Terça, 03 de fevereiro de 2015

Crise hídrica? Bem feito pra nós!

Onde só há boi e soja, cimento e asfalto, no lugar da floresta e da natureza, seremos infelizes

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com



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Crédito: Dollarphotoclub

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Não é de hoje que a natureza vem avisando. Mas ninguém quis escutar. Desde quando Pedro Álvares Cabral aportou aqui devastadoramente, cortando pau-brasil - a árvore de cor vermelho-brasa   que deu nome ao nosso país -, e Pero Vaz de Caminha, na prometida Nova Terra, anunciou que “plantando, tudo dá”, a nossa tragédia atual teve início. 

Tanto Pedro quanto Pero não sabiam, e a gente ainda não aprendeu, soberbos que somos, que para plantar, colher e nos mantermos vivos, dependemos de uma única fórmula mágica e frágil, criada pelo universo: H2O. E, junto dela, a menos que prefiramos o deserto, outro ser planetariamente básico chamado árvore.

É como o médico e escritor Guimarães Rosa nos ensinou. "Onde tem buriti tem água. E onde tem água, a gente é mais feliz". O que equivale a dizer nos dias de hoje: onde só há boi e soja, cimento e asfalto, no lugar da floresta e da natureza, seremos infelizes. E, mais infelizes ainda, caso o meio ambiente continue sendo a pasta mais esquecida e desprezada pelos nossos governantes, dos vereadores e prefeitos aos ministros e presidente da República. Haja vista que os novos eleitos já dão palpite em tudo pra resolver a crise hídrica: transpor rios mortos, construir barragens etc. Menos, é claro, ouvir os ambientalistas, os cientistas e estudiosos, quem sempre avisou, lutou e indicou caminhos ecológicos e não antropocêntricos para preservar a sustentabilidade própria e parceira da natureza.

É disso, da relação devastação-falta d’água, que tratamos nesta edição da Ecológico, com o intuito de contribuir para o debate, e cuja capa faz uma alusão ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo”. Segundo a memória iluminada do filósofo frânces André Comte- Sponville, você também lerá aqui, o intuito maior do ser humano, além de se manter vivo, é ser feliz. E isso se traduz, simplesmente, em desejarmos e amarmos, desesperadamente, o que já temos e não valorizamos.

A natureza sabia disso bem antes da nossa presença predatória no planeta. É esse o cerne da questão ambiental. O que a gente não faz por amor às suas árvores e águas (e não nossas), faremos pela dor. É o que está nos acontecendo agora, de maneira democrática, outra qualidade que esquecemos da Mãe Natureza.

O que podemos fazer de ecologicamente heroico, quando toda e qualquer crise, que também é sinônimo de oportunidade, bate à nossa porta e, agora, à nossa torneira? 

Segundo Sponville, “não é a esperança que faz os heróis: é a coragem e a vontade”. É os nossos governantes agirem com o coração, em vez de somente com suas mentes técnicas e partidárias. E terem uma vontade política maior. Uma vontade verde, líquida e amorosa que nunca tiveram. Desesperadamente, como aponta o filósofo.

Boa leitura! 

Até março, quando faremos circular a nossa Edição Especial comemorativa ao “Dia Mundial da Água”.

 

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