Sexta, 10 de outubro de 2014

A força de uma cultura

Quando você disser que sua equipe é fraca, pare e pense: foi você quem os atraiu

Roberto Francisco de Souza (*) redacao@revistaecologico.com.br



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Quando você disser que sua equipe é fraca, pare e pense: foi você quem os atraiu - Crédito: Clipart

Quando você disser que sua equipe é fraca, pare e pense: foi você quem os atraiu - Crédito: Clipart

Foi quando comecei a Empresa Essencial. Para quem não se lembra, trata-se de um modelo de gestão que usamos, ainda hoje. Entre seus onze princípios, um me olhava desafiador e foi batizado de “Seleção Natural”.

Era um mecanismo evolutivo, mas não significava morte ou algo darwiniano. Não queria dizer que quem não fosse selecionado estaria morto, desempregado. E muito menos que a Empresa Essencial se tornaria o único lugar possível para se trabalhar ou que uma espécie de dia do arrebatamento ocupacional levaria apenas os bons para ela, deixando os maus com trabalhos piores.

Mas a imagem do personagem de Kevin Costner no filme “O Campo dos Sonhos”, de 1989, ouvindo a voz de sua consciência – “construa e eles virão” –, não saía de minha cabeça. Sabia que, se eu construísse a equipe, isso viria. E, quatorze anos depois, aconteceu.

Tinha muito mais a ver com atração. No começo, eu olhava para dentro e via pessoas que estavam ali, meio tortas, trabalhando com a gente, estando sem querer estar. A gente conversava, tentava entender, vivia crises de convivência, mas uma coisa foi certa: aos poucos alguns se foram, outros vieram e, quanto mais este ciclo se repetia, tanto mais a gente via algo mudar, não sabia direito como nem por que acontecia, mas as pessoas se pareciam mais com a gente, com a Empresa Essencial.

Paro para pensar e concluo que a gestão atrai e isso, no mercado, é dito de outra forma, uma empresa tem a cara de quem a guia ou ainda: diga-me onde trabalhas e te direi quem és.

Não é assim, cartesiano, não dá para tirar um retrato de uma organização e classificar sua equipe no mesmo reino, filo, classe, ordem, família, gênero ou espécie. Mas o tempo, sendo senhor da razão, se encarrega de aproximar os iguais em igrejas, partidos políticos, clubes, torcidas e o que mais vier. É a força da cultura.

Que o leitor não tenha desse escrito uma visão de Maniqueu. Nunca admirei os prêmios Great Place To Work (“Grande Lugar para se Trabalhar”) porque, com licença da má comparação, se dois bicudos não se beijam, um gambá também cheira o outro e, ditado por ditado, a empresa que eu detestar pode ser a que você ama e o que é bom para mim pode ser ruim para você.

Essencial aqui é compreender que, na maioria das vezes, vamos na direção do que nos atrai. Pode falhar, mas nossa trajetória profissional nos empurra na direção daquilo que, lá no fundinho, nós desejamos e amamos como modelo de organização do trabalho.

Eu, muito cedo em minha vida, me lamuriando com um colega sobre a injustiça que achava que cometiam comigo e minha “imensa” competência na empresa em que servíamos, ouvi dele o recado do qual nunca mais me esqueci, simples e direto:

- Por que você não procura outro emprego?

Naquele momento, resolvi que trabalhava na minha Great Place To Work. Fiquei e, só alguns anos depois, mais maduro, segui meu caminho.

Então, quando você disser que sua equipe é fraca, pare e pense: foi você quem os atraiu. Olhe-se no espelho e trate de tomar providências, se estiver realmente incomodado com ela.

Do outro lado, a toada é igual e você pode começar hoje a construir a mudança. Se demorar muito, pode ser sinal de crise de emprego no mercado. Mas, de boa, vai que é você que está onde sempre desejou estar. E a força de mudar é muito menor que a vontade que você tem de ficar onde está. Se for isso, digo-lhe o que disse certa vez a meu filho, ainda criança, que, sentindo falta do técnico de natação em uma de suas competições, começou a chorar e disse que não ia competir.

Segurei-o pelos braços, olhei bem nos seus olhos e exclamei:

- Pule na piscina e nade!

Deu terceiro lugar.


Tech Notes:

O que é a Great Place to Work
www.greatplacetowork.com

Relembre o que é a Empresa Essencial
http://goo.gl/ufXNad

Construa e eles virão
http://goo.gl/vkjx1n


(*) Diretor-geral da Plansis, vice-presidente de Sustentabilidade da Sucesu-MG, presidente do Comitê para a Democratização da Informática (CDI) e diretor do Arbórea Instituto.

 

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