Terça, 14 de outubro de 2014

A concepção ecocêntrica

A natureza no centro do universo é a alternativa viável para a construção de uma sociedade mais justa e, portanto, ambientalmente mais sadia

Alfeu Trancoso* redacao@revistaecologico.com.br



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Ecocentrismo como alternativa viável ao modelo de consumismo atual - Crédito/Imagem: Aita Giordano

Ecocentrismo como alternativa viável ao modelo de consumismo atual - Crédito/Imagem: Aita Giordano

Todo processo civilizatório produz suas próprias concepções de mundo. Temos como exemplo a concepção cosmocêntrica, criada pelos gregos no seu período mitológico, que vai dos séculos XI ao VI a.C. Nessa concepção, o homem se reconhecia como um ser submetido aos desígnios dos deuses, senhores do Cosmos e do destino humano. Um exemplo disso é a sentença emitida pela deusa Hera, mulher de Zeus, a Laio. A deusa predisse que ele seria morto pelo seu filho, Édipo, e que depois este se casaria com sua mulher Jocasta. E, como é sabido, Édipo matou sem saber o pai e se casou com a mãe.

A partir do século IV d.C, com a oficialização  do Cristianismo no Império Romano, outra concepção de mundo começa a ser formada: a concepção teocêntrica, em que Deus seria o centro de tudo. Ela perdurou até o século XVI, quando se inicia a Revolução Científica, em que outra concepção começou a ser gestada: a antropocêntrica ou humanista, segundo a qual o homem se tornaria o centro de todas as coisas. Ele seria, com ajuda da ciência e das técnicas, o senhor da natureza. Essa concepção, apesar das críticas, ainda é predominante hoje.

Entretanto, a partir do final do século XX, ficou mais evidente o impacto negativo das tecnologias sobre o meio ambiente. O crescimento desordenado das cidades e das populações, a poluição ambiental e a demanda cada vez maior por recursos naturais levou as consciências mais críticas a proporem um modelo de produção mais ecológico. Assim, o grande desafio desse novo modelo é contribuir para a substituição desse sistema predatório atual, que se baseia na dominação da natureza, por outro baseado numa relação de convivência pacífica e solidária com ela. E foi também por meio dessa nova concepção que surgiu a ideia da sustentabilidade que defende um desenvolvimento equilibrado com as condições ambientais e sociais, capaz de  garantir uma vida saudável para as futuras  gerações.

Esta nova diretriz ecológica, no entanto, entra em choque com os interesses da sociedade consumista atual. Como esse sistema baseia-se na ideia de que é preciso crescer e consumir a todo custo, o desafio está lançado. A relação entre produção e recursos naturais tem de ser alterada radicalmente. Nesse início de século, fica o alerta de que esse descompasso pode desencadear uma crise sem precedentes nas sociedades consumistas. Desse modo, a concepção ecocêntrica seria hoje a única alternativa viável para a construção de uma sociedade mais justa e, portanto, ambientalmente mais sadia - não só para os homens, mas para toda a natureza e os seres vivos que habitam esse belo planeta. 


(*) Ambientalista e professor de Filosofia da PUC Minas.

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