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Terça, 14 de fevereiro de 2012

Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo

Classificação coloca o país no ranking da vergonha

Cíntia Melo - cintia@souecologico.com



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Os agrotóxicos ocupam o 4º lugar no quadro de intoxicações

Os agrotóxicos ocupam o 4º lugar no quadro de intoxicações

Um bilhão de litros. O volume de agrotóxicos que as lavouras brasileiras receberam em 2010 chegou à nossa mesa junto a legumes, grãos, frutas e verduras que consumimos diariamente. Tão sério quanto essa realidade é o fato de que a maioria das pessoas simplesmente não acredita ser capaz de mudar esse quadro. E acaba colocando goela abaixo mais de cinco litros de veneno anualmente. A conta é simples. Basta pegarmos o montante de veneno e dividi-lo pela população do Brasil, de 190 milhões de habitantes hoje. Como se não houvesse outra saída, seguimos consumindo passivamente alimentos contaminados de substâncias químicas altamente nocivas ao nosso organismo. Fazer pregação contrária, de busca de novas alternativas, muitas vezes nos obriga a ouvir argumentos estarrecedores. Faça um teste você mesmo. Discuta o tema em uma roda de amigos, ou em casa, com a família. Fale do perigo eminente da agricultura tradicional e ouvirá coisas do tipo: “como é que vamos fazer para comer, então?”; “não tem como produzir em larga escala sem agrotóxico e os orgânicos são caríssimos”; “esse é o preço que pagamos por morarmos na cidade grande”. E ainda, o pior de todos que já ouvi: “desde que nascemos, morremos um pouco a cada dia, com ou sem agrotóxico”. A questão não é de morte. Mas de vida. Aliás, de qualidade de vida. E há quem garanta, com propriedade, que consumir alimentos saudáveis, vindos do campo para a nossa mesa, não só é possível como também é o caminho futuro da agricultura.

 

Agroecologia - É o caso do ator Marcos Palmeira, que abraçou a agricultura ecológica e é dono de uma fazenda na Região Serrana, no Rio de Janeiro, onde produz mais de 60 itens. Ele foi entrevistado pela ECOLÓGICO (edição nº 20, de 20 de maio de 2010) e na ocasião nos deixou um recado bastante otimista: “A ecologia é uma preocupação de todos hoje. Mesmo quem ainda não a pratica, acabará cedendo. A empresa que não se adequar vai sair do mercado. Acho que a produção agroecológica é totalmente viável. Já existem até incentivos, com bancos financiando projetos a juros baixos”.

Marcos justifica o preço mais “salgado” dos orgânicos hoje. “O valor pago é o justo. Diferentemente do preço dos produtos convencionais, nos quais não estão embutidos os custos com tratamentos e medicamentos pelo consumo de produtos altamente nocivos à saúde”, diz.

Foto: Marcos Palmeira: defensor e produtor da agricultura ecológica / Crédito: Manoel Marques

O ator conheceu de perto a pressão em torno da agricultura tradicional quando resolveu plantar pela primeira vez.  Mas venceu a barreira das multinacionais de veneno, que detêm a agricultura no Brasil. “As grandes indústrias de veneno estão por trás de tudo, ‘ajudando’ os produtores a conseguir créditos bancários facilitados para plantar. Só que eu acredito na agricultura alternativa, saudável, sem agrotóxicos”, revela apaixonado.

Enquanto a agroecologia não se sobressai como o retrato da agricultura no Brasil, o uso indiscriminado de agrotóxicos e os riscos reais que eles representam à nossa saúde saltam aos olhos. É o que você confere a seguir:

 

De olho no lucro – Com a expansão do agronegócio na América Latina, empreendimentos agrícolas como a monocultura, de cultivos extensivos e intensos de agrotóxicos se proliferaram. Na corrida por mais produtividade, eles são utilizados em altas doses, garantindo, assim, grandes safras.

