Terça, 03 de fevereiro de 2015

Proteger é preciso

Projetos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) garantem aumento da população de quelônios e de pirarucus no Amazonas

Jucier Costa Lima e Luis Carlos Lopes redacao@revistaecologico.com.br



font_add font_delete printer

Na Floresta Amazônica tudo é imenso. Tem-se a impressão de que seus recursos são inesgotáveis. Mas duas espécies de animais que corriam risco de desaparecer devido a esse pensamento equivocado encontraram proteção no Ibama. O “Projeto Quelônios da Amazônia” (PQA) é um deles. Trata-se da iniciativa ambiental que mais proporcionou a volta de animais à natureza: em seus 35 anos de existência, mais de 70 milhões de filhotes de quelônios foram soltos e, agora, retornam às praias de nascimento para dar origem a novos exemplares. Outro projeto do Ibama também vem se destacando na proteção de um dos maiores peixes de água doce do mundo: o pirarucu (Arapaima gigas), atualmente na lista "Cites" de animais sobre-explorados. A autorização de pesca apenas para áreas de manejo e piscicultura está permitindo a reposição do peixe na natureza. Ao contrário de locais onde a pesca é realizada sem este tipo de controle, no estado do Amazonas o número de pirarucus está aumentando anualmente. Com isso, há também uma melhora na vida de ribeirinhos e pescadores. Mais peixes, mais renda. 

Embarque nessa viagem conosco:

 

Soltura de Quelônios

A cidade amazonense de Itamarati, a 983 km de Manaus, é considerada uma das mais bem administradas do estado. Nenhum de seus quase 12 mil habitantes está sem renda. As ruas são limpas e a prefeitura comprou latas de tinta para pintar as casas. Seu colorido incomum dá um charme diferente ao local. O município fica à beira do Rio Juruá, de águas barrentas e piscosas, que dão sentido e sabor à vida daquela gente amazonense. Esta foi uma das primeiras regiões em que foi implantado, em 1979, o PQA, hoje sob coordenação da Diretoria de Uso Sustentável de Biodiversidade e Florestas (DBFlo/Ibama) e espalhado pelas bacias do Amazonas e do Tocantins-Araguaia.

O programa, que já devolveu à natureza milhões de filhotes de quelônios (tartarugas-da-amazônia, tracajás, pitiús etc), realizou, no fim de 2014, a soltura de mais 100 mil tartarugas nos tabuleiros de Walterbury, Nova Olinda e Vista Alegre, administrados pela prefeitura de Itamarati. 

O PQA nasceu da necessidade de proteger os quelônios da Amazônia. Muito utilizados na culinária, do indígena e do amazonense em geral, os números relativos a essas espécies vinham diminuindo frequentemente. O governo federal criou o projeto e coube ao Ibama gerenciá-lo por meio de parcerias com prefeituras, ONGs e comunidades locais. Na época da desova, que ocorre entre agosto e setembro, os guarda-praias passam a madrugada de tocaia para saber onde as matrizes colocarão seus ovos. Eles também cuidam dos ninhos durante a incubação, contra invasores e predadores. Cada postura pode chegar a ter mais de 180 ovos, mas a média computada é de cem por ninhada. No local, são fincados paus contendo informações de data. Após 60 dias, a areia é escavada e os filhotes já nascidos são colocados em piscinas, onde passam mais 20 dias à espera da soltura. Nessas piscinas, eles perdem o cheiro característico, que atrai predadores, e ganham mais força e agilidade, o que lhes confere maior potencial de sobrevivência.

Os resultados até agora atingidos permitem que o Brasil seja reconhecido como o único país da América do Sul que ainda possui estoques significativos de quelônios passíveis de recuperação e viáveis para programas de uso sustentável. O programa consegue, além de promover a reintegração das espécies a seu hábitat, fixar o homem no campo, com a geração de emprego e renda, e proporcionar o bem-estar socioeconômico e ambiental das comunidades ribeirinhas. Na primeira edição do programa nos tabuleiros da região de Itamarati, havia apenas 54 tartarugas. Esta última edição contou com mais de 4.300 matrizes. No total, foram soltos no estado cerca de 2,1 milhões de quelônios em 2014, contra 1,2 milhão em 2013.

