Sexta, 28 de setembro de 2012

Plantar para mutilar?

Saída adotada em grande escala na maioria das capitais europeias para desatar o nó do conflito entre árvores e fiação elétrica, deixando a paisagem mais limpa e harmônica, instalação de rede subterrânea ainda engatinha em BH

Luciana Morais - redacao@revistaecologico.com.br



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Foto: Fernanda Mann

Foto: Fernanda Mann

Agora em setembro , quando se comemora o Dia da Árvore, a Semana Florestal e a entrada da primavera, a capital mineira, que já ostentou o poético título de Cidade Vergel, graças à beleza de seus pomares, praças, canteiros e passeios arborizados, ainda tem  seu horizonte e paisagens poluídos por um emaranhado de fios de energia elétrica. Feia e perigosa, essa teia de cabos compromete o crescimento das árvores, essenciais para a conservação do verde e manutenção da boa qualidade do ar e da vida nas metrópoles. E o placar em BH, transformada em um grande canteiro de obras, a maioria com vistas à Copa do Mundo de 2014, infelizmente, mostra a vitória do ‘progresso’ sobre a natureza.

Em 2011, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, foram suprimidas ou caíram, incluindo os cortes ocorridos em função de obras nas avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado, 11.701 árvores. Com relação ao plantio, considerando o Programa BH Mais Verde, foram 9.990. Entre as críticas e perguntas que ecoam pela cidade, algumas se destacam tendo em vista que as 54 mil  novas mudas de árvores que o prefeito mineiro Marcio Lacerda vem plantado em toda a cidade já estão também previamente condenados à mutilação pela Cemig. Ou seja, estão sendo plantadas debaixo dos proibitivos fios elétricos.

Não seria então, mais lógico e ecológico, a Cemig e a PBH avançarem  com a rede de energia subterrânea, a exemplo do já ocorre no Hipercentro e na Savassi? Quais são as espécies que melhor se adaptam ao clima e ao traçado da capital, evitando cortes sumários, podas drásticas e a suspensão do fornecimento de energia por queda ou contato de galhos com os fios?

Apesar dos lucros recordes e de ter seu desempenho mundialmente reconhecido no Índice Dow Jones de Sustentabilidade, a Cemig não planeja investir um centavo sequer na expansão da rede subterrânea tanto na capital como no interior do Estado. Ano passado, a empresa registrou o maior lucro líquido da sua história: R$ 2,4 bilhões. Enquanto isso, BH segue na contramão, alheia ao exemplo de centenas de cidades mundo afora que já eliminaram seus fios aéreos, deixando a paisagem mais harmônica e abrindo espaço para que as árvores cresçam livres, atraindo pássaros e amenizando a aridez urbana.

Sem expansão

A rede subterrânea de BH começou a ser instalada na década de 1970. Passados 40 anos, pouco expandiu. De acordo com a Cemig, são 7.309,53 km de fiação aérea e apenas 436,48 km subterrâneos, o equivalente a 6% do total. Essa realidade se repete em grandes capitais brasileiras, como São Paulo, que tem 41.016 km de rede convencional e somente 3.084 km no subsolo. Na capital mineira, esse tipo de rede está presente no Hipercentro, na Savassi e na Cidade Administrativa, sede do Governo de Minas. Também beneficia as áreas centrais de Juiz de Fora, Uberlândia, Uberaba, Itajubá, Varginha e Montes Claros, além dos centros históricos de São João del-Rei, Nova Lima, Santa Luzia, Tiradentes, Sabará, Ouro Preto, Diamantina, Mariana, Tiradentes e Serro.

Com a fiação subterrânea, todos ganham: a natureza, a cidade e as pessoas - Foto: FaSouzaFreitas

“No momento, não existe previsão de instalação de novas redes subterrâneas na área de concessão da Cemig. Os critérios de implantação são o atendimento às áreas com elevada densidade de carga (residenciais ou comerciais) e aos requisitos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)”, esclarece Luiz Braz Franceschini, gerente de Serviços de Distribuição Metalúrgica da empresa.

Dinheiro, por enquanto, só para a modernização da rede existente. Serão investidos R$ 200 milhões. As obras já começaram no Hipercentro e na Savassi e devem ser concluídas até abril de 2014. Equipamentos antigos estão sendo substituídos e novos sistemas de automação, controle e monitoramento dos transformadores vão garantir mais segurança para comerciantes, moradores e visitantes.