Tão logo as sementes caem na terra já ocorre a primeira aplicação de veneno (de muitas que virão). Junto ao aumento da exportação de commodities agrícolas e da maior participação no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil que esse tipo de agricultura atinge, há também, de forma menos divulgada, o aumento da contaminação e de suicídios de quem lida no campo. Sem esquecer a contaminação silenciosa que a população dos centros urbanos vem sofrendo, ao consumir os alimentos dessa agricultura tradicional. E dos danos causados ao meio ambiente de forma geral.

Agrotóxicos + sementes transgênicas + fertilizantes. Esse é o cálculo firmado entre os produtores rurais e os fornecedores de veneno. Nesse negócio, as multinacionais garantem o preço fixo na venda. Os produtores asseguram safras robustas e lucrativas. As indústrias de agrotóxicos ampliam seus rendimentos, e nós, os consumidores de alimentos, “pagamos o pato” comprando pimentões, alfaces, sucos de soja, tomates e morangos envenenados.

Para Raquel Rigotto, professora e pesquisadora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina do Ceará, os agrotóxicos contribuem com o aumento da produção de commodities, mas não com a segurança alimentar e ambiental. Ela diz que o governo Lula patrocinou o agronegócio em 100 bilhões de reais anuais em financiamentos, contra 16 bilhões para a agricultura familiar, modelo que realmente produz alimentos no Brasil. Mais: que o ex-presidente foi omisso e não mexeu na legislação de 1997 que concedeu isenção de 60% de impostos à indústria de agrotóxicos. “Ampliaram-se as commodities, mas o problema da fome no mundo persiste. A própria Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) reconhece isso”, lamenta. 

Se o governo Lula não foi bem avaliado por Raquel, o que dizer em relação ao atual, já que o Brasil vai aumentar o consumo de agrotóxicos ainda mais? O país pretende alcançar a meta de ser, até 2019, a nação que mais produz alimentos. Nossa produção agrícola poderá passar dos atuais 26% para 35% do que é produzido no planeta.

“Mais de 50% dos agrotóxicos consumidos no Brasil estão sendo usados nas plantações de soja, o que não significa alimentação para o povo brasileiro, mas concentração de terra, redução da biodiversidade, contaminação da água, do solo, do ar, dos trabalhadores e das famílias que vivem em torno desses empreendimentos”, avalia a pesquisadora.

 

Fiscalização – A lei que regulamenta o uso de agrotóxicos no Brasil é a 7.802, de 1989. E deveria controlar desde o tipo de produto que entra no país até a segurança em relação às embalagens dos produtos. Além disso, a legislação também determina como podem ser aplicados os produtos e quais os Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs)  -luvas, botas, óculos, máscara, bonés, macacão, etc  - devem ser usados pelos trabalhadores.  

Há regras também quanto à aquisição dos agrotóxicos. A compra só pode ser feita mediante um receituário emitido por um engenheiro agrônomo, que determinará o produto específico para cada cultura.

A realidade no campo é outra. As irregularidades encontradas são muitas. A fiscalização de agrotóxicos é competência dos governos federal, estaduais e municipais. Em Minas Gerais, a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento realiza esse trabalho com a ajuda de técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). 

Nas propriedades visitadas são encontradas embalagens de agrotóxicos descartadas no meio ambiente sem a recomendada tríplice lavagem do recipiente, aumentando o risco de contaminação do solo, dos córregos, rios, mananciais e lençóis freáticos. É comum que o produtor seja orientado na primeira visita técnica e, na segunda, caso persistam as incorreções, receba uma multa.

O engenheiro agrônomo Décio Karam, da Embrapa Sete Lagoas (MG), participa das vistorias e diz que o que mais tem visto é a aplicação de agrotóxicos em culturas inadequadas. “O uso dos produtos foge às recomendações do Ministério da Agricultura. O produtor utiliza o mesmo agrotóxico na plantação de milho e de batata, por exemplo. Essa é uma das irregularidades que mais encontramos. Há também a falha no monitoramento desse uso em pequenas propriedades e a ausência dos EPIs pelos trabalhadores”, observa.

