Alguns as vivenciam pesadamente, criando todo tipo de inibições; e outros, hipertrofiam sua produção, escondendo, assim, os sentimentos de fraqueza e incapacidade. Esses sentimentos de menos valia e autodesvalorização têm relação profunda com o aspecto virginiano: são tantos os detalhes a serem cuidados que sempre haverá falha e, em seu impulso de corrigir, melhorar e aperfeiçoar, pode-se ficar aprisionado na insatisfação, negativismo e criticismo, endurecendo até a rigidez.
Esse arquétipo evidencia a relação com o trabalho que é um medidor concreto de nossas capacidades. O trabalho é a fonte de sobrevivência e, ao mesmo tempo, de realização e de desgaste do ser humano. A grande maioria de nós passa a maior parte de seu dia dedicando-se ao trabalho. A primeira lição da sexta casa é a compreensão essencial de que o trabalho de cada indivíduo deve estar adaptado à sua capacidade de realização e não somente à necessidade. Infelizmente, o mais comum é vincular-se ao trabalho por obrigações, perdendo a conexão do prazer de dar contribuição efetiva para o desenvolvimento do todo: seja da empresa, da sociedade ou da humanidade. Além de sentir-se produtivo e útil, outro prazer do trabalho estaria em vivenciar o sentido de valor e propósito, numa competitividade sadia de superação dos próprios limites para aperfeiçoamento de seus frutos. E, por último, o prazer de colher o fruto, de ver o produto final. O prazer da tarefa realizada fortalece a força de vida do indivíduo, devendo seguir-se o merecido repouso para descanso, para usufruir da própria realização e reabastecer-se de energia para a próxima tarefa. Não sendo assim, o esforço excessivo, devido à sobrecarga de tarefas e deveres, gera estresse, cansaço, frustração, desânimo, depressão e perda gradativa da capacidade produtiva.
A segunda lição da sexta casa seria o aprendizado do conjunto: do funcionamento em equipe, somando habilidades para fazer o todo melhor. Reconhecer seus limites e fraquezas, ser capaz de tratá-las com humor e pedir ajuda, é sinal de evolução do aspecto Virginiano, mais livre de seu excesso de exigência e aceitando a possibilidade de falhar. E, aberta essa consciência dos próprios limites e faltas, é possível viver a humildade, com a aceitação plena de que, em meio à grande roda do mundo, cada pequena engrenagem tem a sua importância, e que o grande não funciona sem o pequeno. Se um dente da engrenagem mudar, acabará por forçar a mudança de toda a roda para que mantenha seu funcionamento.
Assim também é com a saúde. Afinal, o corpo é um mecanismo de alta precisão em que as diversas células trabalham para o bem de um organismo maior. Cada célula é um ser em si, porém cada uma é parte de um sistema maior. Cada célula, “tem de fazer seu dever”, mas também tem de se submeter às necessidades do todo maior. Numa pessoa sadia (como numa sociedade sadia) cada componente afirma-se em si e também trabalha em harmonia com os outros componentes. A sexta casa pede que mantenhamos nossa saúde, isto é, nossas diversas partes, a mente, o corpo, os sentimentos e o espírito, numa relação de perfeito funcionamento.
A última lição é a do tempo. O signo de Virgem é tanto o signo do trabalho e do serviço, quanto do amadurecimento e da colheita. Os virginianos não descansam enquanto não têm a certeza de que tudo está em ordem, que já fizeram tudo que precisava ser feito. Cumprida a tarefa, é preciso parar, relaxar e esperar até que “os frutos estejam maduros” para serem colhidos. O saber esperar e o deixar amadurecer são profundas lições do tempo. Nessa etapa temos que considerar os ciclos da vida e as dimensões do tempo, compreender as inabaláveis leis cósmicas que regem os processos de desenvolvimento, crescimento e evolução.
Quando, durante um longo período, os frutos não aparecem, toda pessoa vive a sensação de que seu esforço, cuidado e trabalho foram inúteis, e duvida do sentido das coisas. Essa crise de dúvidas deve ser sempre vivenciada de novo, até registrarmos que todos os seres humanos e todos os processos vivos têm os seus períodos de fluxo e refluxo. A sombra segue a luz. O dia sucede à noite. Essa confiança nas leis da vida deve ser tão intensa que não há escuridão que não possa ser superada. O saber esperar pressupõe essa confiança.
Através dos ensinamentos de Virgem nos refinamos, nos aperfeiçoamos e purificamos, tornando-nos um melhor canal para sermos quem somos. A menos que aprendamos a usar bem as ferramentas que recebemos para a expressão de nosso Ser, não seremos capazes de concretizar ou compreender nossas possibilidades.
É através da disciplina que o indivíduo torna-se “discípulo” de si mesmo. Torna-se seu próprio treinador, professor, técnico e orientador no exercício da realização de suas próprias potencialidades. A disciplina pretende o equilíbrio do uso dos recursos pessoais, treinando-os pela prática, visando à superação gradativa das limitações. Isso pressupõe reconhecer os próprios limites. Não importa o quanto somos grandiosos, divinos ou importantes, precisamos comer, escovar os dentes, pagar contas e aturar todas as necessidades do dia-a-dia, de uma realidade mundana e concreta. Reconhecer os limites e aceitá-los é humildade. (Humildade vem de “húmus”, filhos da terra). A humildade é esse esforço pelo qual o Eu tenta se libertar das ilusões que tem sobre si mesmo. Os humildes vão ao fundo de sua pequenez, de sua miséria, de seu nada. A humildade é a consciência extrema dos limites de si mesmo. A disciplina é a disponibilidade de trabalhá-los repetidamente para transcender tais limites.
Virgem e suas lições terrenas ensinam o respeito à perfeição de nossa natureza original, que nos tornemos o que somos por nós mesmos, em nosso exato tamanho – nem maior, nem menor. A nossa verdadeira vocação é sermos nós mesmos, com nossas pequenezas e grandezas, mas únicos. Cada ser é exemplar único de si mesmo. Essa grandiosa exclusividade é só uma ínfima parcela do todo. Nessa fase, temos a chance de elaborar esse aprendizado, favorecendo a capacidade analítica de Virgem de discernir o valor de cada coisa, discernir entre qualidade e quantidade, o real e o irreal. Desenvolvido o discernimento, é possível agir e viver na confiança da ordenação cósmica, na vida em seu todo, e, assim, praticar o essencial de Virgem: servir. Oferecer seus serviços como parcela de contribuição a um mundo melhor para todos. Servir a humanidade é o método mais eficaz para os Virginianos cooperarem com as forças de sua natureza e com as leis da vida, favorecendo a expressão do verdadeiro ser, em sua exata dimensão e tamanho, com disciplina e humildade.
(*) Ana Ester Nogueira é médica/psicoterapeuta
Coordenadora dos Consultórios ProCurar-se
(31) 3297-5511 / ana.ester@procurarse.com.br
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