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Quinta, 16 de outubro de 2014

A vida líquida de Bauman

A crítica sensata do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor do livro "A vida líquida", contra o consumo

Eloah Rodrigues - redacao@revistaecologico.com.br



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Bauman:

Bauman: "O lixo é o principal e comprovadamente o mais abundante produto da sociedade moderna de consumo" - Crédito: Michael Nadolski

Nascido em Poznan, uma das mais antigas cidades da Polônia, em novembro de 1925, o sociólogo Zygmunt Bauman iniciou sua carreira acadêmica na Universidade de Varsóvia. Com os tempos de censura, mudou-se para Canadá, Estados Unidos, Austrália e, mais tarde, para a Grã-Bretanha, onde se consagrou como escritor e professor de Sociologia da Universidade de Leeds.

É autor de várias obras de renome internacional, como “Capitalismo Parasitário”, “A Ética é Possível num Mundo de Consumidores?”, “Globalização: as Consequências Humanas”, “O Mal-Estar da Pós-Modernidade” e “Vidas Desperdiçadas”, que contribuíram para as reflexões sobre práticas sustentáveis e responsáveis, do ponto de vista do consumo. Foi ganhador dos prêmios “Amalfi”, em 1989, pelo livro “Modernidade e Holocausto”; e “Adorno”, em 1998, pelo conjunto de sua obra.

No livro “Vida Líquida”, do qual a Ecológico apresenta alguns trechos a seguir, Bauman nos convida a enxergar a “liquidez” como a essência máxima do ser contemporâneo. Analisa o caminho da sociedade pós-moderna consumista. Questiona a qualidade da ascensão da sociedade atingida pela capacidade de consumir e não por algo mais sólido, como a educação. Fala das relações humanas que têm se tornado cada vez mais frágeis, comparando-as a mercadorias, que são descartadas quando já não “servem” mais.

Diante desse processo, defende o sociólogo polonês, torna-se fundamental questionar o relativo conforto e a segurança daqueles que se julgam privilegiados, na ordem estabelecida de consumo-descarte e de produção antiecológica de lixo. Inevitavelmente, enquanto vivos, caminharemos todos juntos, compartilhando a liberdade e o medo, as alegrias e as tristezas, como em um relacionamento, já que habitamos uma mesma casa e um mesmo e interligado ambiente: o planeta Terra.

Bem-vindo ao pensamento líquido de Zygmunt Bauman!

VIDA LÍQUIDA

“É uma vida de consumo. É uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante. Significa constante autoexame, autocrítica e autocensura. Um tipo de vida que alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo.”

“A vida líquida é uma sucessão de reinícios.”

SOCIEDADE MODERNA

“É uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das nossas formas de agir.”

“Essa sociedade promete uma felicidade fácil que pode ser obtida por meios inteiramente não heroicos e que devem estar, tentadora e satisfatoriamente, ao alcance de todos (ou seja, de todo consumidor).”

“Numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades.”

DESTRUIÇÃO CRIATIVA

“A vida na sociedade líquido-moderna é uma versão perniciosa da dança das cadeiras jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de sermos excluídos das fileiras dos destruídos e evitar sermos jogados no lixo.”

Imagem: Olly/Fotolia

CRESCIMENTO RESTRITO

 “As chances mais amplas de vitória pertencem às pessoas que circulam perto do topo da pirâmide do poder global, para as quais o espaço pouco significa e a distância não é problema.”

“Boas-novas para as pessoas com amplo crédito bancário, más notícias para todos os demais, que flutuam perigosamente próximos de serem rebaixados à categoria secundária dos ‘consumidores fracassados’ e atirados ao buraco negro da ‘subclasse’.”

DEGRADAÇÃO ESPIRITUAL

“Os afetados pelo vírus do lumpem proletariado espiritual vivem no presente e pelo presente. Vivem para sobreviver (tanto quanto possível) e para obter satisfação (o máximo possível).”

 “O mundo habitado por este vírus não deixa espaço para inquietações sobre qualquer outra coisa senão o que pode ser, ao menos em princípio, consumido e saboreado instantaneamente, aqui e agora.”

