Terça, 03 de julho de 2012
À lembrança de Gandhi
No plenário de abertura, o alerta de Martin Lees, ex-secretário do Clube de Roma: "Não temos outra planeta para sobrevivermos"
Foto: Fernanda Mann
Na ensolarada manhã de sexta-feira, segundo dia de atividades do Congresso Mundial do Iclei 2012, a música voltou a dar o tom de boas-vindas aos participantes do encontro. Eles foram saudados no pavilhão instalado no Parque Municipal Américo Renê Gianetti por um cortejo composto por centenas de estudantes, professores e diretores de escolas da rede municipal de Belo Horizonte.
Ao som de tambores, bonecos gigantes, palhaços pernas-de-pau e meninas vestidas com saias feitas de jornal reaproveitado se misturaram aos participantes do encontro e aos frequentadores do parque. A cerimônia inicial, ainda ao ar livre, teve com ponto alto a leitura de uma mensagem de acolhida pelo estudante Matheus Horta, da Escola Municipal Professor Lourenço de Oliveira, em Santa Tereza. Aluno do 8º ano do ensino fundamental, Matheus falou em português e depois em inglês. Citou Mahatma Gandhi e emocionou muita gente, em especial a secretária municipal de Educação, da capital mineira, Macaé Evaristo. “Cada dia a natureza produz o suficiente para a nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não haveria pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.”
Ação local
A plenária de abertura, do ‘Rio ao Rio’, contou com a exposição de dados contundentes sobre a realidade ambiental cada vez mais vulnerável do planeta. Porém, também abriu espaço para mostrar os avanços conseguidos pelos governos locais na adoção de medidas para tornar as cidades mais saudáveis. O fundador do Iclei, Jeb Brugmann, foi o primeiro a discursar, seguido por Gino Van Begin, secretário-geral adjunto e diretor regional para a Europa.
Begin fez uma revisão dos 20 anos de ação local para a sustentabilidade desde a Rio-92. Destacou o aumento da conscientização da população em termos de sustentabilidade e afirmou que as cidades e os governos locais se tornaram o nascedouro de inovações sustentáveis, tanto tecnológicas quanto sociais. “Todas as inovações são testadas em nível municipal antes de serem difundidas mais amplamente e se tornarem padrões comuns. Podemos citar, por exemplo, a construção de prédios verdes, mais ecoeficientes, bem como soluções destinadas a melhorar o transporte público.”
E ponderou: “Ninguém há 20 anos previu que as cidades seriam vetores da agenda global da sustentabilidade, mas isso hoje é uma realidade. Então, devemos usar esse congresso para definir nossos caminhos, os rumos que queremos trilhar.”
Colapso ambiental
Palestrante principal, Martin Lees, primeiro-secretário-geral do Clube de Roma, foi categórico. “Apesar das negociações e dos esforços conjuntos de organizações como o Iclei, a situação é grave e está se deteriorando. Estamos consumindo mais do que o planeta suporta, usando em excesso os recursos naturais. O resultado é o colapso de vários deles, como a água doce, o que pode comprometer a sobrevivência, com qualidade, das gerações futuras.”
Afirmou, ainda, que a Rio+20 pode ter sido a última oportunidade para a comunidade global se reunir e encarar a realidade do mundo moderno, buscando um consenso sobre as ações necessárias para garantir um futuro próspero, sustentável e seguro para toda a humanidade.
“Nosso problema não é falta de capacidade técnica, de criatividade, de recursos ou de boas intenções. Falhamos por não ter visão clara e ação. Os líderes mundiais estão se ocupando apenas das questões econômicas e falham na responsabilidade estratégica de abordar questões cruciais, que determinarão o futuro.”
Catadores valorizados
Para compensar o atraso no cronograma de atividades, um lanche com sanduíche natural, suco, fruta e barra de cereal foi servido aos participantes do encontro, em substituição ao almoço. Enquanto saboreava sua maçã, Claudiana Sales, de 30 anos, moradora do Bairro Taquaril, contou que trabalha há seis no galpão da Associação dos Catadores de Papel , Papelão e Material Reaproveitável (Asmare) na Avenida do Contorno, separando materiais recolhidos.
Ela participou da cerimônia de abertura do congresso e ficou feliz quando a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, reconheceu o trabalho da categoria. “Estou aqui para adquirir conhecimento e saber o que acontece em outras partes do mundo.” Articulada, contou que incentiva a filha de 11 anos a ler e caminhar, mais que ver TV, e que a população de BH – onde são recolhidas, em média, 4.300 toneladas diárias de lixo – pode facilitar o trabalho dos catadores com o simples gesto de separar melhor os resíduos, evitando, por exemplo, misturar restos orgânicos aos recicláveis. “Qualquer quantidade bem separada e limpa gera renda e vida melhor para todos nós.”
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