Conversando com Karam é fácil entender o caminho dessas irregularidades até a nossa mesa. “Nas plantações de milho são utilizados 2,5 quilos de agrotóxicos para combater insetos por hectare (o suficiente para alimentar um grupo de 400 pessoas). Somando-se a esse valor os fungicidas e os herbicidas, a conta pode chegar a seis quilos. Um hectare produz oito mil quilos de grãos. Cada pessoa consome, em média, 15 quilos desse milho (que recebeu veneno da semeadura até a colheita) por ano”, esclarece.

O Ministério da Agricultura é responsável pelo registro dos agrotóxicos no Brasil e o faz com a autorização do IBAMA e da ANVISA. Num estudo realizado em 2008, a agência reavaliou 14 ingredientes ativos contidos em fungicidas, herbicidas e inseticidas. São substâncias que podem provocar intoxicações agudas, câncer, má formação fetal, distúrbios hormonais e problemas pulmonares.

De acordo com a ANVISA, dos cinco produtos avaliados, que já foram banidos do país por suspeita de provocar doenças, apenas dois: o tricloform e a cihexatina, foram retirados do mercado nacional. O fosmete será mantido com restrições; já o endossulfam e o metamidofós serão proibidos também. Mas só em 31 de julho de 2013.

Foto: Cada brasileiro consome 5 litros de agrotóxicos por ano

Os porquês - O metamidofós é um inseticida classificado pela FAO e pela Organização Mundial da Saúde como HHP (High Hazard Pesticide  - Produto de Alto Perigo). Ele foi proibido na China, em 2008. Depois disso a importação do produto pelo Brasil mais que dobrou. O coordenador de Agrotóxicos da Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo federal, Luís Rangel, explica o motivo. “O anúncio em 2008 pela ANVISA de reavaliação de agrotóxicos devido às notificações internacionais de proibição, como o caso da China, despertou o anseio no mercado de que o produto poderia ser proibido e por conta dessa possibilidade houve um aumento das importações e da produção local. Depois de definida a retirada programada entre os ministérios, a importação foi proibida e foram definidos os prazos para utilização do produto até o esgotamento dos estoques.”

De acordo com Rangel, os agrotóxicos ocupam o quarto lugar no quadro de intoxicações do Ministério da Saúde, o que representa menos de um sexto dos casos do primeiro colocado: os medicamentos. “A sociedade está exposta a aproximadamente 35 mil tipos de substâncias químicas todos os dias. Desse total, apenas 400 são classificadas como pesticidas ou agrotóxicos no mundo. Em função dos números e das ocorrências de intoxicação, não se justifica o enquadramento dos agrotóxicos como um problema de saúde pública, uma vez que os números são irrisórios quando comparados a medicamentos, produtos de limpeza e animais peçonhentos”, afirma.

De julho de 2009 a março de 2010, 19 linhas de produção e 12,5 milhões de litros de agrotóxicos foram interditados no Brasil. Entre as infrações, produtos adulterados e com prazo de validade vencido. As multas somaram mais de R$ 2,4 milhões.

“Com os diagnósticos da fiscalização em âmbito nacional, a definição de metas e a organização de ações em eventos nacionais, que ocorrem todos os anos, é possível aumentar a efetividade do controle do poder público sobre essas substâncias e mitigar intoxicações ou resíduos não autorizados em alimentos”, aposta Rangel.

 

Chuva e leite tóxicos – Há regiões no Brasil onde o percentual de produção agrícola é altíssimo, como no Mato Grosso, estado campeão na produção de grãos. De seus 141 municípios, 54 respondem por 90% dessa produção e, consequentemente, pelo consumo de agrotóxicos.

Na região da Chapada dos Guimarães e no Pantanal há plantação de milho, soja, cana-de-açúcar e algodão. As lavouras respondem por mais de nove milhões de hectares plantados. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o estado responde por 20% da produção agrícola do país.

