Segunda, 04 de junho de 2012
Caos criativo
O pensamento crítico na China era tolerado apenas se fosse contido. Hoje, o que a mídia social tem feito é permitir que as pessoas ‘quebrem essas paredes’
Foto: iStockphoto
Sem dúvida é uma epidemia. E veio para ficar. Em qualquer lugar, em todos os momentos e circunstâncias, eles estão completamente absorvidos com o que está rolando na telinha, seja do celular, do computador, Ipad ou qualquer outro meio que os permita estar conectados. O que sempre me intrigou era descobrir o que tanto eles liam, escreviam, totalmente focados no que estava acontecendo naquele micro universo? Agora eu sei.
Os chineses são atores altamente ativos da mídia social. Os números – como sempre impressionantes quando se trata da realidade chinesa – de usuários da internet passaram de 620 mil usuários no fim dos anos 90 para mais de 500 milhões em 2012, ou seja, quase 40% da população. Do total de 513 milhões de internautas chineses, 26,7% estão na faixa etária de 10-19 anos; 29,8% pertencem à faixa de 20-29 anos; e 25,7% têm entre 30 e 39 anos. Ou seja: cerca de 80% dos usuários de internet na China têm menos de 40 anos.
Importante ressaltar que estamos ‘falando’ não de uma internet que funciona dentro dos princípios de liberdade de expressão característica do mundo ocidental, mas sim de uma versão própria chinesa, considerada hoje a maior ‘intranet’ do planeta.
O acesso aos websites é limitado. O governo chinês tenta, de todos os jeitos e por todos os meios, controlar o que se passa no universo cibernético, até mesmo criando um Gabinete de Estado de Informação da Internet. Ah!, exclamaria alguém, claro, isso se deve ao regime totalitário na China! Estudos comprovam que esse ‘regime totalitário’, com o advento da mídia social, já era.
Antes do fenômeno da mídia social, os debates ou até mesmo as versões alternativas dos assuntos importantes permaneciam entre portas fechadas. Não existia qualquer possibilidade de tais discussões serem divididas além dos limites desses círculos. O pensamento social-crítico na China era tolerado apenas se fosse contido. Hoje, o que a mídia social tem feito é permitir que as pessoas ‘quebrem essas paredes’.
O mais interessante é que não são somente os cidadãos chineses que participam ativamente do jogo da mídia social, mas também o governo e os próprios jornalistas. É preciso esclarecer a diferença entre o microblog daqui e o Twitter. Enquanto o Twitter permite o uso de 140 toques, o microblog chinês tem espaço para 140 caracteres chineses, equivalente a 300 até 500 palavras no alfabeto da língua latina, ou seja, é possível contar uma pequena história cada vez que uma pessoa publica um conteúdo.
Os chineses simplesmente amam os microblogs – a média de publicação é de 32 mil microblogs por segundo (enquanto o Twitter é de 7 mil mensagens) – porque por eles se tem acesso a informação e notícias que não as oficiais a opções de lazer, a possibilidade de se comunicar com os amigos e de dividir conteúdos.
Outra faceta da mídia social chinesa é o acesso à justiça – infelizmente, feita com as próprias mãos. Já que “justiça através do Judiciário” enfrenta ainda grandes desafios na China, inclusive o de punir oficiais do governo envolvidos em ‘más práticas’, os chineses estão usando cada vez mais a mídia social para ‘destacar casos’, na esperança de se encontrar uma solução rápida.
Já os jornalistas estão usando a mídia social como interação ou alternativa de comunicação. Textos vetados pela censura são transformados em fotografias e publicados na mídia social. Isso porque a tecnologia de censura só consegue ‘pegar’ um texto ‘proibido’ por meio de palavras-chave, mas se for fotografia, passa despercebido, permitindo que ela sobreviva alguns segundos no espaço cibernético, tempo suficiente para ser vista e salva no computador de milhões de pessoas, até ser deletada pelo exército de mais de 60 mil pessoas que trabalha para o serviço de censura da internet chinesa.
Apertando o cerco – A liberdade cibernética chinesa, entretanto, está a ponto de sofrer uma das maiores restrições de ‘expressão’ perpetuadas pelo governo, o que afetará seriamente a prática e o uso da mídia social. Trata-se da implementação da política de uso do nome real do usuário, inclusive com o número de identidade, e a “campanha de purificação da internet”. Em dezembro de 2011, o governo anunciou o registro obrigatório para todos os usuários da mídia social baseado nos documentos de identidade, apesar de os cidadãos terem a opção de continuar usando um apelido online. Aqueles que se recusarem vão ser privados de seus direitos online.Debates online discutem se tal política vai proteger a liberdade de discurso de maneira mais responsável. Ou se a perda de anonimato irá impedir os cidadãos de denunciar abusos.
Já a “Campanha de Purificação e Antirrumor se destina a “acabar com a disseminação de informações de conteúdo pornográfico”. Wang Chen, chefe do Gabinete de Estado de Informação da Internet, anunciou que 535 contas supostamente envolvidas em ‘propagação de pornografia e conteúdo vulgar’ foram fechadas por ordem do governo. Entre elas, microblogs de vários líderes de opinião e de intelectuais críticos das questões públicas e sociais do governo chinês.
Como tal lei e mais essa campanha afetarão as atividades na mídia social chinesa ainda está para ser visto. Enquanto isso, os chineses continuam experimentando a chance de se expressar ‘livremente’, de serem cidadãos participativos e, acima de tudo, de se conectar a esse caos criativo que é a mídia social chinesa.
(*) Jornalista ambiental e editora do Portal Conexão Verde www.conexaoverde.com
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