Domingo, 09 de julho de 2017

Passado perdido

Novo Atlas da Mata Atlântica aponta que o bioma perdeu 60% de área verde entre 2015 e 2016. Bahia e Minas Gerais foram os estados que mais desmataram



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Contraste e dor: o índice de desmatamento na Mata Atlântica no Brasil, no período 2015-2016, incluindo a tragédia de Mariana, foi o maior em 10 anos. Foto: Wellington Pedro de Oliveira

Contraste e dor: o índice de desmatamento na Mata Atlântica no Brasil, no período 2015-2016, incluindo a tragédia de Mariana, foi o maior em 10 anos. Foto: Wellington Pedro de Oliveira

Parece não ter fim. Enquanto o Brasil vê de olhos vendados o agravamento da crise ambiental, com a legislação sendo brutalmente atacada e enfraquecida para benefício de empresas, empresários e políticos sem escrúpulos, a Mata Atlântica pede socorro. E é impossível que não estejamos ouvindo o seu grito, já no último volume.

É o que mostra os novos dados do “Atlas da Mata Atlântica”, desenvolvido pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), referentes ao período 2015-2016. O estudo aponta o desmatamento de 29.075 hectares (ha), ou 290 km2, nos 17 estados abrangidos pelo bioma, representando um aumento de 57,7% em relação ao período anterior (2014-2015), que foi de 18.433 ha.

“Há mais de uma década não era registrado no bioma um desmatamento nessas proporções. Entre 2005 e 2008 a destruição foi de 102.938 hectares: uma média anual de 34.313 ha. Tivemos um retrocesso muito grande”, afirma Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica.

A Bahia foi o estado que liderou o desmate, com devastação de 12.288 ha – alta de 207% em relação ao ano anterior, quando foram destruídos 3.997 ha. Dois municípios baianos – Santa Cruz Cabrália e Belmonte – lideram o ranking de maiores desmatadores, com supressão de 3.058 ha e 2.119 ha, respectivamente. Se somados aos desmatamentos identificados em outros municípios do Sul da Bahia, como Porto Seguro e Ilhéus, a destruição do bioma local, historicamente conhecida pela chegada dos portugueses e pelo início da colonização do país, chega a 30%. “Essa região é a mais rica do Brasil em biodiversidade e tem grande potencial para o turismo. Nós estamos destruindo um patrimônio que poderia gerar desenvolvimento, trabalho e renda para o estado”, complementa Marcia.

Um sobrevoo realizado por técnicos da SOS Mata Atlântica, em 16 de maio deste ano, sobre os dois municípios baianos constatou queimadas em floresta, conversão das matas em pastagens e processos de limpeza de áreas onde o entorno apresenta forte atividade de silvicultura.

A vice-liderança do ranking do desmatamento da Mata Atlântica ficou com Minas Gerais, com 7.410 ha desmatados, seguido por Paraná (3.453 ha) e Piauí (3.125 ha). Os principais pontos de desmatamento ocorreram nos municípios de Águas Vermelhas (753 ha), São João do Paraíso (573 ha) e Jequitinhonha (450 ha), região reconhecida pelos processos de destruição da Mata Atlântica para produção de carvão ou pela conversão da floresta por plantios de eucalipto.

Minas liderou o ranking em sete das últimas nove edições do “Atlas da Mata Atlântica”, sempre com municípios dessa região figurando na lista dos maiores desmatadores. Mas vem acenando uma nova esperança com o Projeto Plantando o Futuro (leia mais na página 64), que visa plantar 30 milhões de árvores até 2018.

Já no Paraná, os índices de desmatamento voltaram a subir pelo segundo ano consecutivo, passando de 1.988 ha destruídos em 2014 e 2015 para 3.545 ha no período seguinte. Um aumento de 74%. A destruição concentra-se na região das araucárias, espécie ameaçada de extinção, com apenas 3% de florestas remanescentes.

No Piauí, os maiores desmatamentos ocorreram em Manoel Emídio (1.281 ha), Canto do Buriti (641 ha) e Alvorada do Gurguéia (625 ha), municípios limítrofes entre si e próximos ao Parque Nacional Serra das Confusões. Esse é o quarto ano consecutivo que o Atlas registra padrão de desmatamento nesses municípios que ficam numa importante região de fronteira agrícola, que concentra a produção de grãos e é também área de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga.

 

Mobilização urgente

No período de 2015 e 2016 foi identificada supressão da vegetação de restinga em nove dos 17 estados do bioma: Ceará (788 ha), Piauí (244 ha), Santa Catarina (199 ha), Bahia (64 ha), Sergipe (50 ha), São Paulo (32 ha), Rio de Janeiro (29 ha), Paraná (14 ha) e Rio Grande do Norte (6 ha). Já o desmatamento em mangues aconteceu apenas na Bahia, em uma área de 68 ha.

Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, a situação é gravíssima e indica uma reversão na tendência de queda do desmatamento registrada nos últimos anos. E, para ele, não é por acaso que os quatro estados campeões de desmatamento são conhecidos por sua produção agropecuária.

“O setor produtivo voltou a avançar sobre nossas florestas, não só na Mata Atlântica, mas em todos os biomas, após as alterações realizadas no Código Florestal e o subsequente desmonte da legislação ambiental brasileira. Pode ser o início de uma nova fase de crescimento do desmatamento, o que não podemos aceitar”, destaca o também ambientalista.

Segundo ele, a ofensiva continua com a tentativa de flexibilização do licenciamento ambiental e diversos ataques ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação. “No momento em que o caos está instalado em Brasília, numa crise política que tem no seu centro a maior empresa de carnes do mundo, a bancada do agronegócio e o núcleo central do governo federal avançam, de forma orquestrada e em tempo recorde, sobre o nosso sistema de proteção ambiental. A sociedade não pode ficar alheia às decisões tomadas por nossos governantes e legisladores. Precisamos nos mobilizar para frear o desmonte da nossa legislação”, conclui.

 

Desmatamento zero

Em maio de 2015, 17 secretários de Meio Ambiente dos Estados da Mata Atlântica assinaram a carta “Nova História para a Mata Atlântica”, compromisso que prevê a ampliação da cobertura vegetal nativa e a busca do desmatamento ilegal zero no bioma até 2018.

Entretanto, após dois anos do acordo, esta edição do “Atlas da Mata Atlântica” aponta que apenas cinco estados estão no nível do desmatamento zero, ou seja, com menos de 100 hectares (1 km2) de desflorestamentos, somadas áreas desmatadas em florestas, mangues e restingas: Rio Grande do Norte (6 ha), Alagoas (11 ha), Paraíba (32 ha), Pernambuco (16 ha) e Rio de Janeiro (66 ha).

Não estão mais no nível de desmatamento zero Goiás, com 149 ha desmatados; Ceará, com 797 ha e São Paulo, com 730 ha. A boa notícia fica para Pernambuco, que voltou para a lista deste ano com a redução de 88% do desmatamento – passou de 136 ha entre 2014 e 2015 para 16 ha no último ano.

“Apesar do grande aumento do desmatamento em São Paulo, é importante destacar que 90% ocorreram por causas naturais, mais especificamente vendavais e tornados que atingiram os municípios de Jarinu, Atibaia, Mairinque, São Roque e Embu-Guaçu em cinco de junho do ano passado”, esclarece Flávio Jorge Ponzoni, pesquisador e coordenador técnico do estudo pelo Inpe.  

 

Saiba mais: 
www.sosma.org.br

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