Segunda, 04 de janeiro de 2016

As lições de Bento

“O risco de rompimento de uma barragem deve ser medido muito menos pela probabilidade, mesmo remota, dele acontecer. Mas, sim, muito mais, pela dimensão das suas consequências.” Peter Bernstein

Hiram Firmino - hiram@souecologico.com



font_add font_delete printer
Impotência humana: o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, testemunham a chegada da lama ao mar - Crédito: Paulo Araújo/MMA

Impotência humana: o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, testemunham a chegada da lama ao mar - Crédito: Paulo Araújo/MMA

Quem já não tentou barrar a água, quando criança, que atire a primeira pedra. Era assim que muitos de nós fazíamos nas ruas das pequenas cidades ou na roça mesmo, onde morávamos em contato mútuo e respeitoso com a natureza. Bastava passar a chuva, que a gente saía para brincar na rua de ser mais forte que as enxurradas, tentando inutilmente represá-las. Ou seja, fazendo pequenas barragens de terra, pedra ou lama, cada uma maior que a outra, só para esperar a... natureza nos vencer. E ela vencia sempre a nossa engenharia mirim. Era só uma questão de tempo.

Quem de nós, ainda criança, na praia, já não tentou conter o mar, erguendo castelos de areia na maré baixa só para ver a maré alta voltar e destruir tudo? Era assim que, sem lei nem Ministério Público, muito menos governo e diploma de engenheiro, a gente sempre lidou com a natureza: respeitando-a, cientes naturalmente que ela é, sempre foi e sempre será maior do que nós.

Mas a gente cresce, fica presunçoso e se esquece disso. Vira engenheiro, vai trabalhar em mineração, construir hidrelétricas, atender o apetite insaciável dos acionistas e aviltar, assim, o primeiro mandamento da natureza: não barrar a água nem seu ciclo vital, tal como aprendemos na escola. A água se forma pela sua própria evaporação que vira nuvem, depois vira chuva, que vira rio, que vira mar. Para repetir tudo de novo, de forma perfeita e autossustentável, desde a aurora da criação.

Aí vieram a Revolução Industrial, o mercado de consumo, nossos pecados e as presunções aumentaram. Nem mais rios emblemáticos como o Jordão, onde João Batista batizou Jesus, nem o Doce, durante o período seco, salvo numa avalanche de lama vinda de Mariana (MG), chegam mais ao mar. Eles secam antes, de tanto verem suas águas sendo retiradas e exploradas de maneira insustentável. Ou seja, estamos assistindo à interrupção de um ciclo natural que sempre manteve a vida do planeta e de todos nós.

O que fazer, enfim, diante do modelo tradicional de barramento d’água que se repete sempre, cada vez mais trágico e previsível, particularmente em Minas Gerais, o estado mais mineral do país?

Primeiro, nos filiarmos ao pensamento de Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, cujo programa “Cultivando Água Boa”, de recuperação de nascentes e matas ciliares em 29 municípios do oeste do Paraná foi recém-eleito pela ONU como o melhor modelo de gestão hídrica do planeta. Mesmo à frente de uma das maiores represas em volume e extensão de água do mundo, ele garante que até o modelo hidrelétrico chamado de “energia limpa” está com os dias contatos, por ser antiecológico. Por interromper o ciclo natural dos rios, a subida e a reprodução dos peixes, o ir e vir das populações indígenas e ribeirinhas: “Itaipu, um dia, vai virar peça de museu. A energia do futuro, naturalmente sustentável, será a solar” – vaticina Samek.

E, segundo, repensarmos um urgente, novo e transitório modelo para as barragens de mineração, tal como a Revista Ecológico discute nesta edição. Fazer da tragédia de Mariana um divisor de águas, de soluções e propostas parceiras. Jogar boias, em vez de pedras.

Afinal, quando passar o frenesi, a dor e o horror da tragédia, quando todos os políticos e as multas forem embora, desviadas para os cofres públicos dos governos federal e estadual – e não para Mariana – restarão à frente de tudo isso somente eles: a mineração e seus minerados, no mutirão da reconstrução de tudo.

