Segunda, 29 de outubro de 2012

Fedor e esperança no ar

Moradores do Vale dos Cristais na Grande BH reclamam do mau cheiro gerado por ETE da Copasa. De quem é a culpa?

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Moradores do Vale dos Cristais na grande BH reclamam do mau cheiro gerado por ETE da Copasa - Fotos: Fernanda Mann

Moradores do Vale dos Cristais na grande BH reclamam do mau cheiro gerado por ETE da Copasa - Fotos: Fernanda Mann

De um lado, os moradores de quatro condomínios de luxo do Vale dos Cristais, em Nova Lima. Do outro, no Vale do Sereno, uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) administrada pela Copasa e no ar, um cheiro insuportável. Até quando?

A ETE existe desde o início do ano passado. E desde então, os moradores reclamam do mau cheiro. Eles se uniram e enviaram à Copasa,  uma notificação extrajudicial pedindo explicações das medidas emergenciais para resolver o problema.  Por seu lado, a empresa prometeu resolver a situação em um mês, colocando mantas especiais em cima dos equipamentos e instalando exaustores.

O outro lado

Quem confirma isso é Eugênio Álvares Lima e Silva, o superintendente de Serviços e Tratamento de Efluentes da Copasa. Segundo ele, a ETE da Bacia do Vale do Sereno que recebe todo o esgoto de seis bairros de Nova Lima e o do Jardim Canadá  é uma das 37 que ele administra na região metropolitana. A estação de tratamento em questão foi projetada para atender a uma vazão de 25 litros e meio de esgoto por segundo. Mas essa não é mais a realidade. “Hoje, a ETE recebe em média 33 litros por segundo; chegando, muitas vezes, aos 40,5 litros por segundo de esgotos vindos de ligações clandestinas das recentes construções na região.” Conclusão: ela está recebendo mais esgoto do que pode. E tem mais, ele acrescenta: “Quando betoneiras e caminhões lavam suas carrocerias e caçambas, todo este material calcário, químico, vem para a nossa rede de esgoto, matando as bactérias que digerem o material orgânico do esgoto. Levamos uma semana para repor essas bactérias. Sem elas, não há como realizar o todo o processo de filtragem do esgoto. É essa paralisação que causa todo o mau cheiro que a vizinhança reclama.” Mas o superintendente da Copasa confirma: até o final de setembro, as mantas serão colocadas. Algumas já estão lá. E completa: já existe o projeto de expansão dessa ETE com capacidade de 60 a 80 litros de esgoto por segundo . A previsão é que comece a funcionar em dois anos.

Etapas de tratamento

O processo na ETE do Vale dos Cristais começa com a retirada do lixo grosso (plásticos, fraldas, preservativos e absorventes que enchem uma caçamba, chegando a quase uma tonelada por dia). Ainda na fase primária, estão a filtragem pela areia e o uso das bactérias anaeróbicas. Nessa etapa, 70% do esgoto é eliminado. Na fase seguinte, aeróbica, a limpeza dos efluentes chega aos 90% , momento em que eles são enviados ao Córrego do Rabelo, que corre ao lado da ETE, em direção a Nova Lima e ao Rio das Velhas, de onde é captado  70% de toda a água que abastece a população de BH. 

“A solução existe”

Para Roberto Messias Franco, ex-presidente da Feam, ex-secretário de Meio Ambiente de Nova Lima e membro do Conselho Estadual de R.E.: “a solução existe”. É o que ele defende neste artigo a seguir.

“Quem passa pela MG 30 , na altura da travessia do Ribeirão dos Cristais, entre a entrada do bairro Vale dos Cristais e o Colégio Santo Agostinho, sente o mau cheiro proveniente da estação de tratamento de esgoto da Copasa, ali localizado. São os gases com compostos de enxofre, presentes em nos esgotos sanitários, os responsáveis pelo odor. Os esgotos humanos têm bàsicamente dois caminhos para sua destinação , quando não são jogados de qualquer maneira nos rios, córregos e lagos, com os nefastos resultados nossos conhecidos ( a taxa de tratamento dos esgotos hoje no Brasil ainda não chega a 30%).

Foto: Diferença da água coletada na entrada da ETE e depois quando é devolvida à natureza

Os chamados sistemas estáticos, ou seja, as fossas desejavelmente sépticas promovem a infiltração e filtragem das águas poluídas (as águas negras). É um sistema eficiente, pois, depois de alguns metros as águas se purificam, variando em função do tipo de substrato rochoso a distância segura para este processo. Mas tem limitações, quando se trata de áreas com grandes volumes a serem tratados, caso das áreas urbanas ou de grande densidade de ocupação. Nestes casos, usa-se os chamados sistemas de tratamento dinâmicos. Ou seja, a coleta, transporte, tratamento por métodos físicos e químicos, e destinação final nos cursos d´agua, com grau de pureza aceitável dentro das normas ambientais. E este tratamento é feito nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos.

Com o crescimento da ocupação do Vale do Sereno/ Vila da Serra e adjacências, ocorrido com o transbordamento populacional de Belo Horizonte, nos últimos 20 anos, foi necessário construir uma primeira ETE, logo ultrapassada, e a segunda, que é a que funciona hoje. Dentro de uma situação institucional confusa, pois não há ainda um sistema unificado para as concessões de água e esgoto no município, a operadora da ETE Vale dos Cristais é a Copasa, que também fornece a água na região, e a quem cabe solucionar essa questão do mau cheiro que causa.

A alternativa

E isto, tecnicamente é possível. Trata-se de encapsular a área geradora dos gases, que se dá a partir da digestão anaeróbica dos lodos, e instalar um sistema de exaustão e filtragem de gases, podendo então depois serem jogados na atmosfera já purificados. Importante salientar que este é um método conhecido e barato.

Cabe, entretanto, um alerta quanto à capacidade de tratamento da ETE existente, que já se encontra em fase de esgotamento. Será necessário – e com isto os futuros empreendimentos da região estariam tranquilos no aspecto saneamento – a duplicação da capacidade de tratamento da estação atual. Que poderia ser acompanhado ou concomitante com a retirada dos odores acima proposta.”

 

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