Terça, 03 de julho de 2012
Missão cumprida
O recado de Minas, de Belo Horizonte e do prefeito Marcio Lacerda à máxima do “pensar global e agir local”
Foto: Fernanda Mann
Na série de reportagens “BH 2030 – O sonho de Lacerda”, iniciada exatamente há um ano, a ECOLÓGICO revelou um prefeito e político diferente, comprometido ideologicamente com a sustentabilidade e pragmático ao incluí-la gradativamente nas novas políticas públicas da capital mineira. O tempo passou, Beagá se candidatou e conseguiu ser escolhida como a primeira metrópole latino-americana a sediar um evento mundial como o do Iclei, voltado para a governança local.
Até aí, nada demais. A maioria de outros políticos, ainda mais em época de Rio + 20, faria o mesmo em termos de visibilidade pública. Marcio Lacerda foi antes e além. Está sendo incomum. Tal como sua promessa em curso de plantar três mudas já crescidas para cada nova árvore derrubada na cidade por causa das obras de mobilidade da Copa do Mundo: 54 mil futuras árvores versus 17 mil retiradas da nossa paisagem urbana.
Essa sua característica se repetiu durante cinco dias, na semana que antecipou a Rio + 20. Ele participou de uma maratona exaustiva, recebendo, conversando e decidindo junto sobre o que 1.200 pessoas, prefeitos e representantes de cidades mundiais comprometidas com a sustentabilidade lhe falavam. Na primeira noite discursou no Sesc Palladium. Na primeira manhã, abriu e participou de vários workshops temáticos nos sagões da Prefeitura. No sábado seguinte, de terno e gravata seguiu o cortejo das crianças da rede oficial de ensino até o Parque Municipal onde, depois sem paletó e com aparelho de tradução multilínguas, ouviu como somente um jovem estudante ou jornalista e político em início de carreira conseguiria, durante horas de muito calor, o que cientistas sociais e seus colegas de todo o planeta mostravam em gráficos reais e alarmantes sobre a situação ambiental urbana e rural.
Poucas vezes eu vi um político ser e agir assim. De preferência, as autoridades, governadores, prefeitos e deputados costumam chegar atrasadas e somente na abertura. Falam rapidinho pra plateia e saem logo em seguida, para darem entrevistas, sem ouvir nada do que foi discutido e informado ali. E assim, avançarem em suas percepções, condutas e decisões. Ainda aparecem – eles, e não os outros - nas manchetes do dia seguinte.
Lacerda, ao contrário dessa tradição em declínio, participou de tudo, encontrou tempo e disponibilidade. Desde agendas noturnas, maçantes e sociais, até diurnas e operacionais, ora anfitrionando politicamente, ora levando os prefeitos interessados para conhecerem as nossas boas práticas sociambientais (Programa Vila Viva, Denurbs), como também as nossas mazelas históricas (Lagoa da Pampulha ainda poluída, falta de metrô, Mineração Lagoa Seca) e outros desafios.
Nem no domingo, ele descansou. Passou a manhã inteira no salão nobre da PBH, liderando e trabalhando pacientemente com seus colegas mundiais na confecção do documento-recado que levaria dias depois à cúpula maior da Rio + 20. A Revista ECOLÓGICO foi a única publicação presente nesta reunião fechada de despedida a testemunhar um prefeito novamente com aparelho de tradução nos ouvidos, capitando pacientemente tudo do horror ambiental planetário vigente como de soluções urbanas de fora, possíveis de serem implantadas aqui. Desde Hiroshima, no Japão, onde o governo local resolveu cortar todos os gastos com armamentos e sistemas de defesa, e revertê-los em obras de revitalização urbana, à Copenhague, na Dinamarca, capital mundial da sustentabilidade, onde 65% de sua população já se locomove de bicicleta, sem emitir gases de efeito estufa.
Do lado negativo, Lacerda também ouviu alcaides e cientistas desesperados, mostrando o que acontecerá, em primeiro lugar, com as cidades litorâneas em todo o planeta, caso a temperatura aumente em mais seis graus esperados até o final deste século. De 1750 até hoje, por causa da Revolução Industrial, a temperatura na Terra aumentou 1,8 graus. E se nada for feito, local e globalmente, até o final do século atual ela subirá mais seis graus. As consequências são reais. Somente no Japão, 24 usinas nucleares serão inundadas por causa da elevação dos mares. E não serão somente pessoas pobres que irão sofrer isso na pele. “Seremos todos nós, a nossa geração atual e não somente as futuras. Façam alguma coisa, senhores prefeitos. Nós não temos um outro planeta B!” – proclamou Martin Lee, do Clube de Roma.
