Terça, 03 de fevereiro de 2015

“Não é culpa de São Pedro”

Entrevista com Glauco Kimura, coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil

Luciano lopes - redacao@revistaecologico.com.br



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KIMURA: “Um país que não prioriza a água, que é um elemento essencial à vida, paga o preço cedo ou tarde” Crédito: WWW-Brasil

KIMURA: “Um país que não prioriza a água, que é um elemento essencial à vida, paga o preço cedo ou tarde” Crédito: WWW-Brasil

A pouca chuva que tem caído nos últimos dias em algumas partes do país tem sido muito celebrada pelos brasileiros. No entanto, ela ainda não é suficiente para aumentar o nível de água nos reservatórios do país, principalmente no Norte e no Sudeste, onde a situação é mais crítica. Na entrevista a seguir, o coordenador do “Programa Água para a Vida” do WWF-Brasil, Glauco Kimura, aponta vários fatores que desencadearam a crise hídrica que hoje assola o Brasil, como o desmatamento e a má gestão da água. 

Formado em Ciências Biológicas e mestre em Ecologia pela USP, ele alerta que o país não investiu adequadamente em recursos hídricos nos últimos anos e colhe as consequências disso. Em São Paulo, por exemplo, denuncia que, dos “seis sistemas de reservatórios que não estão atendendo às demandas, pelo menos a metade está poluída e assoreada”. Ele aponta também o risco de uma crise ainda maior no Rio de Janeiro, com a transposição do Rio Paraíba do Sul: “Transpor água entre estados é transpor também problemas. O Rio está começando a sentir os efeitos da estiagem. A transposição deve ser uma solução temporária, mas há risco de acelerar a crise hídrica lá”.

Kimura também alertou sobre a passividade da população frente aos recentes problemas: “A crise já havia sido anunciada há dez anos. O cidadão brasileiro nunca esteve tão distante dos temas e das políticas ambientais”. Confira:

O Brasil vivencia uma crise hídrica sem precedentes em sua história. Na sua opinião, quais são os fatores que mais contribuíram para isso?

A crise já estava anunciada há pelo menos uma década. Ela é decorrência de um conjunto de fatores (leia no box da página 15), principalmente ligados à gestão e à negligência do tema na agenda política. O país avançou até o final da década de 1990 na questão hídrica, quando foi sancionada a Política Nacional de Recursos Hídricos (também chamada de “Lei das Águas”) e criada a Agência Nacional das Águas (ANA) em 2000. Em 2006, o Brasil tornou-se o primeiro país da América Latina a ter uma legislação específica de recursos hídricos. Cerca de 200 comitês de bacia foram criados desde a promulgação da Lei das Águas em 1997. Porém, o que temos presenciado é um baixíssimo nível de implementação dessa política, o enfraquecimento das agências de água dos estados e dos comitês de bacia. 

 

Especificamente no caso de São Paulo, muitos afirmam que o governo estadual cometeu graves erros em relação à gestão da água. Um deles seria a falta de interligação do Cantareira com outros sistemas. Se ela tivesse sido feita há mais tempo, o sistema não enfrentaria o risco de colapso. Que medidas emergenciais poderiam contribuir para reverter essa situação no estado? 

A respeito da interligação do Cantareira com outros sistemas, vale lembrar que o próprio sistema já é uma transposição de uma bacia vizinha – a do Piracicaba-Capivari-Jundiaí (PCJ) –, distante mais de 100 km da capital paulista. Ela já “empresta” água para a região metropolitana há mais de 30 anos. Agora que o Cantareira está à beira de um colapso, a solução é “solicitar empréstimo” de outras bacias? Não dá mais para se comportar como aquela família que gasta mais do que pode e pede dinheiro emprestado cada vez mais caro e mais longe. É preciso rever a forma como essa família lida com dinheiro, que não é sustentável. Essa crise criou uma oportunidade para lidarmos melhor com nossos recursos e admitir que eles são finitos e escassos. Portanto, neste momento, até que as obras do sistema São Lourenço e Paraíba do Sul estejam prontas, é preciso diminuir o consumo e continuar multando quem gasta mais, assim como bonificar quem economiza. Além disso, a Sabesp está considerando utilizar a terceira cota do volume morto, que adicionaria 41 milhões de metros cúbicos ao sistema... 

 

A ANA autorizou, recentemente, a ligação do Rio Paraíba do Sul ao Sistema Cantareira. O rio já abastece 57 municípios fluminenses. Nesse momento de crise, a transposição de suas águas não comprometeria a dinâmica hídrica das fontes

que o alimentam? 