Até a água que cai dos céus do Mato Grosso tem de médio a alto grau de toxicidade.

É o que sustenta o professor-doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o médico Wanderlei Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso. Há 10 anos ele estuda os impactos dos agrotóxicos. “Os destinos percorridos pelos agrotóxicos são muitos. Parte combate ‘pragas’ das lavouras, como insetos, ervas daninhas e fungos. Parte vai para o solo e para o ar. Outra porção contamina os lençóis freáticos, deixando resíduos na água potável, nos rios e córregos, afetando a saúde humana e animal. O restante condensa e vira chuva tóxica”, explica.

Pignati alerta para as três grandes bacias pertencentes ao Mato Grosso: a do Araguaia, a Amazônica e a do Pantanal. “Usar agrotóxicos e fertilizantes químicos aqui é mexer com três grandes bacias do Brasil e com as nascentes dos rios dessas bacias. Mas o agronegócio não respeita isso”, salienta.

Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho, mais de sete milhões de pessoas sofrem anualmente de intoxicações por contato com agrotóxicos. Desse total, 70 mil casos evoluem para óbito. Vale enfatizar que para cada caso registrado há outros 50 sem notificação. “Jogar veneno é quase um ataque de guerra. Não há aplicação segura para o homem nem para animais, plantas ou para a biota como um todo”, enfatiza Pignati.

Lucas do Rio Verde, município do Mato Grosso sofre com a contaminação por pulverização aérea. Lá, a exposição anual aos agrotóxicos por habitante é de aproximadamente 136 litros. Em 2007 Pignati fez parte de uma equipe que iniciou uma perícia por lá. Em um dos estudos locais que coordenou o resultado obtido foi alarmante: em 100% das amostras de leite materno coletadas de 62 mães que amamentaram em 2010 havia contaminação.

Nos resíduos encontrados, substâncias de alta toxicidade como o endossulfam, o deltametrina e o DDE, um metabólico do DDT, proibido há mais de 10 anos no Brasil.

De acordo com Pignati, apesar de contaminado, ainda assim o leite materno cumpriu o papel de importante fonte nutricional, já que é composto por substâncias indispensáveis ao desenvolvimento dos bebês.

Para Pignati, que só consome produtos orgânicos, uma forma de tentar reverter os impactos dos agrotóxicos é cobrar um posicionamento dos proprietários dos centros de compras de legumes, frutas e verduras. “Precisamos fazer com que os governos federal, municipal e estadual façam um monitoramento sobre a quantidade, o tipo e o grau de toxidade dos agrotóxicos que estão sendo utilizados. O consumidor tem poder e, na hora da compra, deve cobrar informações sobre o alimento que está levando para casa. Cabe a ele questionar quem está fornecendo produtos de má qualidade e dizer não”, alerta.       

 

Direto do sacolão – Lavar os alimentos em água corrente antes de consumi-los é uma boa prática de higienização. Mas não resolve o problema por completo. Achar que a água vai retirar todo o veneno é ilusão.

Ainda assim, a dona de casa Vilma Soeiro Pinto, de Belo Horizonte, diz que se sente mais aliviada limpando os alimentos com água e um pouco de detergente (apenas naqueles que serão descascados antes de comer) assim que chega das compras. Ela costuma fazer “sacolão” uma vez por semana e não guarda nada na geladeira antes de lavá-los muito bem. Também gosta de colocar as verduras em uma solução de água e vinagre por aproximadamente 15 minutos.

“Aqui em casa tem muita gente e comprar produtos orgânicos sai caro. Lavo tudo muito bem e guardo em meus próprios vasilhames. Contudo, sempre fico com um pouco de receio de consumir os alimentos tradicionais, mas é o jeito”, diz.