A rede subterrânea é menos susceptível a intempéries, reduzindo o risco de interrupção do fornecimento de energia por vendavais, descargas atmosféricas e abalroamentos. Seu custo de instalação varia de 10 a 25 vezes em relação ao da rede aérea, dependendo da configuração adotada. Ela também minimiza a necessidade de poda de árvores.

Visão integrada

Coordenador do Programa Especial de Manejo Integrado de Árvores e Redes (Premiar), criado em 2009, pela Cemig, Carlos Alberto de Sousa explica que é essencial considerar a diferença entre uma árvore em seu ambiente natural e no meio urbano, onde além de cumprir funções vitais, ajudando na regulação do microclima e ofertando sombra, tem de se harmonizar com diversos equipamentos públicos.

“O tempo em que as questões relativas aos equipamentos urbanos – redes de telefonia, transmissão de dados e de geração de energia – eram discutidas à parte da arborização está superado. A saída é avançarmos no planejamento conjunto, sempre com a visão integrada de todos esses elementos.” Com o amadurecimento das ações do Premiar, afirma Sousa, vários tabus começaram a cair. Um deles é a ideia de que a ampliação das redes subterrâneas seja a melhor saída para encerrar os conflitos entre árvores e fiação elétrica.

“Em cidades como BH, onde há vários locais com arborização já consolidada, a rede subterrânea pode ser mais danosa para as árvores do que a aérea" / Foto: Fernanda Mann

“Em cidades como BH, onde há vários locais com arborização já consolidada, a rede subterrânea pode ser mais danosa para as árvores do que a aérea. Para instalar esse tipo de rede é necessário abrir galerias e cortar raízes, o que pode resultar em perda de sustentação e, consequentemente, no corte da árvore. Fizemos um levantamento sobre os motivadores de queda e concluímos que muitas caem por falta de raízes. É preciso avaliar caso a caso.”

Por meio do Premiar, a Cemig atua em todas as regionais de BH e iniciou, recentemente, o terceiro ciclo de avaliação e monitoramento da arborização. “Temos uma equipe de profissionais formados em agronomia e engenharia florestal especialmente treinada para ir a campo e encontrar, em cada caso, a melhor solução para a convivência entre árvores e redes elétricas. Nosso pessoal percorre toda a cidade e cadastra os exemplares que estão em situação de risco”, detalha.

Árvore não é luxo

Com sua visão holística e sempre ponderada das questões ambientais, o biólogo e ex-professor Célio Valle lembra que, tão importante quanto investir na ampliação e modernização da rede subterrânea em BH, é criar um microclima ‘mais humano e descente’ na cidade, com uma arborização que contemple desde jardins e quintais, até canteiros, praças e parques. “Infelizmente, parte das empresas, governos e cidadãos ainda acha que árvore é luxo. Não: é condição de vida. Elas equilibram a temperatura, melhoram a qualidade do ar, embelezam a paisagem e ainda garantem sombra, função essencial para nós que vivemos num país tropical.”

E conclui: “Cheguei da Europa há poucos dias e notei que lá todos têm verdadeira veneração pelas árvores das cidades. Não só pela estética, mas por sua importância para o equilíbrio do ambiente urbano. Assim como a árvore na beira de córregos e nascentes é vital para a conservação da água e da fauna, na cidade ela é condição de sobrevivência. Quanto mais verde tivermos, melhor.”

Cidadão mais participativo

Mais do que reclamar de podas e cortes, alguns moradores estão participando efetivamente das decisões e ações ligadas à arborização de seus bairros. Presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Santo Agostinho (Amagost), Rodrigo Laender, conta que, há tempos, os dirigentes da entidade estavam preocupados, buscando uma saída para reduzir a progressiva perda da arborização, tanto pelo corte de árvores nas ruas quanto pela transformação de antigos quintais em edifícios.

“Foi quando conhecemos o Programa Premiar. Em 2010, percorremos todo o bairro e identificamos 180 pontos que consideramos aptos a receber uma muda de árvore. Esse estudo foi repassado à Cemig que, após uma vistoria, aprovou o plantio de 150 mudas. Em 2011, mantivemos a atualização periódica dos dados coletados e conseguimos um segundo plantio. Aguardamos, agora, o terceiro. Procuramos também a PBH que autorizou, ano passado, o plantio de diversas mudas e a retirada de tocos de árvores cortadas, visualmente agressivos. O bairro ganhou muito.”