Certamente, mas é uma situação delicada. O Rio de Janeiro é totalmente dependente do Sistema Guandu, que é uma transposição do Paraíba do Sul. Na verdade, transpor água entre estados é transpor também problemas. A escassez de água atingiu não somente São Paulo, mas outras metrópoles do Sudeste, incluindo o Rio, que está começando a sentir os efeitos da estiagem. Essa deve ser uma solução temporária, sob o risco de acelerar a crise hídrica lá. Tal transposição deve durar um curto período de tempo até que as obras de outros sistemas estejam concluídas.

O setor industrial está entre os maiores consumidores de água e também entre os que mais poluem os rios do país. Por que não se fala em racionamento para as empresas? O que falta para que elas deem mais valor tanto para a água que captam quanto para a que descartam de suas instalações e processos?

O racionamento para empresas deve ser sim considerado neste momento de crise, porém não é tão simples quanto racionar água nas casas. Geralmente as empresas possuem outorga (licença) de uso para um determinado volume do recurso natural, que foi emitida pelo órgão regulador de água. O processo deve envolver o órgão regulador para que as outorgas sejam revistas caso a caso e até mesmo suspensas temporariamente, se for o caso. Também cabe a esse órgão fiscalizar os grandes usuários empresariais para avaliar se o volume outorgado está sendo fielmente utilizado. A fiscalização é ineficiente na maioria dos casos e a outorga também é concedida sem informações. O aspecto que falta para que as empresas passem a ser mais eficientes em relação à água não é apenas fiscalização, mas incentivos. O WWF vem trabalhando com várias outras organizações num processo de certificação de boas práticas do uso da água no setor empresarial, a “Alliance for Water Stewardship” (AWS). A versão 1.0 já está sendo testada com sucesso, porém é preciso maiores esforços para ampliar e dar escala ao selo AWS.

 

Como essa metodologia poderia contribuir nesse sentido? Em que ela é baseada?

O WWF-Brasil, por meio de Water Stewardship, atua com governos e empresas para que eles conheçam suas pegadas e tornem-se melhores administradores de água, trabalhando em conjunto para melhor gerir esse recurso essencial. Praticamente todos os setores de negócios dependem da água, no entanto, vários segmentos de mercado, como supermercados, fabricantes de roupas, de microchip, enfim, estão apenas começando a entender o que este elemento, do qual a vida é gerada, significa para eles, seus lucros e sua viabilidade a longo prazo. Stewardship significa ter uma atitude responsável, realizar e promover a gestão sustentável dos recursos de água doce. Essa metodologia contribui em propor iniciativas de engajamento empresarial em torno da água: consumo responsável, cálculos da pegada hídrica, dos riscos atuais e futuros nas bacias hidrográficas e atuação para reduzi-los ou mitigá- los. Além de projetos de proteção das bacias hidrográficas. 

 

Poderia citar alguma experiência bem-sucedida de outro país que vivenciou uma crise hídrica e conseguiu revertê-la? Que estratégias utilizaram?

Há bons exemplos, como o da cidade de Nova York, que adotou uma política de proteção do cinturão verde no entorno da cidade. Eles compensaram fazendeiros que tinham nascentes em suas propriedades, resultando numa economia anual expressiva, especificamente reduzindo de 6 a 8 bilhões de dólares em tratamento de água para 1 a 1,5 bilhão de dólares em 10 anos com água pura direto da fonte para a população. Esse mesmo modelo está sendo desenvolvido e adotado pela ANA aqui no país por meio do Programa “Produtor de Água”. Ele já está sendo implementado por meio de quase 20 experiências Brasil afora e deve ser replicado em escala, principalmente no entorno das grandes regiões metropolitanas brasileiras.

 

Cerca de 95% dos brasileiros conhecem métodos para economizar água. Por que ainda há tanto desperdício?

Por várias razões. A primeira é que o Brasil é detentor de 12% da água doce superficial do planeta e o país tem dimensões continentais. Isso acabou criando uma cultura da abundância e desperdício no cidadão brasileiro. Muitas pessoas acham que a água nunca irá acabar, pois o regime de chuvas é abundante. Porém, como estamos vendo, a água pode se tornar escassa localmente. Também é necessário conceder mais incentivos para quem economiza. Não apenas em momentos de crise, mas de forma constante. A multa é um ótimo instrumento regulador, porém deve ser usado em momentos de crise, como o que estamos vivendo agora.

 

Já é possível vislumbrar os impactos ambientais do novo Código Florestal nos

recursos hídricos?

