Quarta, 23 de abril de 2014

A arte de passarinhar

Observação de pássaros cresce no país e atrai pessoas de todas as idades

Ana Diniz - redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer
O tangará-dançarino (Chiroxiphia caudata) é uma das espécies que podem ser avistadas nas matas do Hotel Fonte Limpa, que integra o projeto Minas Birding Tours<br>Foto:Daniel Santos

O tangará-dançarino (Chiroxiphia caudata) é uma das espécies que podem ser avistadas nas matas do Hotel Fonte Limpa, que integra o projeto Minas Birding Tours
Foto:Daniel Santos

Eu passarinho, tu passarinhas, ele passarinha, nós passarinhamos e vós passarinhais. A conjugação poderia ser improvável se o ato de observar pássaros na natureza não houvesse tomado, nos últimos seis anos, proporção de verbo incondicional. Observar o céu em busca de pássaros se tornou uma atividade extremamente prazerosa para gente do mundo inteiro, que se rende a horas de caminhadas, olhar para o alto, fala suspensa, câmeras e lentes que captam flagrantes espetaculares e fotos que desvelam cores, matizes, hábitos e trejeitos desses seres alados.

Birding tours é uma expressão em inglês que significa viagens (ou passeios) para observação de aves, um tipo de turismo que já é forte em países como os Estados Unidos, onde há mais de 70 milhões de observadores (o equivalente ao movimento de duas Copas do Mundo por ano), Holanda, Inglaterra e Escandinávia.

Essa atividade, inclusive, vem se consolidando também no Brasil. É o caso do Minas Birding Tours, projeto criado em 2013 pelo analista de sistemas Ricardo Mendes, um observador de pássaros que também é o secretário-executivo da Ecologia e Observação de Aves (Ecoavis), organização não governamental, sem fins lucrativos ou partidários e que estimula maior integração com a natureza.

 

Japacanim (Donacobius atripicalla) - Foto: Daniel Santos

No Brasil, já foram catalogadas 1.901 espécies, sendo que perto de 800 estão em Minas Gerais (370 em Belo Horizonte). “O Estado tem tudo para se tornar um polo para o desenvolvimento dessa atividade, pois abriga três grandes biomas: Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga”, explica Ricardo.

Várias dessas espécies, afirma ele, são endêmicas de Minas e são encontradas em localidades que fazem parte da cadeia de montanhas do Espinhaço.  “Minas tem fazendas centenárias, história, belezas naturais e uma ótima estrutura hoteleira e de lazer. São pontos fortes para o desenvolvimento da observação de aves”, afirma o analista.

Parceria ecológica

Pensando nisso, o Minas Birding Tours fechou parceria com o Hotel Fonte Limpa, localizado na cidade de Santana dos Montes (130 km de BH) para a promoção de observação de aves durante o ano.

Gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis) - Foto: Daniel Santos

A Revista ECOLÓGICO participou do evento inaugural. A caminhada pela Mata Atlântica começou lá pelas 8h, quando nos juntamos aos observadores de pássaros e enamorados da natureza, como a chilena Adriana Alfonso, 73, e seu marido, o alemão Werner Wuertele, que estavam visitando amigos em Santana dos Montes, ficaram sabendo da caminhada ecológica e não tiveram dúvidas em se inscrever.

Vestida a caráter para se proteger do sol e dos insetos, Adriana, hoje aposentada, conta que era professora de educação intercultural na Alemanha. Tem intimidade com a natureza. “Temos que entender o bosque como habitação, a casa de outros seres. Quando entramos na mata, devemos abraçar uma árvore, pedir permissão, respeitar e amar a natureza. Como professora, ensinei muitas crianças a desenvolver essa relação com a mata. Perguntava se eles gostariam que pessoas estranhas invadissem suas casas e começassem a destruí-las. Estimulava o respeito e o amor pela natureza como uma habitação sagrada.”

Ao longo da caminhada, os observadores foram aguçando a audição do grupo para os cantos de algumas espécies que são muito encontradas por lá, como o tangará-dançarino (Chiroxiphia caudata), cujos machos se reúnem em arenas coletivas com barulhentos rituais pré-nupciais; o tachuri-campainha (Hemitriccus nidipendulus); o surucuá-variado (Trogon surrucura) que, ao cantar, balança pausadamente a cauda, da vertical para a horizontal, a cada nota emitida; o teque-teque (Todirostrum poliocephalum); o papataoca-do-sul (Pyriglena leucoptera); o gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis); o japacanim (Donacobius atricapilla) e muitos outros cujos cantos foram ouvidos.

Teque-teque (Todirostrum poliocephalum) - Foto: Daniel Santos

Nem sempre se vê o que se escuta, isso faz parte do ritual de observar pássaros na natureza. Os observadores tentam ao máximo não interferir no cotidiano da mata, mas em alguns momentos, quando escutam insistentemente um canto de um pássaro imediatamente identificado, usam sons pré-gravados que reproduzem fielmente os cantos das aves.