ESPERANÇA QUE SE ESVAI

“No mundo passado, onde o tempo caminhava bem mais lentamente e resistia à aceleração, as pessoas tentavam fechar o torturante fosso entre a pobreza de uma vida curta e mortal e a riqueza infinita do universo eterno, com esperanças de reencarnação ou ressurreição.”

MARTÍRIO IMCOMPREENDIDO

“À medida que essa sociedade com seu consumismo endêmico cresce, mártires e heróis vão batendo em retirada.”

“A sociedade líquido-moderna de consumidores considera os feitos dos mártires, heróis e todas as suas versões híbridas quase incompreensíveis e irracionais, e, portanto, ultrajantes e repulsivos.”

 IDENTIDADE TROCADA

“A ‘identidade’, tal como costumavam ser a reencarnação e a ressurreição dos velhos tempos, se refere à possibilidade de ‘renascer’, de deixar de ser o que é para se transformar em alguém que não é.”

LEALDADE RENEGADA

 “Para se livrar do embaraço de ser deixado para trás, de ficar preso a algo com o qual ninguém mais quer ser visto, de ser pego cochilando e de perder o trem do progresso em vez de viajar, deve-se ter em mente que é da natureza das coisas exigir vigilância, não lealdade. No mundo líquido-moderno, a lealdade é motivo de vergonha, não de orgulho.”

HIPOCRISIA E FRUSTRAÇÃO

“Para que a busca de realização possa continuar e novas promessas possam mostrar-se atraentes e sedutoras, as promessas já feitas precisam ser quebradas, e as esperanças de realizá-las, frustradas.”

“Um mar de hipocrisia que se estende das crenças populares às realidades da vida dos consumidores é condição sine qua non para que uma sociedade de consumidores funcione apropriadamente. Toda promessa deve ser enganosa, ou pelo menos exagerada, para que a busca continue. Sem a repetida frustração dos desejos, a demanda pelo consumo se esvaziaria rapidamente, e a economia voltada para o consumidor perderia o gás.”

ESTÍMULO AO CONSUMO

“A arte do marketing está focada em evitar a limitação das opções e a realização dos desejos.”

 “Um mercado de consumo propaga a circulação rápida, a menor distância do uso ao detrito e ao depósito de lixo, e a substituição imediata dos bens que não sejam mais lucrativos.”

MODERNIDADE LÍQUIDA

“Parece uma cultura do desengajamento, da descontinuidade e do esquecimento.”

“Na hierarquia herdada dos valores reconhecidos, a ‘síndrome consumista’ destronou a duração, promoveu a transitoriedade e colocou o valor da novidade acima do valor da permanência.”

“O advento da sociedade líquido-moderna significou a morte das principais utopias sociais e, de modo mais geral, da ideia de uma ‘boa sociedade’.”

EFEITO COLATERAL

 

“Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado.”

LIXO CRESCENTE

“O lixo é o principal e comprovadamente o mais abundante produto da sociedade moderna de consumo. Entre as indústrias da sociedade de consumo, a de produção de lixo é a mais sólida e imune a crises.”

 “A vida talvez seja sempre um ‘viver-para-a-morte’. Mas, para os que vivem na líquida sociedade moderna, a perspectiva de ‘viver-para-o-depósito-de-lixo’ pode ser a preocupação mais imediata e consumidora de energia e trabalho.”

CUIDADO PLANETÁRIO

“Trata-se de uma responsabilidade verdadeiramente planetária: o reconhecimento do fato de que todos nós que compartilhamos o planeta dependemos uns dos outros para o nosso presente e futuro. Nada que façamos ou deixemos de fazer pode ser indiferente para o destino de todos os outros. Nenhum de nós pode mais procurar e encontrar um refúgio privado para tormentas que se podem originar em qualquer parte do globo.”  

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Comentários

Filipe Cascais

A "coisa" em tempos era apenas matéria VS pensamento. Na verdade parece que agora devemos acrescentar a "liquidez".


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