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Domingo, 09 de julho de 2017

Minas rumo ao Fórum Mundial da Água

“Não existe matemática hídrica” – Linda Murasawa, superintendente de Sustentabilidade do Banco Santander e diretora Setorial da Federação Brasileira de Bancos (Febraban)

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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MURASAWA:

MURASAWA: "Não há como avançar em segurança hídrica sem planejamento urbano". Foto: Sebastião Jacinto Jr.

Em 2015, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) alertou: a segurança hídrica é fator vital para a perenidade dos negócios. Com o lançamento da publicação “Gerenciamento de Riscos Hídricos no Brasil e o Setor Empresarial: Desafios e Oportunidades”, a entidade mostrou como problemas no suprimento de água podem levar a perdas significativas de produção, aumento de custos com impactos na competitividade, risco de suspensão de licenças e até mesmo de encerramento de uma operação.

Do ponto de vista do sistema financeiro, o alerta segue ativo. A comprovação de ecoeficiência e a adoção de parâmetros sociais e ambientais na análise de risco já são pré-requisitos para a concessão de crédito e aceitação de novos clientes pessoa jurídica em vários bancos brasileiros.

Essa realidade foi apresentada pela superintendente de Sustentabilidade do Banco Santander, Linda Murasawa, durante a “Semana de Produção e Consumo Sustentável”, promovida pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) em 21 e 22 de junho passado, em Belo Horizonte.

No painel “Fórum Mundial da Água 2018 – A segurança da água para a indústria”, a executiva traçou um panorama hídrico do Brasil e do mundo. Pontuou as graves consequências do não gerenciamento desse recurso vital, que tem relação direta com a geração de energia elétrica, com o combate às mudanças climáticas e a necessidade de melhoria dos precários índices de saneamento básico no país.

“O mundo está mudando. Em breve, haverá barreira comercial e supertarifação de produtos que não tenham eficiência em água, em energia elétrica, em redução das emissões de CO2, etc. Não existe ‘matemágica’ ou uma receita de bolo aplicável a tudo. Temos de compreender a urgência das circunstâncias e somar esforços.”

 

Quem é ela:

Uma das mais respeitadas especialistas em sustentabilidade no Brasil, Linda Murasawa foi escolhida pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) para integrar o grupo das 10 mulheres “excepcionais” do mundo por suas contribuições para o desenvolvimento sustentável. Já trabalhou em grandes empresas, como IBM, Villares/Hitachi e Banco Nacional / Unibanco até chegar, em 2001, ao Banco ABN AMRO REAL, adquirido pelo Grupo Santander em 1998.

 

Confira, a seguir, os principais trechos de sua apresentação:

Antevisão

- “A capacidade de antevisão da Fiemg em relação ao tema água merece ser destacada. O fato de estarmos reunidos para debater a segurança hídrica na indústria comprova o quão relevante e urgente é o assunto. Ainda mais quando lembramos que, recentemente, a Agência Nacional das Águas (ANA) publicou uma resolução, proibindo a captação em toda a Bacia do Rio São Francisco, às quartas-feiras, até o mês de novembro, exceto para consumo humano e dessedentação de animais.”

 

Ciência x consciência

- “Considerando o panorama mundial e do Brasil, a situação é cada dia mais crítica. Portanto, não custa lembrar que só 2,5% da água do planeta é doce e apenas 0,3% desse volume está à disposição. Numa comparação rápida, se toda a água (¾) da Terra coubesse numa garrafa de um litro, a disponibilidade de água doce representaria apenas uma gota.”

- “Anualmente, mais de US$ 100 bilhões do PIB mundial são perdidos devido à seca e, a cada 15 segundos, uma criança morre no mundo por falta de acesso à água potável. Até 2030, metade da população estará vivendo em áreas de estresse hídrico elevado, enquanto a captação de água em nível mundial praticamente triplicou nos últimos 50 anos.”

- “Nas análises anuais do Fórum Econômico Mundial, a escassez de água é apontada como um dos três riscos globais de maior impacto, agravada por eventos climáticos extremos, imigrações em larga escala e grandes desastres naturais. Tudo isso é muito sério. Nesse ritmo, seriam necessários 3,5 planetas para suprir todas as nossas demandas atuais de água.”

 

Risco x oportunidade

- “Mas, por que eu, representante de um banco que, em tese não depende diretamente da água em suas operações, estou aqui debatendo segurança hídrica? A ideia é mostrar como o sistema financeiro, que é um grande mitigador e gestor de riscos, também vem atuando nessa questão.”