 

Manejo do Pirarucu

Após a soltura dos quelônios, seguimos para Tefé, onde pudemos conhecer o manejo do pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDSM), a primeira implantada no país, considerada também a maior reserva florestal brasileira dedicada exclusivamente à proteção da várzea amazônica. Criada há 15 anos, é gerida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (SDS) por meio do Centro Estadual de Unidades de Conservação (Ceuc).

A cidade de Tefé fica às margens de um grande lago de mesmo nome e é polo da região do triângulo Jutaí-Solimões-Juruá, sendo o principal local de recebimento de pessoas e mercadorias que vão para os grandes centros ou para o interior do estado. Para chegar a Mamirauá, subimos o rio Jarauá por cerca de duas horas e meia na “voadeira” (lancha rápida) com o chefe da RDS Amanã, Aroldo Xavier. O rio serpenteia com suas águas escuras num corredor margeado por florestas que, em alguns trechos, chega a quilômetros de distância. A exceção são as pequenas comunidades à beira do rio, com crianças brincando na porta das casas e, vez por outra, algum ribeirinho aportando sua canoa. 

Chegamos a São Raimundo do Jarauá, povoado no qual acompanhamos a pesca do pirarucu. Cerca de 40 casas, algumas flutuantes, enfileiram-se à esquerda e à direita da maior construção local: a escola. O local de limpeza e tratamento do grande peixe é um flutuante e está localizado estrategicamente na entrada da comunidade, que, como outras, participa do processo. De maneira geral, os homens pescam e as mulheres limpam. As crianças observam e já sabem que o manejo significa a existência do pirarucu em seu próprio futuro.

Depois de conhecermos o povoado, subimos um pouco mais o rio e fomos até a casa flutuante do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), organização não governamental que tem parceria com o estado do Amazonas e com o Ibama para ajudar as comunidades locais em projetos financeiros e sociais. Cada uma das áreas que realiza o manejo possui uma instituição parceira, que se comunica diretamente com o Ibama ao enviar o projeto técnico e os requerimentos solicitando guias de transporte e os relatórios anuais, feitos após a pesca, bem como o monitoramento da captura dos indivíduos nos lagos, a colocação dos lacres e o preenchimento das planilhas com os dados dos pescados. Após retirarmos a bagagem, fomos procurar os pescadores.

De várias comunidades, eles estavam reunidos em um lago. As comunidades ribeirinhas de diversos locais e pescadores profissionais da cidade estabelecem acordos de pesca e trabalham em conjunto, dividindo os lucros. Se, antes, havia tentativas de invasão nas áreas de manejo para a realização de pesca ilegal, gerando conflitos entre moradores das comunidades próximas e invasores, várias das áreas contam, atualmente, com um objetivo comum: a sua própria manutenção. Para chegar ao lago onde ocorre a pesca, subimos o rio, cheio de bifurcações, e encontramos o local do acampamento rudimentar das canoas, ancoradas em um trecho solitário do Jarauá. Após entrarmos em uma trilha aberta na mata pelas passadas dos pescadores, vimos uma pessoa com passo apressado e um enorme pirarucu nas costas, que deveria pesar uns 80 kg. Os pés descalços afundavam no solo de várzea escorregadio. O calor e a umidade são imensos, mas os mosquitos não chegavam a incomodar. Mais à frente, vários pescadores em suas pequenas canoas procuravam encurralar o próximo peixe. Vez por outra, a cumbuca que retira água das embarcações era acionada para evitar que elas afundassem. Pausa apenas para o almoço: tambaqui, assado no jirau feito de paus, e farinha de mandioca, refeição típica dos ribeirinhos.

Do lago, os pirarucus pescados são carregados até a canoa com motor de rabeta, que os leva ao local onde serão limpos, medidos, pesados e colocados em um barco especial, que os manterá congelados até chegarem aos grandes mercados. Normalmente, a produção é vendida antecipadamente.

Os resultados indicados pelos dois projetos (PQA e pirarucu) provam que, somada à ação empenhada, a conscientização ambiental, aos poucos, pode transformar uma realidade devastadora em uma outra, promissora, em que a convivência harmoniosa com a natureza é, para além do desejável, perfeitamente possível.

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição