Sexta, 13 de abril de 2012

Apaixonando-se novamente

Más notícias são o destaque que nos oferecem diariamente, alimentando a nossa falta de esperança.

Andrea Zenóbio Gunneng - redacao@revistaecologico.com.br



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Foto: Clipart

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“Não será o suficiente, Andréa. É preciso mais. Nos apaixonarmos novamente pelo Planeta Terra é a inspiração que falta para agirmos sustentavelmente na vida e mudarmos o curso da história da humanidade”.O cineasta  John Dennis Liu falava sério – e seu argumento, proclamado em voz calma e quieta, silenciou a calorosa discussão que vínhamos travando até então. Ao redor da mesa, jornalistas, arquitetos, astrofísicos, ambientalistas, diplomatas, escritores e cientistas da Alemanha, Estados Unidos, Brasil, França, Noruega e China, saboreando um jantar preparado pelo próprio John.  
O ponto em que todos concordávamos era sobre o negativismo que impera na mídia internacional, que sobrevive, tal qual um vampiro, de notícias sanguinolentas. Más notícias são o destaque que nos oferecem diariamente, alimentando a nossa falta de esperança e motivação para agir, mudar e adotar um estilo de vida sustentável, onde o uso dos recursos naturais por nossa geração se dê  em um patamar que permita, aos que ainda virão, herdar um planeta saudável.
Contrapor esse padrão depressivo da imprensa vem sendo, entretanto, tarefa abraçada por alguns dos jornalistas presentes ao redor daquela mesa. Daí, o foco de nossa animada conversa no Projeto de Educação Ambiental da Mídia (Environmental Education Media Project – www.eemp.org) promovido por John Dennis Liu.

Experiência de sucesso
John produz filmes e documentários em parceria com várias organizações de desenvolvimento, mostrando como a restauração em grande escala de ecossistemas resulta, não somente em erradicação da pobreza das comunidades envolvidas, como também em ações efetivas para estabilizar o clima.
Em 2010, sua produção “Esperança num clima em mudança” (‘Hope in a changing climate’, disponível no YouTube) recebeu o prêmio de melhor filme na categoria ‘Ecossistema’, da 33ª Edição do Festival Internacional de Cinema Animais Selvagens, em Montana, Canadá; e foi exibido também pela BBC Mundo. O roteiro relata a história de como uma comunidade se uniu para restaurar 35 mil km2 de terra no Norte Central da China, lugar de origem da raça ‘han’, cabeceira do Rio Amarelo e, hoje,  apóia, sustentavelmente, as atividades econômica, social e agrícola daquela comunidade.
Tal experiência vem sendo reproduzida, com sucesso, ao redor da China, e em outros países da Ásia e África. Kosima Liu, esposa de John vem promovendo e disseminando essa prática na Coreia do Norte. Mês passado, ela organizou o Seminário Internacional sobre Restauração de Florestas e Paisagens, em Pyongyang, capital daquele país, tendo como patrocinador principal a Associação Americana para o Avanço da Ciência. O objetivo foi mostrar o imenso potencial que existe ao se aplicar a restauração de ecossistemas como uma estratégia global de desenvolvimento.
Foi quando sugeri que, talvez, a proposta da RIO+20 em alcançar um acordo global para se colocar um preço no uso dos recursos naturais colabore com a demanda urgente de se usar a água, as florestas e os minerais  de uma forma equilibrada – e com isso manter os ecossistemas – os manguezais, as florestas tropicais, os oceanos, o cerrado – saudáveis. Daí a resposta imediata de John: “Não será o suficiente, Andréa. É preciso nos apaixonar novamente pelo Planeta Terra”. Esse é o tema de um documentário que John e Kosima estão produzindo e apresentarão na RIO+20, retratando uma área de floresta primeva nos Estados Unidos.
Como assim, apaixonar-se pelo Planeta Terra? Ao meu olhar interrogativo, John respondeu com um sorriso. Hora de nos despedirmos. Em meio a um forte abraço, John me sussurra: “E se mudarmos?” Como assim? “Dê uma olhada no website ‘www.whatifwechange.org’. Definitivamente, esse foi o encontro mais interessante  nesses 1,7 meses em que estamos morando em Pequim.

Outro chamamento
Ainda inspirada pela noite anterior, totalmente mágica, qual não foi minha surpresa ao abrir o website do jornal inglês “The Guardian”, na manhã seguinte, e ver estampado, com destaque, o artigo “Além do meio ambiente: Apaixonando-se pela Mãe Terra” e a chamada: “Mestre zen Thich Nhat Hanh explica porque a atenção plena e uma revolução espiritual, ao invés de uma mudança puramente econômica, são necessárias para proteger a natureza e limitar as mudanças climáticas”.
Thay, como é conhecido o monge de 86 anos,vê a falta de sentido e de conexão na vida das pessoas como a causa de nossa dependência do consumismo. “Precisamos ir além de apenas falar sobre o meio ambiente, pois isso leva as pessoas a se considerar e à Terra como duas entidades separadas,  vendo o planeta em termos apenas do que ele pode fazer por elas”, recomenda Thay.
A respeito do pensamento atual nos círculos econômicos e empresariais de que a melhor maneira de proteger o Planeta é estipular um valor econômico para a natureza, Thay argumenta que isso é semelhante a colocar gesso em uma ferida aberta. “Não vai funcionar. Precisamos de um verdadeiro despertar, iluminação para mudar nossa maneira de pensar e ver as coisas. Uma mudança em nível fundamental somente ocorrerá se nos apaixonarmos novamente pelo Planeta”.
“Quando reconhecemos as virtudes, o talento e a beleza da Mãe Terra, algo brota em nós, algum tipo de conexão; e então, o amor nasce. Todos nós queremos estar conectados. Esse é o significado do amor – nos tornarmos um. Quando você ama alguém, quer dizer ‘eu preciso de você, me refugio em ti’. Você faz qualquer coisa para o benefício da Terra e o planeta faz qualquer coisa para o seu bem-estar.”
Lágrimas em meus olhos!


(*) Jornalista ambiental e editora do Portal Conexão Verde www.conexaoverde.com

 

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