Seu apelo foi semelhante à de Simone Ariane, vereadora de Freiburg, na Alemanha. Em nome da juventude, ela cobrou drasticamente dos prefeitos que a sustentabilidade urbana aconteça agora, para geração atual, e não apenas para as futuras. Mexido, Lacerda confessou depois: “Esta jovem me fez pensar profundamente. Nós temos que lhe dar respostas, sim. E elas são urgentes, passam pelas nossas mãos, enquanto administradores dos cidadãos e do meio ambiente local”.
Seus colegas ali presentes só faltaram dizer “pelo amor de Deus”, ao se convocar para a cruzada necessária, diante da perspectiva da população mundial passar de sete para nove bilhões de habitantes até 2040, quando 95% deles estarão morando em cidades:
“Eu imploro a todos vocês. Ao voltar para os seus países, convençam outros prefeitos a se alinharem conosco! A situação é gravíssima e local. Somente quando nos constituirmos numa só voz da nova política e governança local, onde a questão socioambiental primeiro acontece, é que seremos ouvidos. E aí pode ser tarde demais para agirmos” – exortou David Cadman, ex-prefeito de Vancouver, Canadá, coincidentemente a cidade-sede onde o Greenpeace foi fundado.
Lacerda ouviu tudo e a todos. E depois foi com eles à Rio + 20, entregar à ONU o documento com sugestões oficiais do Iclei, engrossar a outra maratona mundial e maior em busca do futuro que queremos. Mas temos antes de merecê-lo, preservando o capital natural que ainda resta nas nossas cidades e mudando, sustentavelmente e inclusiva, o jeito de governá-las.
Ser prefeito doravante, Marcio Lacerda parece ter percebido isso e saiu na frente, não é mais ser “administrador” tradicional e politiqueiro de suas cidades, das áreas verdes que ainda restam nos municípios e de seus eleitores. Mas ser “salvador” do capital territorial, natural e humano que o destino ou a vontade política colocou em suas mãos.
Nisso, ele, o Iclei e Belo Horizonte cumpriram sua missão.
ELES DISSERAM...
“Ninguém faz nada sozinho. Não adianta os governos nacionais e as prefeituras se comprometerem, se as entidades de classe, o setor privado, as ONGs e a sociedade civil não ajudarem. Precisamos de uma abordagem que envolva um compromisso de todos. Uma mudança de paradigma e de hábitos que permita a transição para um novo modelo de sociedade.”
Rodrigo Perpétuo, secretário municipal adjunto de Relações Internacionais de BH
“Vivemos um momento extremamente importante de tomada de decisões para as gerações futuras. E não é de hoje que convivemos com notícias preocupantes sobre o meio ambiente. Portanto, as ideias desenvolvidas aqui nos levam a pensar formas de reverter esse quadro de degradação.”
Pedro Roberto Jacobi, presidente do Iclei Brasil
“Somos jovens e sabemos da nossa responsabilidade cidadã na construção de um mundo melhor. Contudo, torcemos para que os governantes presentes encontrem o equilíbrio entre o desenvolvimento das nações, seus povos e o meio ambiente afim de que as desigualdades entre economia, justiça social e qualidade de vida não se tornem mais gritantes”
Matheus Horta, estudante que representou os jovens no ICLEI
“Os olhos do mundo estão voltados para BH. Temos muito a aprender, mas também boas práticas a mostrar; entre elas, o Selo BH Sustentável, que certifica empreendimentos que contribuem para a redução do consumo de água e de energia elétrica, promovem a reciclagem de resíduos. Em relação à Lagoa da Pampulha, nossa expectativa é reduzir consideravelmente a poluição da represa até a Copa do Mundo de 2014, por meio da instalação de interceptores sanitários e da retirada de sedimentos. O objetivo é termos uma água Classe II, que permita a prática de esportes náuticos, como o remo, e um ambiente de lazer mais saudável e agradável para todos.”
Vasco Araújo, secretário Municipal de Meio Ambiente de BH
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