O receio de dona Vilma faz sentido. Segundo a nutricionista Maria Marquez, a prática de lavar frutas, legumes e verduras antes de consumi-los, até reduz um pouco do veneno. Mas nunca elimina totalmente os resíduos. “O ideal é usar sempre água para lavar. Detergente nunca!”, adverte a técnica.

 

Controle biológico – Existem alternativas para driblar o uso intensivo de agrotóxicos em nossas lavouras. Como, por exemplo, fazer o manejo da cultura a partir do controle biológico. A essência do método espontâneo está em inserir predadores naturais na área de cultivo no intuito de provocar um declínio da população de pragas. 

A medida atóxica foi adotada por José Wanderlei de Rezende, no Sítio Bom Jardim, localizado no município de Ervália (MG). Rezende produz morangos sem agrotóxicos desde 2009 e conta que seu processo de certificação “SAT” (Sem Agrotóxico) já está sendo finalizado no Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). Ano passado, o plantio foi de 10 mil mudas em uma área de dois mil metros quadrados. E o produtor pretende colher entre cinco e seis toneladas de morango em 2012.

Para controlar as pragas da cultura, é feita a aplicação de produtos biológicos. 

No combate à lagarta, por exemplo, ele usa a bactéria Bacillus thuringiensis. Nos pulgões (Metopolophium dirhodum), o Nim Indiano (Azadirachta A. Juss.). E, no mofo cinzento (Botrytis cinerea), o controle é feito com o Clonostachys rosea.

Os morangos são vendidos na Universidade de Viçosa e para a própria população de Ervália, com entrega em domicílio. Pioneiro na região na plantação de morangos, Rezende está feliz com o caminho menos agressivo que escolheu para manejar sua cultura e acredita que é viável produzir sem agrotóxicos. “Estamos vivendo em um século envenenado. Tudo hoje é à base de química. O uso de agrotóxicos no campo é indiscriminado. Ou seja, muitas pessoas estão comprando e levando veneno para a mesa. Mas acredito na produção saudável de alimentos. Por isso, prefiro oferecer ao meu consumidor mais qualidade”, defende.

O Brasil importa produtos biológicos. Mas já existe fabricação nacional. Uma delas, desenvolvida pelo laboratório de Biotecnologia Bthek, no Distrito Federal, em parceria com a Embrapa, é a bactéria Bacillus Thuringiensis Kurstaki, popularmente chamada de BT, capaz de matar lagartas e besouros e inofensiva ao homem, aos animais e ao meio ambiente. “A não ser pelos conservantes, não há aditivos químicos nem toxicidade alguma. O foco de utilização é o combate a lagartas da espécie lepidóptera em lavouras de soja, milho, trigo e algodão. Além de pastagens, hortaliças e em plantações frutíferas em geral”, diz Mateus Tozatti, diretor-geral do Bthek.

Boa notícia para o ser humano, os animais e a natureza, não? Só que a novidade esbarra na burocracia e na disputa de espaço com as grandes multinacionais que produzem veneno. As maiores  - Bayer, Dow, Basf, Monsanto, Syngenta e Du Pont  - concentram 70% do mercado nacional.

“Estamos esperando mudanças no que diz respeito ao registro de produtos biológicos. Uma delas, que já está ocorrendo, é a mudança no rótulo. A alteração não classifica mais os produtos biológicos como venenos. Já a concorrência, essa sempre vai existir. Temos de ser capaz de superá-la não só com ‘batalha’, mas muitas vezes com união e realização de alianças e parcerias”, acredita Tozatti.

O produto está, há mais de dois anos, em fase de registro no Ministério da Agricultura.

Logística reversa – Se o Brasil é o primeiro no ranking de consumo de agrotóxicos, também é campeão mundial na reciclagem de embalagens. Os recipientes podem ser guardados durante um ano. Antes de ser devolvido ao fabricante, tem de ser lavado três vezes e perfurado. O produtor deve enviar as embalagens aos postos de recolhimento autorizados pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). O órgão, criado em 2001 pela própria indústria, já recolheu 170 mil toneladas de embalagens.