Sim, com a redução da faixa de matas ciliares ao redor de rios, corpos d’água e outros reservatórios prevista no novo Código, eles estarão mais vulneráveis à poluição, erosão e assoreamento. Um reservatório assoreado perde água por evaporação e diminui sua vida útil. Portanto, gasta-se muito mais dinheiro para despoluí-lo e recuperá-lo. As matas ciliares funcionam como barreiras naturais de proteção aos rios e corpos d’água Diminuí-las foi um grande equívoco. Além disso, a desobrigação de proteção de vegetação ao redor de nascentes intermitentes (que secam em parte do ano) foi um equívoco ainda maior. Com essa grave seca, a pior em 85 anos no Sudeste, muitas nascentes que não eram intermitentes secaram. E, nesse caso, desmatá-las passou a ser legal, de acordo com o novo Código. A proteção de nascentes deveria ser totalmente obrigatória, haja vista que são as fontes de água dos rios e reservatórios. Está havendo um grande equívoco e que deve ser corrigido urgentemente. O novo Código Florestal irá agravar a crise hídrica atual e permitir que novas crises ocorram num futuro próximo.

 

Nesse momento de tensão hídrica, que conselho sustentável deixaria para nossos leitores?

É preciso se informar mais sobre o tema. A crise hídrica não é culpa de São Pedro, e sim de todos nós (governos, sociedade e empresas). Portanto, somos parte da solução também. A proteção das nascentes e mananciais é absolutamente essencial. Devemos protegê-los e cobrar que sejam protegidos.


OS 5 FATORES QUE DESENCADEARAM A CRISE

Planejamento e execução deficientes
“Não há a integração dos planos de bacia e de recursos hídricos com os de ordenamento territorial, de geração de energia hidrelétrica e outras políticas e instrumentos. Por exemplo: o Plano Diretor de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista apontava a necessidade de investimentos entre 4 e 10 bilhões de reais em novos mananciais, meios de captação e transferência de água em cinco anos (2008 a 2013). Dois projetos em curto prazo atrasaram e só ficarão prontos em 2018 (caso do sistema produtor de águas São Lourenço).” 

 

Falta de investimentos

“O país não investiu adequadamente em segurança hídrica. Em 2011, a ANA publicou o ‘Atlas de Abastecimento Urbano’, que previa investimentos da ordem de R$ 22 bilhões até 2015 para garantir abastecimento de água em 55% dos municípios brasileiros que já estavam sob risco. Esses investimentos não ocorreram e serviram para financiar a Copa do Mundo de 2014. Um país que não prioriza a água, que é um elemento essencial à vida, paga o preço cedo ou tarde. O estado de São Paulo, por exemplo, é responsável por um terço do PIB brasileiro e recebeu em 2013 mais de R$ 12 bilhões do orçamento federal, mas não investiu nem 10% do seu orçamento anual em segurança hídrica.”

 

Desmatamento

“Hoje, mais de 80% da população brasileira vive nas cidades e o desmatamento tem ocorrido com grande intensidade e velocidade. As bacias que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo perderam 70% da sua cobertura florestal nas últimas décadas. As florestas servem como ‘esponjas’, armazenando água no solo e retroalimentando os aquíferos. Estes, por sua vez, reabastecem as nascentes e os reservatórios. Ou seja, a floresta tem papel fundamental no suprimento de água. Como as florestas estão sendo substituídas pelas cidades, o solo vai ficando impermeabilizado, aumentando a evaporação da água ou seu escoamento repentino, resultando em enchentes. As matas ciliares servem como ‘filtros’ para barrar contaminantes e sedimentos que poluem os rios. Sem elas, os rios ficam contaminados e os reservatórios assoreados. Essa relação floresta-água é desconhecida pela população e pelos tomadores de decisão. Exemplo disso é o novo Código Florestal, que reduziu a faixa de proteção de matas ciliares nos rios e corpos d’água para apenas 15 metros. E São Paulo, no meio da pior crise hídrica da história, está prestes a regulamentar a lei para o estado, o que irá contribuir para o agravamento do problema.”

 

Mudanças climáticas

“Estamos preparados para enfrentar os extremos climáticos que estão acontecendo e vão continuar a acontecer? O “Plano Diretor de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista” trazia uma forte recomendação a respeito do preparo para enfrentar períodos de seca, mas faltaram políticas públicas de prevenção nesse sentido. Os gestores estão considerando a construção de novos reservatórios como a solução para combater os efeitos do aquecimento global e uma forma de aumentar a oferta de água. No entanto, essa solução, que pode parecer efetiva em curto prazo, é temerária no longo. No caso de São Paulo, são seis sistemas de reservatórios que não estão atendendo às demandas, pois pelo menos a metade está poluída e assoreada. É preciso rever o modelo de oferta de água de forma a incorporar a proteção das fontes de água, suas nascentes e olhos d’água.”

 

Desconhecimento do público sobre o tema

“O cidadão nunca esteve tão distante dos temas e das políticas ambientais. As pesquisas de opinião que realizamos a cada quatro anos com o Ibope mostram que o cidadão desconhece o nexo água-florestas-cidades. Apenas 1% dos entrevistados relaciona o problema de água com desmatamento. Mais de 80% nunca ouviram falar da Agência Nacional das Águas, dos comitês de bacia e da Lei de Águas. Isso é um grave problema a ser enfrentado.” 

 

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