Segunda, 06 de agosto de 2012
Voçorocas: quem vai resolver?
"A postura de tolerância do poder público consigo mesmo é muito maior"
Foto: Projeto Maria de Barro
Com uma “boa” foto de erosão marginal em uma rodovia asfaltada, o jornal Hoje em Dia publicou matéria sobre voçorocas formadas em função de intervenções irresponsáveis no solo do Estado, baseada em pesquisa realizada pelo Instituto Voçorocas, que identificou 798 barrancos, em 33 municípios da bacia do Alto Rio Grande, entre o Campo das Vertentes e o Sul de Minas.
Talvez a pesquisa tenha incluído as famosas e gigantescas voçorocas na cidade de Morro dos Ferros, próxima a Oliveira, cujas fotos estão disponíveis na internet e que ameaçam ruas, casas e até o cemitério local. São, entre as muitas, talvez a mais grave herança do Dnit para a cidade e para o meio ambiente, resultante da BR-381.
Em torno de BH, área não abrangida pela pesquisa, voçorocas podem ser vistas com facilidade. A mais próxima, talvez, seja a gigantesca erosão deixada pela prefeitura da capital, através de uma empresa pública que não mais existe, chamada Ferrobel, em parceria com a empresa mineradora, que também já se foi, na margem esquerda da BR-40 (sentido RJ). Parte da área foi ocupada pelo Leroy Merlin, e o restante continua “fornecendo” terra para os mananciais da Copasa situados no lado oposto da rodovia.
Em Piedade do Paraopeba, distrito de Brumadinho, também tem uma voçoroca digna de ser vista, resultante da tentativa de abertura de estrada até a BR-040, atravessando a Serra da Moeda. Isso aconteceu há mais de 30 anos, e a voçoroca continua crescendo e descendo, como sangue, pela serra até chegar ao Córrego Fundo, afluente do rio Paraopeba. Ainda há a cratera deixada pela Extrativa Paraopeba, bem na divisa do Parque do Rola Moça, que tirou o minério de ferro e se mandou. Portanto, nenhuma delas foi resultado de processos naturais.
O presidente do Instituto, Marcus Ferreira, aponta que a abertura de estradas rurais na área pesquisada, é a maior causa das erosões, “sendo a razão de 70% delas”. Eu diria estradas municipais e diria também que se trata de um dos mais graves problemas ambientais do país, ganhando facilmente das cicatrizes deixadas por minerações irresponsáveis. E que também continuam sendo ignoradas pelos municípios e pelo governo do Estado.
É claro, multar prefeituras, convocá-las para licenciamento, exigir cumprimento de condicionantes é muito mais difícil do que agir em relação a empreendimentos privados. E os conselhos municipais de meio ambiente, com raras exceções, continuam a ser arremedos de colegiados deliberativos e democráticos. A postura de tolerância do poder público consigo mesmo é muito maior. “Macaco senta no rabo e fala dos outros”, diz um antigo ditado. O que dizer das centenas de erosões resultantes também das rodovias estaduais? O DER, há alguns anos, fez levantamento e criou um mapa tampado por bolinhas coloridas representando-as. E elas continuam “firme e forte”.
Não podemos esquecer também da contribuição dos loteamentos, mina de dinheiro para um punhado de gente, fontes de degradação ambiental, desespero para outros e exemplo perfeito da privatização de lucros e socialização de prejuízos. E ainda tem treeiros, jipeiros, super pastoreio, ocupação de APPs, incêndios e desmatamentos diversos. Que aqueles que me concedem a graça da atenção, não pensem que sou negativista. A insistência representada por mais de 30 anos de militância na causa ambiental mostra o contrário: sou otimista e insistente.
E que também saibam que não ignoro a super demanda sobre a Semad, sua precária e insuficiente estrutura de pessoal, seus baixos salários. Pelo contrário. Por isto propusemos a criação de uma agência (ou algo inovador e ousado) que poderia facilitar a mudança desse quadro. Chegamos até a acreditar que seria criada. E por último, nem ouso pensar que os órgãos ambientais resolverão todos os problemas, se seus “colegas” que interferem ou estimulam interferências no meio ambiente natural não ajudarem.
Faço coro. Comando e controle, somente, não mudam essa situação. Mas não seria legal jogar alguns “deles” dentro das voçorocas? De paraquedas é claro, pois algumas são tão fundas que eles poderiam se machucar.
(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda).
Comentários
Nenhum comentario cadastrado
CARTA DO EDITOR
CARTA DOS LEITORES
CÉU DE BRASÍLIA
CIDADES SUSTENTÁVEIS
CIDADES SUSTENTÁVEIS
CIDADES SUSTENTÁVEIS
CONVERSAMENTOS
ECONECTADO
ECONOTAS
EMPRESA E MEIO AMBIENTE