“Muitas vezes, durante as caminhadas, nós ouvimos muito, mas temos dificuldade de ver o pássaro. Isso pode se dar em função do período de choca”, explica Daniel Santos, um dos observadores.

Eduardo Franco, 28, o único biólogo do grupo, é diretor vice-presidente da ONG Ecoavis. “Comecei como observador de pássaros há cinco anos e já estive em vários estados. Setenta por cento das aves brasileiras estão em Minas e, por isso, nos organizamos para levar grupos em visitas guiadas pelas matas. Já temos mais de 30 eventos agendados para este ano e mais de 350 pessoas cadastradas.”

Beleza que vicia

Impossível não se contagiar com as histórias, causos e curiosidades sobre os pássaros. Os observadores são praticamente viciados nessa atividade. Acordam muito cedo para entrar na mata. Às vezes, caminham à noite para identificar e estudar os hábitos das aves noturnas.

Surucuá-variado (Trogon surrucura) - Foto: Daniel Santos

“O vício começa pelos olhos”, brinca Ricardo Mendes. E, invertendo o ditado, “o que os olhos veem, o coração sente”. Quando adolescente, ele criava canarinhos, sabiás, pombos e codornas em gaiolas. “Um dia, meu azulão morreu de sede, pois esqueci de colocar água. Fiquei tão triste que decidi soltar todos os pássaros e comecei a observá-los”, lembra

O fotógrafo, engenheiro e observador de pássaros, Daniel Esser, 61, também já foi criador de pássaros no passado. “Já tive mais de 120 pássaros presos, mas depois que comecei a fotografar, em 2006, descobri que podia tê-los aqui na máquina, o que é muito melhor do que na gaiola. Tive que ficar velho para aprender.”

Luis Henrique Braga Santos tem 14 anos e começou com o “vício” aos sete anos, de tanto acompanhar o pai, Daniel Silva Santos, nos passeios ecológicos. Com uma câmera nas mãos e o olhar sensível e apurado, ele andava quase levitando pela mata. “Meu pai sempre me chamava para caminhadas mais curtas e leves e levava uma câmera reserva. Fui tomando gosto e não parei mais. Viemos de Santo Antônio do Monte e sempre viajamos para várias cidades. Tenho um banco com quase 11 mil fotos. Pretendo continuar observando pássaros e já tenho um palpite para minha profissão: biólogo ou engenheiro ambiental”, entrega.

Organização e respeito

Esse tipo de vivência em meio à natureza, entretanto, exige organização. “O turismo rural está bem estruturado. O setor vem se organizando e crescendo. A observação de aves é uma experiência evolutiva e gradativa. O brasileiro quer ver e fotografar. Aprender a ouvir e identificar as espécies e o canto é um novo desafio que ajuda na construção da consciência ambiental. Para mim, essa atividade é apenas o início de um sonho. Quero viver disso”, pontua Ricardo.

Hotel Fonte Limpa: parceria para promover a observação de aves durante todo o ano - Foto: Ana Diniz

Bruno Nogueira, 25, administra hoje o Hotel Fazenda Fonte Limpa, que começou com seu pai, Rodrigo Nogueira. Declarado Monumento Histórico e Artístico de Minas Gerais desde 1995, o hotel se destaca pela conservação de época (o ciclo do ouro) e mantém muitas dessas referências como o moinho d’água, a antiga senzala (hoje restaurante, bar e boate), peças sacras, pinturas e muita história.

Construída na primeira metade do século XVIII para abastecer as minas de ouro de São João del Rei, Itaverava, Ouro Preto e Mariana, a fazenda já chegou a produzir cavalos de corrida. Ela pertence à família Nogueira desde 1800, que hoje está na sétima geração. Ficou abandonada durante 20 anos, mas começou a ser restaurada no início dos anos 1990 e foi inaugurada em 1997.

“O turismo foi a salvação de muitas fazendas aqui em Santana dos Montes. Meu pai foi o pioneiro porque percebeu que essa era a saída financeira e um grande filão. Hoje, temos 18 apartamentos que comportam entre três e seis pessoas e uma infraestrutura que oferece piscinas, sauna, charrete, museu rural, museu de engenho e engenhocas, uma ermida, cavalgada na lua cheia, massagem e muito mais.” 


Fique por dentro:  

Agenda 1º semestre

Os próximos eventos de observação de pássaros serão realizados dias 2 e 3 de maio (feriadão Dia do Trabalho), 7 e 8 de junho.
 
Lista dos pássaros avistados em Santana dos Montes: 
www.taxeus.com.br/lista/2563
 
Sites e blogs
www.ricardomendes.eco.br
www.ecoavis.org.br
www.historiasdeobservador.blogspot.com.br
www.virtude-ag.com
www.fazendafontelimpa.com.br
 
Saiba mais:  
Para ouvir o canto dos pássaros:
www.wikiaves.com.br/dicas_para_observacao_de_aves
 

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição