Terça, 03 de julho de 2012
Ambivalência humana
Tanto a maldade quanto a bondade, estão dentro de nós
Arte: Marcos Takamatsu
O paradoxo da ambivalência constitui a base piramidal pela qual o homem se forma como cidadão, mas também como espécie. O preceito bíblico de que “não há nenhum justo” põe em evidência o fato de que, tanto a maldade quanto a bondade, estão dentro de nós. Eros e Thánatos, diriam os gregos, formam o desenho ainda incompleto do humano. Um é cuidado, amor, o outro destruição e ódio.
Esse é o ser que acolhe e repele, cria e destrói, agride e afaga, confia e trai, canta e protesta. Se diz racional, mas age irracionalmente. Radicalismo e bom senso coabitam esse ser dúbio. Uma mãe pode abandonar seu filho recém-nascido ou dar a vida para protegê-lo. Ama a beleza e a harmonia que criam as condições de bondade e de justiça, mas enfeia a natureza com furor e prepotência. Regozija-se com a tortura, praticando a crueldade com seus semelhantes e outros animais. Por outro lado, luta com todas as suas forças para protegê-los. O ser humano é erro e acerto, certeza e dúvida, grandeza e decadência. Traz consigo a iluminação espiritual e as sombras da loucura. Ama e desama com uma facilidade aterradora e mesmo quando nada fala ainda está dizendo. Se é inseguro adora agredir, se tem muita culpa busca acusar os outros e se é invejoso tenta humilhar. Muitas vezes faz do moralismo uma proteção contra a sua imoralidade interior.
Sabemos que a violência não é uma característica somente dos humanos. Enquanto você está lendo esse texto, um filhote de hiena, que nem abriu os olhos ainda, já começa a atacar seu irmão; um filhote de águia, busca de todo modo, derrubar do ninho seu companheiro, e um leão mata, tranquilamente, todos os filhos que não são seus. E a nossa espécie, que se orgulha de ser racional? Matamos para comer, para conhecer, para o lazer, etc. Quando nos alimentamos, estamos comendo algo que foi morto e depois cozido, não importa que seja planta ou animal. Enquanto simplesmente estamos vivos, vida e morte acontecem simultaneamente dentro e em torno de nós. E, no entanto, temos que abominar toda forma de mal, de injustiça e de crueldade, seja com nosso semelhante, com plantas ou animais a nossa volta.
Hoje o ser humano tem em suas mãos o destino da espécie; continuá-la ou extingui-la, vai depender de um ato decisório de sua responsabilidade. A sua capacidade de destruir superou em muito a de conservar. Nesse aspecto, a tarefa da educação é vital, pois ela tem como objetivo maior, fazer desabrochar o nosso lado bom e espiritual e inibir, desviar e controlar esse lado irracional e sombrio que está em todo homem. Ao sabermos que todos somos erros e acertos, verdades e mentiras, talvez possamos ser mais humildes. Reconhecer que só há diálogo quando nos confessamos seres de falta e que, a todo momento, precisamos nos preencher.
Essa tarefa educativa é interminável, pois as pessoas morrem sempre antes de nascer completamente. Somos seres de encontro, mas também de busca. A famosa afirmativa socrática: “sei que nada sei” deveria ser a referência maior para o nosso crescimento. Essa humildade intelectual é necessária para compreendermos com mais clareza o problema do mal,da injustiça e da crueldade. Eros deveria ser nossa única esperança, a chamada justa escolha, ele deveria prevalecer sempre sobre Thánatos que a despeito de seu caráter destrutivo atrai muitos seguidores.Vejam como o mal na mídia ocupa muito mais espaço do que o bem.Haja seguidores! Mas eles, um dia, com a consciência ecológica que alcançaremos, não mais prevalecerão.
(*) Ambientalista e professor de Filosofia da PUC Minas.
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