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Terça, 03 de fevereiro de 2015

Final feliz

Fhemig cumpre promessa e recupera o Museu da Loucura, em Barbacena

Anni Luise Sieglitz redacao@revistaecologico.com.br



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ANTÔNIO MARTINS e José Geraldo Prado (primeiro e segundo à direita) acompanham exposição do projeto cenográfico apresentado por Edson Brandão: contribuição à memória

ANTÔNIO MARTINS e José Geraldo Prado (primeiro e segundo à direita) acompanham exposição do projeto cenográfico apresentado por Edson Brandão: contribuição à memória

A promessa feita pelo ex-presidente da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig) Antônio Carlos Martins se cumpriu. O novo Museu da Loucura, pertencente ao Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), foi inaugurado em dezembro último, quando a edição de janeiro da Revista Ecológico já havia sido impressa. 

O local, famoso por abrigar um acervo que conta a história do primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais, teve suas obras concluídas após passar por uma reestruturação que durou seis meses, desde as denúncias de abandono e desconstrução política feitas pela revista.

O prédio, tombado pelo patrimônio histórico, foi completamente reformado, tornando-se mais moderno e acessível à visitação pública. Com esta atitude, Minas volta à vanguarda da saúde mental no país, como protagonista da reforma psiquiátrica.

“Esta inauguração é emblemática, pois neste museu estão preservados fragmentos da memória de um passado triste, quando a internação era o tratamento. E hoje, mesmo com as melhorias conseguidas, ainda é necessário avançarmos. Graças a bons exemplos, como a implantação da Rede de Atenção Psicossocial, Minas já vem trabalhando o conceito da saúde mental além dos sintomas. Garantindo respeito aos direitos humanos e proporcionando autonomia e liberdade aos doentes mentais”, afirmou o então secretário estadual de Saúde, José Geraldo Prado. 

Para Antônio Carlos Martins, presidente da Fhemig à época, a revitalização do Museu da Loucura é um marco para a história da saúde mental no estado: “Tudo foi feito com muito cuidado, por uma equipe especializada que respeitou a estrutura original do prédio”.

 

Reforma e Promessa 

Esta é a segunda reforma realizada no local desde a inauguração, em agosto de 1996, por meio de uma parceria entre a Fhemig e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena. “Todas as adequações foram feitas preservando-se os moldes da arquitetura de uma época”, confirmou  Lucimar Pereira, coordenadora do museu. 

O projeto de revitalização do Museu da Loucura ainda não foi concluído, pois inclui a ampliação e a atualização do acervo, indo além da história do CHPB para mostrar a evolução da psiquiatria em Barbacena e em todo o Brasil. 

Uma comissão com representantes do CHPB, da sociedade civil e da Prefeitura de Barbacena foi formada. Os membros têm participado de pesquisas históricas para o desenvolvimento do projeto. O grupo, presidido por Lucimar Pereira, conta também com a colaboração da analista de memória institucional do Sesc, Vânia Matos de Souza, e do artista gráfico e vice-presidente da Agência de Desenvolvimento Integrado de Barbacena, Edson Brandão, que será responsável pelo novo projeto cenográfico, o próximo passo a ser dado já no governo de Fernando Pimentel. Segundo Brandão, a recuperação física do prédio era indispensável para a instalação do novo projeto: “Em 2016, o museu completará 20 anos e a instituição já estará preparada para a data”, garantiu.

“A revitalização do museu propicia a oportunidade de contar a história da evolução do tratamento dos portadores de sofrimento mental, além de pontuar o modelo assistencial vigente”, salientou a diretora do CHPB, Mônica Chartuni. O museu recebe, em média, 1.100 visitantes por mês. Desde sua criação até os dias atuais, mais de 130 mil visitantes passaram pelo local. O acervo é constituído de textos, fotografias, documentos, objetos, equipamentos e instrumentação cirúrgica, que relatam a história do tratamento cruel que era dado aos pacientes.

 

 

 

Revisitando o passado

A Ecológico foi ao Hospital Colônia de Barbacena e mostra, em primeira mão,
o novo Museu da Loucura em implantação pelo governo de Minas

 

Déa Januzzi

redacao@revistaecologico.com.br

 

Companheiros de geração e de redação no jornal Estado de Minas dos anos 1970, Hiram Firmino e eu éramos jovens, rebeldes, cabelos ao vento, muitos sonhos na bagagem. Fazíamos parte de um bando de “loucos” hippies, de bichos grilos que amavam a natureza, os banhos de cachoeira, o cheiro de mato, os acampamentos selvagens – e queríamos mudar o mundo. Nenhuma profissão melhor do que o jornalismo para cumprir essa missão durante os anos de chumbo, que nos amordaçava, mas que nos permitia lutar contra um inimigo comum – a ditadura militar. A gente acreditava na utopia, nossos ídolos faziam músicas de protesto, tomavam a Sierra Maestra. E cada um de nós, jovens repórteres, também recitava o mantra “endurecer sem perder a ternura” de Che Guevara.