Campeão no uso de agrotóxicos e na reciclagem de embalagens - Foto: Reprodução

O Sistema Campo Limpo, que trabalha com a logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos, opera com 421 unidades de recebimento em 25 estados, além do Distrito Federal, cobrindo praticamente todas as regiões agrícolas do país. É o que garante Priscila Cunha, assessora de comunicação do instituto. “O Sistema Campo Limpo retira do meio ambiente quase 95% das embalagens primárias de defensivos agrícolas pós-consumo colocadas no mercado. De março de 2002 (quando entrou em funcionamento) até outubro de 2011, já foram destinadas mais de 198 mil toneladas de embalagens vazias. E entre janeiro e outubro de 2011, foram encaminhadas para o destino ambientalmente correto 29.790 toneladas em todo o país, volume que representa um crescimento de 10% em relação ao mesmo período de 2010”, registra.

De acordo com Priscila, os recipientes são reciclados ou incinerados. São passíveis de reciclagem, 95% das embalagens vazias de defensivos agrícolas: as plásticas, as metálicas e de papelão. Os 5% restantes são embalagens que tecnicamente não podem ser lavadas, como as flexíveis e que acondicionam produtos não misturados em água. Já as que não foram corretamente lavadas pelos agricultores também são encaminhadas para a incineração.

Atualmente são produzidos diversos artefatos por meio da reciclagem das embalagens vazias de agrotóxicos como tubo para esgoto, cruzeta de poste de transmissão de energia, embalagem para óleo lubrificante, caixa de bateria automotiva, entre outros.

O quadro ao lado mostra um comparativo da destinação de embalagens no Brasil nos dois últimos anos. A prática da logística reversa cresce.

 

Alternativas - Andar na direção contrária não é muito fácil, mas tem seu valor. Para quem está disposto a arregaçar as mangas e se alimentar melhor, dá até para planejar a própria horta em casa. Parece difícil, ainda mais na correria em que a gente vive hoje em dia. Mas é possível. Aos menos animados com a ideia, que já se adiantaram usando a desculpa de que moram em apartamento, há a sugestão do plantio em moradias verticalizadas.

É isso mesmo. Pensando em reestabelecer a integração entre os habitantes dos centros urbanos e a natureza, nasceu o ‘Dedo Verde Urbano’. Com técnicas simples e linguagem didática, o projeto incentiva uma vida mais verde e ensina (por meio de um vídeo) o passo a passo de todas as etapas do cultivo de uma horta de temperos em apartamentos.


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“A intenção é sensibilizar o cidadão comum, que muitas vezes não enxerga no cotidiano das grandes cidades o prejuízo que suas atitudes trazem para si próprio. Mostramos que mesmo em áreas pequenas é possível cultivar uma pequena horta de temperos. É só ter dedicação e técnica”, explica o roteirista Hélio Lemos, idealizador do projeto.

Para participar basta ter boa vontade e aplicar as técnicas ensinadas no vídeo por uma equipe de especialistas em hortas urbanas. O resultado, além da parceria com a natureza e a contribuição para uma cidade mais harmonizada, está no prazer de poder tirar, na hora e direto do pé, os temperos para incrementar suas receitas caseiras.

Segundo Lemos, a crise urbana é cada vez mais intensa e só poderá ser enfrentada com sucesso dentro de uma concepção que vise à integração da cidade ao ambiente natural.

Em longo prazo, ele pretende promover a alfabetização ecológica da população. “Reconhecemos a marca dos carros estacionados na nossa rua, mas não sabemos nomear a árvore que temos na porta de nosso prédio que nos dá sombra o ano inteiro”, ressalta Lemos.

Ele acredita que o contato com o verde e a natureza amplia a percepção da vida. “Cuidando de um vaso de planta, de uma pequena horta, o ser humano pode redescobrir sua essência e transformar a cidade em um lugar melhor para se viver ”.

 

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