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Quinta, 10 de maio de 2012

Tem muita gente sumida, enterrada lá para dentro

Depois de anunciar que seria testemunha a favor de produtores em disputa por terra, produtor diz que foi preso injustamente

Ana Aranha - publica@gmail.com



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Foto: Ana Aranha/Agência Pública

Foto: Ana Aranha/Agência Pública

Se­bas­tião de Oli­vei­ra Pe­rei­ra tra­ba­lha com fre­te pa­ra com­prar e re­ven­der os pro­du­tos co­lhi­dos por cas­ta­nhei­ros e se­rin­guei­ros do sul de Lá­brea. Co­mo há gri­lei­ros que­ren­do ex­pul­sar es­ses se­rin­guei­ros de sua ter­ra, ele avi­sou que iria de­por a fa­vor dos se­rin­guei­ros. Me­ses de­pois, foi pre­so. Acu­sa­do de co­me­ter os cri­mes que que­ria de­nun­ciar: pis­to­la­gem e da­no am­bien­tal, en­tre ou­tros.
Se­gun­do o man­da­do de pri­são, ele foi de­nun­cia­do pe­la lí­der Nil­ci­le­ne Mi­guel de Li­ma. Ela ne­ga ter fei­to qual­quer de­nún­cia con­tra ele e aju­dou a le­van­tar um abai­xo-as­si­na­do pa­ra ti­rá-lo da ca­deia.
“Nas­ci no ma­to aqui do sul de Lá­brea, mi­nha fa­mí­lia me­xia com se­rin­ga e açaí. Com 13 anos ti­ra­ram a gen­te a ba­la e per­de­mos tu­do, pas­sa­mos oi­to anos na Bo­lí­via. Quan­do vol­tei, em 2010, vim mo­rar de alu­guel aqui na vi­la [No­va Ca­li­fór­nia, vi­la mais pró­xi­ma] e co­me­cei a fa­zer fre­te pa­ra ven­der o açaí, cu­pua­çu e cas­ta­nha que o pes­soal pe­ga lá den­tro. Nes­sa épo­ca, os gri­lei­ros já ti­nham co­lo­ca­do dois ho­mens na por­tei­ra pa­ra im­pe­dir os se­rin­guei­ros de en­trar.
Um dia de 2010, to­pei com es­se gri­lei­ro e mais cin­co peões ar­ma­dos no ca­mi­nho. Ele dis­se: ‘se vo­cê en­trar, eles vão te lin­char’. Eu dis­se que es­ta­va só fa­zen­do meu ser­vi­ço, o fre­te. Mas fi­quei aten­to por­que eles são pe­ri­go­sos, ma­tam mes­mo. Tem mui­ta gen­te su­mi­da aí, quei­ma­do, en­ter­ra­do lá pa­ra den­tro.
De­pois eles amea­ça­ram bo­tar fo­go no meu car­ro por­que eu não pa­rei de le­var as coi­sas pa­ra o po­vo. Eles que­rem ti­rar to­do mun­do lá de den­tro, mas não po­de fa­zer uma coi­sa des­sas, já tem mui­to se­rin­guei­ro pas­san­do fo­me aqui na vi­la. No tem­po que fo­mos cria­dos na ma­ta, não ti­nha on­de es­tu­dar. Eles não tem um sa­ber pa­ra tra­ba­lhar na ci­da­de. Co­mo eu não pos­so en­trar mais com a ca­mi­nho­ne­te, vou até on­de dá e de­pois le­vo as coi­sas nas cos­tas. Le­vo tá­bua, ar­roz, fei­jão, o que for pre­ci­so. Co­nhe­ço es­sa gen­te aí des­de que sou me­ni­no, não vou aju­dar?
O pro­ble­ma mes­mo foi quan­do co­me­cei a fa­lar que ía de­por a fa­vor dos se­rin­guei­ros na dis­pu­ta pe­la ter­ra.  Aí es­se gri­lei­ro não gos­tou, co­me­çou a es­pa­lhar que sou eu que tra­ba­lho na por­tei­ra de­le. Que eu é que ba­to nos ou­tros, der­ru­bo ár­vo­re. Um dia eu es­ta­va na as­so­cia­ção ven­den­do cu­pua­çu e ele pas­sou de ca­mi­nho­ne­te com a po­lí­cia, apon­tan­do pa­ra mim. E não é que a po­lí­cia me pren­deu? Me le­va­ram pa­ra Ex­tre­ma e Por­to Ve­lho. Fi­quei 70 dias pre­so por cin­co cas­ti­gos: da­no am­bien­tal, ten­ta­ti­va de ho­mi­cí­dio, pis­to­la­gem, por­te de ar­ma e mas­sa­cre –que é dar peia, ba­ter nos ou­tros.
O de­le­ga­do dis­se que foi a Nil­ci­le­ne e ou­tras cas­ta­nhei­ras que ti­nham re­gis­tra­do quei­xa con­tra mim, mas eu não acre­di­tei. Eu co­nhe­ço es­se po­vo há mui­to tem­po, eles não íam fa­zer is­so. Es­se po­vo se reu­niu foi pa­ra fa­zer um abai­xo as­si­na­do, 370 as­si­na­tu­ras di­zen­do que eu não fa­zia es­sas coi­sas. Mi­nha fa­mí­lia e os ami­gos jun­ta­ram 25 mil reais pa­ra pa­gar o ad­vo­ga­do e me li­ber­tar. Ago­ra que sai, vou en­trar com ad­vo­ga­do por­que fui pre­so ino­cen­te. E o po­vo di­zen­do pros meus fi­lhos que eu ba­ti nos se­rin­guei­ros? Co­mo que po­de uma coi­sa des­sas?
O man­da­do de pri­são diz que foi a Nil­ce que me de­nun­ciou, que o de­poi­men­to es­tá em ane­xo. Mas não tem ane­xo ne­nhum. Não en­ten­do co­mo po­de acon­te­cer uma coi­sa des­sas.”

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