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Sexta, 10 de outubro de 2014

Memórias do sertão

Sumaré-da-serra: serventia para cravos na sola do pé

Marcos Guião - redacao@revistaecologico.com.br



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Sumaré-da-serra: serventia para cravos na sola do pé - Crédito: Marcos Guião

Sumaré-da-serra: serventia para cravos na sola do pé - Crédito: Marcos Guião

Em minhas andanças pelo sertão, o que fica de maior proveito são as prosas com os homens e as mulheres simples, dotados de grande sabedoria, amparada nas suas experiências. Dia desses, dei conhecimento com Figênio de Santinha, morador dos fundos do Baú, comunidade quilombola encravada nas nascentes do Jequitinhonha. Com cabeça e barba branca, seu rosto redondo trazia a estampa dum sorriso aberto e uma alegria zombeteira incomum, acompanhada do hábito de mascação da dentadura na busca de ajeito dela na boca. Ouvindo seu proseio, passei a mão num pedaço de papel e dei de registrar seu grande saber.

Quando o sol esquentou e a garganta secou, estacamos debaixo de uma mutambeira e loguinho ele deu de discorrer suas lembranças. “Nos antigo, quando o povo tinha dor em roda do umbigo, o usuar era pegar chifre de boi macho, levar no fogo da lenha e raspá aquele pó dentro de um copo de água fria. O doente tomava aquilo e num dilatava muito pra ele ‘provocá’ inté quase virá do avesso. Nóis comprava a cabeça do boi carreiro macho e guardava. Todas as casa tinha dessa mania. Se fosse menino homem, tomava a raspa do chifre da vaca. E a menina muié tomava a raspa do chifre do boi macho. Era ansim...”

“Conhece mijacão? Ah sei, conhece não... mas num é difícile tomá conhecimento do que seja. É uma modalidade de cravo derivado de pisada por riba da urina de animal solto aí na larga. Nos tempo de inhantes, era muito comum nesses menino malino que andavam só na sola dos pé pelo sertão. O sumaré-da-serra, aquela prantinha tratada tamém de orquídea, moradora nos pigogo de serra, no mais alto da chapada no meio do gorgulho, tem o melhor serventuar pra isso. Otras coisa tamém ela tem serventia. Quando é os caso de estrepe no pé, tem de se fazê uma pasta dos talo dele e colocar por riba inté ele puxar. Na escola, nóis cortava tamém esses talo e usava que nem cola. Era muito diferençado dos dia de hoje.”

Perguntas muitas afloraram e aos poucos fiquei sabendo, por exemplo, que “os doente nóis levava no canapé morro abaixo e morro acima, inté mermo debaixo de chuva. Sabe o que é canapé não? É mermo que catre, uma padiola que gasta quatro pra levá o doente inté Pedro Lessa, légua e meia. Levemo Donana, levemo tamém minha vó Salustiana... Foro muitos”. Enquanto falava, seus olhos negros já opacos miravam o horizonte na busca de imagens gravadas no fundo. Ainda tive tempo de aprender com ele que o maracujá-do-mato  (Passiflora cincinnata Mast.) “tem muita reputação na dificulidade das muié de seguração de menino. Gastava só amarrá o cipó dele em vorta da barriga, que daí a poucos tempo brotava uma criança feliz e saudia”.

Memórias assim fazem bem ao espírito, e por isso divido com vocês. Inté a próxima lua! 

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