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Segunda, 24 de junho de 2013

A fome de justiça do irmão do Henfil

O mineiro Herbert José de Souza, símbolo da luta pela cidadania, honestidade e coerência

Alexandre Salum - redacao@revistaecologico.com.br



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HERBET DE SOUZA,  o Betinho “Solidariedade, amigos, não se agradece, comemora-se.”

HERBET DE SOUZA, o Betinho “Solidariedade, amigos, não se agradece, comemora-se.”

“Meu Brasil/ que sonha com a volta do irmão do Henfil/ de tanta gente que partiu...” A citação na canção “O Bêbado e a Equilibrista” de João Bosco e Aldir Blanc, lançada em 1979 por Elis Regina, era para o então desconhecido “irmão do Henfil”: o sociólogo exilado Herbert José de Souza, ou melhor, Betinho. Nascido na cidade de Bocaiúva, no norte de Minas, em três de novembro de 1935, foi o terceiro de uma família de oito filhos. Hemofílico  desde nascença, assim como os irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário , Herbert de Souza foi uma criança muito doente e teve tuberculose na infância. Costumava dizer que “nasceu para o desastre, porém com sorte”.

Desde adolescente sempre foi muito ativo nas questões sociais, e sua formação teve forte influência dos padres dominicanos. Fez parte dos movimentos Juventude Estudantil Católica, Juventude Universitária Católica, e no início da década de 1960, criou a AP – Ação Popular. Em 1962, formou-se em Sociologia pela UFMG e trabalhou no MEC e na Superintendência da Reforma Agrária durante o Governo João Goulart. Depois do golpe militar, em 1964, Betinho mobilizou-se contra a ditadura. Mas, em 1971, foi obrigado a se exilar primeiro no Chile e, depois, fugindo da ditadura de Pinochet, no Panamá, Canadá e México. Retornou ao Brasil com a anistia em 1979 e, junto com dois economistas, fundou o IBASE – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas. Foi um dos primeiros a apoiar a criação de organizações não governamentais. Além disso, passou a participar ativamente dos movimentos sociais pela reforma agrária e liderou o movimento “Terra e Democracia” que, dois anos antes da ECO/92, levou milhares de pessoas ao Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Dois anos depois, foi um dos líderes da campanha “Ética na Política”, que resultou no impeachment de Fernando Collor. Logo após, criou o movimento “Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida”, conscientizando o povo brasileiro e colocando o combate à fome e à miséria em seu cotidiano e, em 1993, voltou a mobilizar o país com a campanha “Natal sem Fome”.

Betinho contraiu AIDS durante uma transfusão de sangue em 1986. Isso porque, como era hemofílico, tinha de se submeter periodicamente à transfusões. Sem desanimar, criou a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, que dirigiu até a morte. Em 1988, perdeu dois irmãos, Henfil e Chico Mário, por causa da mesma doença. O mineiro Herbert José de Souza, símbolo da luta pela cidadania, honestidade e coerência, morreu no dia nove de agosto de  1997, aos 61 anos, no Rio. Um verdadeiro exemplo para as futuras gerações de brasileiros. Se a música “O Bêbado e a Equilibrista” fosse composta hoje, talvez a letra seria diferente: “Meu Brasil/que sonha com a volta do Betinho/ de tanta gente que partiu...”. A ECOLÓGICO selecionou alguns pensamentos desse visionário e humanista chamado Betinho. Confira:

Economia

“Não podemos aceitar a teoria de que se o pé é grande e o sapato, pequeno, devemos cortar o pé. Temos de trocar de sapato.”

“Não afirmo que o inimigo do Brasil é o capital estrangeiro, mas também não afirmo que por ser estrangeiro é melhor e mais amigo.”

Crianças

“As crianças estão nas ruas porque, no Brasil,
 ser pobre é estar condenado à marginalidade. Estão nas ruas porque suas famílias foram destruídas e nos omitimos.”

“Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade.”

“O jovem não é o amanhã, ele é o agora.”

O cartunista Henfil no colo da mãe Dona Maria. E abaixo o músico Chico Mário: irmãos de Betinho
na herança de luta e amor - Fotos: Divulgação

Brasil

“Há mudança no Brasil. Ela não corre, mas anda. Não corre, mas ocorre.”

“Para nascer um novo Brasil, humano, solidário, democrático, é fundamental que uma nova cultura se estabeleça, que uma nova economia se implante e que um novo poder expresse a sociedade democrática e a democracia no Estado.”

“É importante ver, com os dois olhos, os dois lados para mudar uma única realidade, a que temos.”

Miséria

“A alma da fome é política.”

“Miséria é imoral. Pobreza é imoral. Talvez
 seja o maior crime moral que uma sociedade possa cometer.”

Ética

“O Brasil tem fome de ética e passa fome em consequência da falta de ética na política.”

Cultura

“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda, sim, pela sua cultura.”

Vida

“O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida.”

ONGs

“Não cabe às ONGs brasileiras acabar com ou pretender substituir o Estado, mas colaborar para a sua democratização. Não cabe às ONGs produzir para o conjunto da sociedade os bens e serviços que o mercado não é capaz de produzir, mas propor uma nova forma de produzir e distribuir que supere os limites da lógica do capital.”

Reforma Agrária

“É um absurdo um país com tanta terra ociosa assistir sua população vegetar na periferia das grandes cidades.”

“A terra e a democracia aqui não se encontram. Negam-se, renegam-se. Por isso, para se chegar à democracia é fundamental abrir a terra, romper essas cercas que excluem e matam, universalizar esse bem, acabar com o absurdo, restabelecer os caminhos fechados, as trilhas cercadas, os rios e lagos apropriados por quem, julgando-se dono do mundo, na verdade o rouba de todos os demais.”

“Muitas reformas se fizeram para dividir a terra, para torná-la de muitos e, quem sabe, até de todas as pessoas. Mas isso não aconteceu em todos os lugares. A democracia esbarrou na cerca e se feriu nos seus arames farpados.”

Morte

“Quem fica na memória de alguém não morre.”

Igualdade

“O desenvolvimento humano só existirá se a sociedade civil afirmar cinco pontos fundamentais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade.”

Democracia

“Democracia serve para todos ou não serve para nada.”

“A luta pela democracia é que desenvolve o mundo, e ela se constrói com e através da comunicação.”

 

AIDS

“No Brasil não existia o controle do sangue: a Aids era desconhecida. Ele não existia também para outras doenças. Assistimos ao comércio de sangue, uma irresponsabilidade total. Neste sentido, a Aids salvou o sangue.’”

Solidariedade

 “Em resposta a uma ética da exclusão, estamos todos desafiados a praticar uma ética da solidariedade.”

“Solidariedade, amigos , não se agradece, comemora-se.”


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Comentários

Rosamir

Grande homem,bRasil está precisando de mais Netinhos.


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