Um leitor nosso nos desafiou num e-mail: “Quero ver agora a Ecológico se posicionar, uma vez que ela recebe anúncio da Samarco”. Meus dedos até coçaram para responder. Mas estou velho e desplugado demais pra virar viral. Preferi lembrar do Sebastião Salgado, cujo Instituto Terra recebeu patrocínio da Vale e, assim, conseguiu fazer a Mata Atlântica ressurgir na terra devastada de seus pais, em Aimorés (MG), hoje um modelo para o país. O mesmo fotógrafo que, impiedosamente provocado pelas redes sociais a se posicionar sobre a tragédia do Rio Doce de sua infância, e xingar a Vale, preferiu documentar, protestar, chorar e velar os peixes mortos onde ele nadava quando criança. E ir direto à presidente Dilma Rousseff, aos governadores Fernando Pimentel e Paulo Hartung, apresentar um plano maior de recuperação possível de todas as 377 mil nascentes da Bacia do Rio Doce, tal como a Ecológico reproduz nesta edição: “As mineradoras têm condições de arcar com isso. A BHP é a maior do mundo. A Vale é a segunda. Elas têm que proteger suas imagens, têm compromisso com a sustentabilidade” – declarou inclusivo, e não exclusivo, o maior fotógrafo de natureza do mundo.

Bem ao contrário da prefeita de Governador Valadares, Elisa Maria, que levou a população para ver a lama passar. Mas que atenção é dada ao esgoto produzido por 276 mil habitantes e é despejado in natura, todos os dias, no Rio Doce? A mesma prefeitura que integra o antiecológico grupo dos municípios mais poluidores do país por falta de saneamento básico, segundo levantamento de 2014 do Instituto Trata Brasil.

Cadê a coerência, que cinismo é esse, como também questiona Salgado, se todos refutamos a mineração, mas jamais refutamos os produtos advindos da atividade, como os carros e celulares, estes com mais de 41 elementos minerais?

Na questão ambiental, queridos (as) leitores (as), não existe uma dialética simplista entre o que é certo ou errado, mas o desafio de fazer o bem de maneira democrática e sustentável. Não há como apontar o dedo, mas oferecer a mão. Não existem mocinhos nem bandidos. Somos todos bandidos e mocinhos ao mesmo tempo. A Nave-Mãe é uma só. Estamos todos em um único barco. Ou nos salvamos todos ou seremos apenas mais uma das espécies exterminadas, junto à extinção generalizada, e para sempre, que continuamos causando. Essa é a democracia do pensamento ecológico. Somos todos e, não de maneira isenta, meros algozes ou aprendizes da natureza.

É o que a tragédia de Mariana nos ensina, nesse momento de luto, tal como aprendíamos ao tentar represar as enxurradas da nossa infância. Tal como a mensagem da última campanha da ONG Conservação Internacional, que iríamos reproduzir na entrega solidariamente adiada do VI Prêmio Hugo Werneck de Sustentabilidade: “A Natureza não precisa de nós. Nós é que precisamos da Natureza”.

Tal como o velho e talvez não ouvido recado de Peter Bernstein, autor do livro “Desafio aos Deuses: a Fascinante História do Risco”, que ficou, enfim, para toda a mineração e seus acionistas: “O risco de rompimento de uma barragem deve ser medido muito menos pela probabilidade, mesmo remota, dele acontecer. Mas, sim, muito mais, pela dimensão das suas consequências”.

Que Mariana, as 254 famílias fora de casa, as 15 pessoas mortas, e as quatro ainda não encontradas, em meio à enxurrada de 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, nos perdoem.

Boa e reflexiva leitura!

Até a lua cheia de janeiro.

 

Compartilhe

Comentários

Paulo Roberto Fornari

Parabéns pela matéria. Cresci barrageiro, desnudamos as bordas de reservatórios, sem nos preocupar com reflorestamentos, permitimos os solapamentos e assoreamentos sem medir as consequências futuras. Hoje pagamos um preço muito alto pela aludida evolução. Acho que não somos tão inteligentes como pensamos.


Escreva um novo comentário
Outras matérias desta edição