Quinta, 10 de maio de 2012
A paixão e morte da Amazônia
Nicilene é mais uma mulher, presidenta Dilma, marcada para morrer por defender a Amazônia. Até quando?
Arte: Ecológico
Praticamente toda semana um trabalhador rural, indígena, ribeirinho ou quilombola é morto na Amazônia. Enquanto alguns chegam à mídia, a imensa maioria é velada por seus companheiros à sombra do silêncio e da impunidade. De 1985 a 2010, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), 1.580 pessoas foram assassinadas no Brasil por conta de conflitos no campo, dos quais 1.033 na Amazônia Legal. Apenas 88 casos foram a julgamento, e somente 69 executores e 20 mandantes condenados. Em 2010, havia também 125 pessoas ameaçadas de morte por defender a floresta e os direitos de pequenos agricultores e trabalhadores rurais. E mais da metade - 83 delas - morava na Amazônia Legal.
A roda que move a matança é conhecida. E, nesta Edição Especial da ECOLÓGICO, à véspera da Rio+20, é contada pela repórter Ana Aranha a partir da história da agricultora familiar Nicelene Miguel de Lima. Defensora da floresta, já teve sua casa queimada em um incêndio anunciado. Líder comunitária, foi obrigada a fugir enrolada em um lençol para despistar o pistoleiro que estava de campana no portão de sua casa. Nicilene é mais uma mulher, presidenta Dilma, marcada para morrer por defender a Amazônia, o nosso direito à vida, numa luta que ainda estamos muito longe de ganhar.
Que o diga o Congresso, que aprovou no fim de abril um novo código florestal repleto de bondades para quem fez girar o motor da devastação. Entre os destaques aprovados, os deputados concordaram em manter a possibilidade de redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em áreas de desmatamento consolidado. Ex-excluíram os artigos que tratavam da regularização das fazendas de camarão e retiraram a necessidade dos planos diretores dos municípios observarem os limites gerais de áreas de preservação permanente (APPs) em torno de rios, lagos e outras formações sujeitas à proteção.
O novo código, que depende agora da sanção da presidente Dilma Rousseff, também desobrigou os proprietários de terra a apresentarem o Certificado de Regularização Ambiental (CRA) para obter financiamentos e créditos do governo.
A senha é clara. Quem esteve ao lado do desmatamento e da devastação pode ser perdoado pelo Estado, sem que isso signifique a criação de um instrumento sequer para beneficiar quem luta e trabalha pela floresta em pé.
Segundo o sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), o desmatamento na Amazônia Legal quase triplicou, entre janeiro e março de 2012, se comparado com o mesmo período do ano passado. Nesses mesmos três meses, outros guardiões anônimos da floresta certamente morreram sem que suas histórias chegassem a uma folha de jornal. A história de Nicelene não é apenas a de uma mulher que sujeita a própria vida para defender um pedaço de floresta em Lábrea, no Amazonas. É a história da própria Amazônia.
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