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Terça, 10 de fevereiro de 2009

Os ecos de Narciso

Alfeu Trancoso



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Alfeu Trancoso

Alfeu Trancoso

O mito de Narciso (Aristófanes, séc.V a.C) é uma das  mais poderosas formas de expressão simbólica criada pelos gregos. Diz o mito que Narciso nasceu tão bonito que sua mãe, Liríope, pediu a um oráculo (Tirésias) que fizesse tudo para que ele continuasse sempre belo. “Se ele não se vir” respondeu o vidente. Assim ele teria sempre de fugir de qualquer espelho. Hoje falamos que ele adora o virtual, mas evita o real. Narciso provocou, com sua beleza, mil paixões. Entre elas, uma muito especial, chamada Eco, que fez tudo para conquistá-lo, mas  fracassou.  Narciso gostava demais dele e, portanto, não conseguia gostar dos outros. Depois de muitas tentativas ela, decepcionada,  se transforma num insensível rochedo. E até hoje, quando falamos a uma pedra, ela nos devolve as palavras repetidamente.

Mas um dia, ao beber água na fonte de Téspias, Narciso se vê, vê sua imagem e se apaixona por ela. Extasiado, paralisa-se por inteiro, e morre apaixonado por ele mesmo. Narciso e Eco representam os dois extremos do sofrimento cotidiano. Ele gosta  demais de si  para poder gostar dos outros e ela não gosta de si porque só  gosta de quem não gosta dela. O extremo amor próprio e a profunda baixa estima se encontram  e logicamente se explodem.

Hoje Narciso anda solto, pois a sedução do virtual ultrapassou os limites do real. O digital e o analógico se tornaram cada vez distantes. A imagem reina soberana, ela é o visual por excelência. O espelho televisivo é mais atraente porque sonhamos mais. Vivemos o tempo da imagem retocada, transfigurada, ela não precisa ser verdadeira, precisa ser agradável de ver. Para Narciso o real dói, é dificultoso e óbvio  demais. Para Eco o amor é impossível, daí ser preferível ser um rochedo insensível a gostar de quem gosta da gente.

Ecologicamente falando, fomos todos educados, como Narciso, a nos vermos como superiores a todos os seres vivos. A Natureza está aí para nos servir. E todos os seus recursos foram produzidos para o nosso uso e deleite. Somos considerados racionais em contraposição á irracionalidade dos demais seres vivos. A natureza representa Eco aquela que deve ser desarmada, explorada e desprezada. Os deuses que comandam o mundo sempre foram masculinos e sempre tiveram uma suspeição desmedida pelo feminino que exprime a fertilidade e, portanto, a Mãe-Terra.

Eis o grande desafio pedagógico da promissora manhã deste século: como sensibilizar as pessoas para aproximar mais do natural, sem medo, mas com cuidado. Fazê-las  tocar as coisas mesmas, sentir que todos nós, de uma  bactéria a um  elefante, somos fios de uma mesma e imensa teia chamada vida.

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