Em breve, afirma, o sombreamento será recomposto, ainda que o corte de árvores em via pública, por motivos não informados continue. “Sabemos que é possível ir além. Queremos a elaboração de um projeto de manejo que contemple a formação de corredores arborizados em todas as ruas do bairro, melhorando o microclima; e com espécies que também sirvam para a conservação da fauna, já que, felizmente, ainda há várias espécies de passarinhos e micos livres no bairro.”

A quem recorrer

Qualquer intervenção em árvores (plantio, poda ou remoção) tem de ser autorizada pela PBH. Para solicitar o serviço, basta ligar para 156. Podar ou suprimir árvores sem autorização é crime passível de multa. Em caso de conflito entre árvores e redes elétricas, ligue 116 (Fale com a Cemig). A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas.

Em nome dele

Eleito o “melhor político de 2011” no Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade de 2011 por ter tornado BH a primeira capital brasileira a abolir o uso de sacolas plásticas, Marcio Lacerda prometeu, vem cumprindo e a ECOLÓGICO acompanhando, o plantio de 54 mil árvores para compensar  as 12 mil retiradas para as obras da Copa. Já Hugo Werneck era a liderança ambientalista que mais pedia à Cemig a implantação de fiação subterrânea para  pôr fim ao dilema “fios versus árvores”, um embate que a natureza sempre perde.  Ele defendia isso não como despesa, mas como investimento público primordial em qualidade de vida, considerando o que o Estado e o município gastam anualmente com os serviços técnicos, operacionais e humanos de poda.

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Comentários

Hiolita

Comprei um terreno de 2500 M às margens do Rio São Francisco para formar um sítio e gostaria de saber como conseguir mudas ou sementes de espécies variadas de árvores para plantar. Aguardo retorno e agradeço


Hiolita

Comprei um terreno de 2500 M às margens do Rio São Francisco para formar um sítio e gostaria de saber como conseguir mudas ou sementes de espécies variadas de árvores para plantar. Aguardo retorno e agradeço


Cris Alencastro

A CEMIG vem arrasando as árvores em Belo Horizonte, e pior com a autorização da prefeitura local. Como impedir esse maus tratos com as poucas árvores que ainda conseguimos ter? Juridicamente não sei o caminho. E tecnicamente existe outra alternativa? Claro que existem várias, já ouviram falar numa cidade do Paraná chamada Maringá, pois essa cidade implantou a adoção de redes compactas protegidas. Nelas, cabos elétricos encapados são mantidos separados a uma pequena distância uns dos outros por uma borracha isolante. Com isso a poda das árvores passa a ser dispensável. Outra coisa rebaixou a iluminação e com isso as calçadas passaram a ser mais iluminadas, dispensando também a poda das árvores e ainda tendo economia de energia. Obrigado pelo espaço. A qualidade de vida agradece.


Paulo César Teixeira Filho

Sou totalmente a favor da implantação da rede subterrânea de fiação. É incontestável a melhoria estética da cidade. Estética não é luxo: ela atrai investimentos, valorização da região e, consequentemente, empregos. O melhor exemplo é a revitalização do centro de Belo Horizonte. Além disso, as árvores ficam livres de podas desnecessárias. Conclusão: a comunidade tem que se mobilizar e pedir à CEMIG para a rápida expansão da rede subterrânea em toda Belo Horizonte.


Andrea Regina Mello Fonseca

Sou professora de Geografia da E.E. Madre Carmelita em BH. Após ler a Revista sobre a revitalização da cidade de Essen na Alemanha e esta reportagem, levei o assunto aos meus alunos da 2ª série do Ensino médio e estamos iniciando uma campanha pelas áreas verdes e fiação subterrânea em BH. O objetivo é que os alunos se mobilizem e comecem a perceber o ambiente urbano. Eles estão muito entusiasmados e já criaram uma pagina no face, estão fotografando árvores, fazendo cartazes para conscientizção da escola. Descobriram um lote em que as cercas de arame farpado estão "espremendo" entranhando nas árvores. Estamos iniciando o processo, mas alguns alunos e algumas alunas já estão discutindo, e até mesmo indignados. Atenciosamente, Andrea Mello


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