- “Estamos assistindo a uma mudança muito importante nos modelos financeiros, com várias discussões e medidas em andamento em todo o mundo. Não por acaso, o tema água já é um dos principais fatores analisados na hora de liberar financiamento e calcular taxas.”

- “Fazemos análises de crédito cada vez mais detalhadas, além de complexas simulações para avaliar a capacidade de gestão hídrica e da sustentabilidade como um todo, em empresas e indústrias de diferentes portes e segmentos.”

 

Plano B

- “Além de minimizar o risco financeiro do negócio, a análise socioambiental previne que o banco financie atividades que desrespeitam legislações ou coloquem em risco a saúde pública e o meio ambiente.”

- “Se o cliente não tem, por exemplo, um ‘Plano B’ para casos em que ocorram racionamento e/ou corte no fornecimento público ou opera em áreas sujeitas a seca e estresse hídrico, ele pode ter a sua produção comprometida e até mesmo fechar as portas.”

 

Tecnologia e reúso

- “Além dos produtos e serviços direcionados aos clientes, internamente, temos um amplo programa de gestão ambiental, destinado a minimizar impactos naturais e reduzir os custos financeiros das nossas operações. Monitoramos todo o consumo interno de água, energia elétrica e papel. Felizmente, nos últimos anos, apesar de a operação do Santander Brasil ter crescido, registramos queda significativa na utilização de vários recursos.”

 

- “Estamos alocando cada vez mais tecnologia tanto na construção de novas agências e edificações quanto na manutenção e operação das já existentes. O Santander tem 15 prédios administrativos e quase quatro mil pontos de venda (agências). Entre 2015 e 2016, houve queda de 17% no nosso consumo de água, graças principalmente ao reúso e ao reaproveitamento de água da chuva nos banheiros, na limpeza e na irrigação de jardins.”

 

Boas práticas

- “Não temos como manter uma agência aberta e garantir atendimento ao público sem água. Também somos vulneráveis a esse risco e, por isso, temos procurado avançar em planejamento, gestão e resiliência. Temos procurado internalizar as boas práticas e fazer com que elas realmente funcionem. Na crise hídrica de 2014/2015, nossa agência de Maricá (RJ) ficou quatro meses sem abastecimento público de água. Também tivemos de recorrer a caminhões-pipa.”

- “No auge da crise, chegamos a pagar R$ 6 mil por um caminhão-pipa que, meses antes, custava cerca de R$ 600. E olha que um caminhão dava para manter a agência funcionando só uma semana. Imaginem se tivéssemos de replicar essa medida de urgência para as nossas quatro mil agências? Seria completamente inviável.”

- “Além de reúso e reaproveitamento, há inúmeras tecnologias e mecanismos de eficiência hídrica disponíveis no mercado. Temos dados animadores de empresas que buscaram financiamentos junto ao Santander para essa finalidade e, com isso, reduziram seus custos com água em quase 40%. Isso é muito bom para todo mundo, mostra que dá para fazer.”

 

Modelo global

- “Participamos também do desenvolvimento de um modelo chamado ‘Stress Test Hídrico’, destinado a tornar as instituições financeiras mais resilientes aos riscos ambientais. Trata-se de um projeto-piloto da Agência de Cooperação Internacional da Alemanha (GIZ) e da Aliança Financeira para o Capital Natural (NCFA), que desenvolveram uma ferramenta analítica já testada com sucesso em vários países, permitindo aos bancos quantificar e avaliar os potenciais impactos de secas na performance de suas carteiras de crédito.

 

Saneamento precário

- “No Brasil, outro gargalo hídrico-ambiental é a ausência de saneamento básico. Estamos em 18º lugar no ranking de 24 países latino-americanos nesse quesito. Apenas 39% da nossa população é atendida por serviços de tratamento de esgoto.”

 

De Extrema a NY

- “Para reverter essa realidade, precisamos obter ganhos de eficiência na gestão hídrica, além de investir e incentivar políticas públicas com foco na lógica da conservação, como ocorre em municípios como Extrema, no Sul de Minas, que assegura o pagamento por serviços ambientais a produtores rurais que preservam matas e nascentes em suas terras.”

- “O modelo de Extrema, aliás, é inspirado na experiência de Nova York (EUA). Lá, a água que abastece a cidade é captada a centenas de quilômetros, nas montanhas de Catskill, graças a acordos firmados entre produtores e a prefeitura.”

- “Pode parecer caro investir em canalização para buscar água em locais tão distantes, mas os ganhos são claros e, a conta, muito simples: para cada dólar investido nesse sistema de proteção da biodiversidade e da água economizam-se sete em tratamento. Resultado: a água chega limpa e pura à população, que pode beber diretamente das torneiras.”

