Terça, 03 de julho de 2012
Itabiruçu e Mata São José
Em Itabira (MG), as Unidades de Conservação (UCs) são interligadas e somam mais de 700 hectares. As duas são promessas de vida e de corredores ecológicos
Foto: Fernanda Mann
Há exatamente 70 anos a Vale iniciava suas operações na Mina Cauê, em Itabira. Hoje, em seu entorno, a empresa mantém preservada a Mata São José. Distante cerca de 10 quilômetros de estrada de terra, está outra reserva da mineradora, a Itabiruçu, que circunda a Mina Conceição. A primeira área tem 522,40 hectares. A segunda, 221,36. As duas foram criadas em dezembro de 2005, com o Instituto Estadual de Florestas (IEF).
As áreas de proteção e a mineração fazem limite com as zonas urbana e rural do município de Itabira. “Depois de sete décadas de extração de minério fica difícil saber quem está dentro de quem: se é Itabira que está dentro da mineração, ou se é a mineração que está dentro de Itabira”, observa Arnaldo Edgard Lage da Silva, secretário municipal de Meio Ambiente de Itabira, presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema) e um dos criadores do Projeto Mosaico, que, desde 2007, trabalha em duas linhas de atuação: proteção da biodiversidade e desenvolvimento das comunidades.
Silva sabe da importância das áreas da Vale para a região. “As duas reservas são remanescentes de Mata Atlântica. E possuem mata secundária nativa (tipo de floresta que já foi cortada, e que, portanto, não é mais primária, mas está em plena regeneração). A preservação delas é muito importante para formar futuros corredores ecológicos. E também para proteger a biodiversidade de nossa região hoje, sua fauna e flora”, ressalta o secretário, para quem a postura da Vale hoje é diferente daquela adotada quando a empresa começou a atuar na região.
Ele atribui a mudança de comportamento à legislação ambiental, que avançou muito nos últimos tempos.
“O meio ambiente de Itabira sustenta o município, o estado e o Brasil há 70 anos. Quem fica com o impacto somos nós. Por isso precisamos que mais Unidades de Conservação sejam criadas e que tragam também qualidade de vida para a população local, que, aliás, sempre será a favor da conservação de seu patrimônio natural”, diz.
Ele acredita que a participação da comunidade da zona rural faz diferença na hora de proteger as áreas. “Estamos trabalhando para que a própria população, devidamente capacitada, possa cuidar dessas unidades”, frisa.
OUTROS OLHOS
No que depender dos técnicos da Vale, as duas reservas serão bem cuidadas, já que são fiscalizadas por uma equipe que nos pareceu motivada, integrada e sabedora do valor que a natureza tem.
No dia da visita da Revista ECOLÓGICO às áreas, fomos apresentados à natureza exuberante das UCs, mas também aos desafios de mantê-las intactas. Tanto em Itabiruçu, quanto na Mata São José há abundância de sons. Seja no canto variado (e extremamente agradável de ouvir) das diversas espécies de pássaros, na festa dos macacos guigós dentro da mata ou até mesmo na beleza dos líquens (excelentes bioindicadores de qualidade do ar) que encontramos no caule de algumas árvores.
Agora vamos aos problemas mais graves. Há caçadores que ainda insistem em invadir as áreas, pescadores e incêndios criminosos, segundo fomos informados pelos integrantes da equipe que nos acompanhou.Um deles é José Machado, analista de meio ambiente da Vale, que está há 38 anos na empresa. Numa alegria de dar gosto, ele diz que parece que começou ontem. E explica o motivo: “fazer trabalho de campo não cansa a mente e ainda faz bem para o corpo, porque a gente caminha muito”.
Além de tomar conta de Itabiruçu e a Mata São José, Machado também cuida da proteção das UCs de Comodato Peti, Sobrado e Diogo. Para ele, um dos principais desafios da lida é conscientizar as pessoas do entorno, os confrontantes (em Itabiruçu, por exemplo, são oito proprietários de terra), como são chamados, para uma boa convivência com as RPPNs. “Eles tentam usufruir da área como se fossem deles”, diz.
O braço direito de Machado é Edvaldo Campos. Agente de proteção, ele monitora (com a ajuda de uma motocicleta) tanto Itabiruçu quanto a Mata São José e diz que mesmo antes de começar a trabalhar ali já era um apaixonado pelas duas reservas. “Isso aqui é nosso ar puro, né? O que seria de nós sem estas matas?”, indaga.
A rotina de Campos começa cedo e vai até as 18 horas. A “pedra no sapato” dele são os caçadores da região. “O pessoal que não tem consciência vem e mata paca, capivara, tatu...”, conta.
RONDAS PREVENTIVAS
A equipe conta com a parceria da Policia Militar Ambiental na proteção das áreas. Ramon Lopes, supervisor ambiental da empresa de segurança Transbank, contratada da Vale, possui uma equipe especializada no combate a crimes ambientais.
Tiago de Freitas Franklin e Washington Orlando, vigilantes ambientais, diariamente realizam rondas preventivas nas áreas de preservação da Vale. Eles dizem que a ação utilizada na repressão contra ilícitos (caça, pesca, desmatamento, queimadas, etc.) nessas áreas são mais cautelosas. “Realizamos trabalhos ostensivos, com foco na prevenção e conscientização sobre a importância de preservarmos a natureza. Não nos confrontamos com caçadores; quando verificamos a prática de um crime contra a natureza, acionamos a Polícia Militar Ambiental”, explica Orlando. Os dois vigilantes são unânimes ao dizer que depois que passaram a trabalhar com a proteção do meio ambiente, o jeito de lidarem com a natureza mudou. “Trabalhamos com muito prazer aqui. E, mesmo quando estamos fora de nosso posto, procuramos conscientizar as pessoas do quanto é importante manter as diversas espécies de vida preservadas. Hoje olhamos a natureza com outros olhos”, dizem. E contam que nas épocas mais secas, se avistam um principio de incêndio, mesmo longe das áreas em que trabalham, acionam as equipes da empresa contratada da Vale para extinguir o foco, “damos todo suporte a essas equipes e bombeiros envolvidos nessas ocorrências” dizem os vigilantes ambientais.
SAIBA MAIS
As UC’s Itabiruçu e Mata São José, abrigam dois dos mais ricos e ameaçados biomas do Brasil: o Cerrado e a Mata Atlântica. Considerados hotspots (áreas prioritárias para a conservação da natureza mundial pela imensa biodiversidade e situação crítica de conservação), as duas áreas “guardam” um pouco de nossa biodiversidade. Confira:
FLORA
Canudo-de-pito (Mabea fisfulifera)
Jacaré (Piptadenia gonoacantha)
Candeia (Gochnatia polimorpha)
Braúna (Schinopsis brasiliensis)
Embaúbas (Cecropia pachystachya)
Quaresmeira (Tibouchina granulosa)
FAUNA
Guigó (Callicebus nigrifrons)
Douradinha (Tangara cyanoventris)
Cigarra-bambu (Haplospiza unicolor)
Choquinha-de-dorso-vermelho (Drymophila ochropyga)
Tié-preto (Tachyphonus coronatus)
Gavião-pombo (Leucopternis polionotus)
Sofreu (Icterus jamacaii)
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