Lírico, poeta, rebelde e também com faro de repórter investigativo, de repente, caiu nas mãos de Hiram a denúncia sobre o estado de calamidade dos hospícios de Belo Horizonte e Barbacena. Mesmo em tempos de ditadura, de censura à imprensa e de um silêncio estridente, o então secretário estadual de Saúde, Eduardo Levindo Coelho, abriu as portas de todos os hospícios públicos para o repórter, que promoveu uma verdadeira revolução no tratamento da loucura. 

Hiram não só revelou o que se passava atrás dos muros do então Hospital Colônia de Barbacena, como fez com que a sociedade ouvisse os gritos de dor dos internos naquela espécie de campo de concentração da psiquiatria brasileira. Conseguiu que as denúncias de maus-tratos, venda de cadáveres dos pacientes mortos para as faculdades de medicina, os tratamentos brutais, com choques elétricos, algemas e lobotomia fossem vistos e sentidos por todos.

A sua série de reportagens “Nos Porões da Loucura”, publicada no jornal Estado de Minas e vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo de 1980, foi responsável pelo movimento que libertou os loucos encarcerados, dando início à luta antimanicomial em Minas e no Brasil, a exemplo do que o psiquiatra Franco Basaglia já tinha feito na Itália:

“Com a maestria de um cirurgião, o repórter dissecou a opressão, a miséria e a tortura que os hospícios escondem atrás de seus muros. O internamento não tem a intenção de recuperar, mas de esconder a degradação a que o louco é submetido nos quase 150 anos da instituição psiquiátrica”, disse, na época, o presidente da Associação Mineira de Saúde Mental, Antonio Soares Simone.

 

Causa Mortis

Trinta e cinco anos se passaram desde a revolução da saúde mental em Minas. Somente em dezembro do ano passado eu pisei, pela primeira vez, no antigo Hospital Colônia de Barbacena para fazer a matéria de reabertura do novo museu prometido pela Fhemig. Sim, hoje, a história da loucura e das 60 mil pessoas que morreram ali voltou a estar registrada, fotografada, exposta em jornais e nos equipamentos de opressão da época.  E ficará para sempre no torreão do antigo prédio da administração do Hospital Colônia, uma construção de 1920, na também chamada “Cidade das Rosas”.

Pela primeira vez na história da medicina brasileira, os aparelhos de eletrochoque se transformam em peças de museu e são expostos ao público, sem restrições, graças ao projeto de revitalização. Dá calafrios ver tudo isso, apesar da beleza do prédio e do novo projeto visual de Edson Brandão.

Mais que calafrios, entrar no Museu da Loucura é levar um choque. “Lembrar, se for preciso. Esquecer, jamais!”, o  antigo refrão sobre a ditadura militar se encaixou como luvas na visita ao Museu da Loucura. Tendo como guias Mônica Chartuni e Lucimar Pereira, fui visitar os dois andares e as 10 salas restauradas da nova instituição. Antes de entrar, noto alguns ex-internos passeando pelos jardins. São 150 ex-pacientes do antigo hospício, hoje transformado em hospital geral. Eles moram em residências terapêuticas e ainda perambulam, mas sorriem para os visitantes e pedem uma moedinha, sinal de que querem puxar conversa.   

De cara, logo na entrada, um banner, que é como um soco no estômago, diz como e porquê se morria tanto ali: “Causa Mortis: diarréia, astenia geral, sífilis cerebral, anemia perniciosa e aguda, excitação maníaca, cachexia simples pós diarréia verminosa por avitominose, ancilostomíase, frio, tristeza, abandono, fome, omissão, ignorância, repressão, falta de verbas, exclusão, preconceito, miséria. Ninguém morre de loucura”. 

Paro, leio, releio e anoto. Mas Mônica e Lucimar me incentivam a prosseguir, enquanto dizem: “O tratamento para pacientes com transtornos mentais evoluiu muito. Antes, o modelo era de exclusão, hoje a grande diferença é a inclusão social. Com a regulamentação da legislação a partir de 2001, surgiu um novo e mais humano modelo de tratamento psiquiátrico. Criaram-se serviços substitutivos aos internamentos asilares, como os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), que são portas de entrada. Os pacientes são conduzidos de acordo com as suas necessidades, aos ambulatórios ou aos Centros de Convivência (Cersans), depois de atendidos por uma equipe interdisciplinar composta por psiquiatras, neurologistas, psicólogos, assistentes sociais. Para fazer uma internação hoje, o psiquiatra não pode mais decidir sozinho. A equipe de saúde mental atualmente é uma clínica ampliada, onde há oportunidade para vários saberes.

O novo museu vai contar a história passada, mas não quer ficar presa a ela. “Pretendemos avançar, com esse novo olhar para a saúde mental e a evolução dos medicamentos. O prédio está pronto para receber o mundo tecnológico, com a participação interativa do público, que pode ter informações até pelo celular. Não vamos apagar o passado, quando os hospícios tinham portas abertas somente para entrar, mas estavam trancadas na saída.” 

 

 

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Comentários

Eduardo

Grande dinheiro que deveria amenizar familias de pacientes que passaram por lá,sendo gasto com paredes; Fazendo o ser humano de lixo novamente. Aquele lugar deveria ser implodido.por se tratar de algo injusto que nunca niguem vai pagar pelos crimes que cometeram !


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