- “Além de replicar boas iniciativas, precisamos atuar também em outras frentes, como na redução das perdas que ocorrem nos sistemas de distribuição. Hoje, desperdiçamos quase 40% da água produzida. E considerando o atual ritmo de investimentos, a promessa de universalização do acesso à água/esgoto tratados no Brasil não será cumprida até 2030, quando vencem os prazos dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estipulados pela ONU. Água potável e saneamento é o sexto item dessa agenda de compromisso a ser globalmente implementada.”

 

“Na última crise hídrica, nossa agência de Maricá (RJ) ficou quatro meses sem abastecimento de água. Também tivemos de recorrer a caminhão-pipa”. Foto: Geraldo Humberto  

 

Interdependência

- “No quesito geração de energia, a dependência do Brasil em relação à água também é enorme. Cerca de 60% da nossa geração vem das hidrelétricas. A correlação é direta: se faltar água, corremos o risco de ficar também sem energia. Ou seja: a situação é séria exatamente porque todos os riscos estão interligados. Afinal, água é vida, é sobrevivência, é energia, é business, é competitividade.”

- “É exatamente assim que um banco enxerga o risco, com base nessa interdependência. E nesse contexto, as práticas socioambientais das empresas passam a ser completamente decisivas na escala de crédito, afetando variáveis como taxas, limites, prazos e exigências de garantias nos empréstimos.”

 

Reflexão urgente

- “Não há como avançar em segurança hídrica sem planejamento urbano, sem gestão diária nas indústrias e empresas, sem plano de contingência, sem ações de resiliência, sem mitigação de riscos e sem investimentos em ecoeficiência. Temos de repensar tudo isso.”

- “No geral, as pessoas só costumam parar para refletir e tentar mudar algo quando enfrentam situações de crise. Precisamos modificar essa visão e dar um passo adiante, começando a antever, a planejar e a fazer as transformações necessárias.”

- “A crise atual é séria e ruim para todos, mas sinto que estamos naquela curva na qual, depois de muito afundar, o Brasil começará a recobrar o fôlego e a se recuperar. Por isso, acredito que esse seja um momento muito propício para repensarmos conceitos, hábitos, práticas, modelos de gestão, de produção, etc.”

 

Futuro

- “O mundo está mudando. Em breve, haverá barreira comercial e supertarifação de produtos que não tenham eficiência em água, em energia elétrica, em redução das emissões de CO2, etc. Teremos taxas escalonadas e crescentes: quanto mais recursos naturais um setor consumir, maiores serão as sobretaxas.”

- “Na Europa, já se discutem novos modelos de avaliação e selos de ecoeficiência. Entre eles, o Ecolabel, criado em 2011, e que auxilia na identificação de produtos e serviços que têm impacto ambiental reduzido durante o seu ciclo de vida, da extração da matéria-prima até o descarte final. No Canadá, EUA, Japão e China a tendência é a mesma.”

- “E acreditem: nós somos capazes de fazer tudo isso. Não existe ‘matemágica’ ou uma receita de bolo aplicável a tudo. Temos de compreender a urgência das circunstâncias e somar esforços. O objetivo maior é tornar o Brasil um país verdadeiramente sustentável, mais justo e melhor para todos. Juntos, só temos a lucrar.”

 

Fique por dentro:

- No Santander, a análise de risco socioambiental é aplicada em três situações: aceitação e manutenção de clientes pessoa jurídica do segmento atacado (faturamento acima de R$ 80 milhões/ano) e concessão de crédito com risco de crédito/limites iguais ou maiores que R$ 1 milhão.

- Desde 2002, as empresas que atuam em um dos 14 setores com maior potencial de risco socioambiental passam por uma avaliação específica. Elas respondem a um questionário para levantar informações sobre as práticas de gestão ambiental e de segurança e saúde do trabalho.

- As respostas são analisadas pela área de Risco Socioambiental (RSA), que tem funcionários especializados. Em seguida, os dados são checados em fontes de informação internas e externas e, caso haja dúvidas, o cliente é contatado ou visitado.

- Simultaneamente, é realizado um levantamento de licenças ambientais, autorizações, multas, infrações, indícios de trabalho infantil ou análogo a escravo, terrenos contaminados, certificações e sistemas de gestão socioambiental dessas empresas. Se aprovado, o cliente é acompanhado e anualmente são feitas novas avaliações.

 

Saiba mais: sustentabilidade.santander.com.br

 


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