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Segunda, 04 de janeiro de 2016

"Um dia para não esquecer"

O que Minas Gerais e o Brasil podem aprender com o maior desastre ambiental e social da mineração? É o que a Ecológico busca responder nesta edição ao ouvir especialistas e moradores dos distritos devastados pela lama

redacao@revistaecologico.com.br



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"Queremos que Bento Rodrigues se torne um memorial em que as pessoas possam fazer suas orações e entender que precisamos nos relacionar melhor com o meio ambiente" - Crédito: Christophe Simon AFP

O último dia 05 de novembro, lua minguante, ficará marcado na história do Brasil assim como o 11 de setembro de 2001 ficou registrado na memória de muitos. A comparação pode até parecer absurda, mas há um fator que as une: as cenas impactantes, que não serão esquecidas.

No caso do Brasil, o horror ambiental e social causado pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, aterrou mais que sonhos e a vida tranquila em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, dois dos distritos mais atingidos de Mariana. Até o fechamento desta edição da Ecológico, entre moradores e trabalhadores ligados à empresa, eram 15 as mortes confirmadas. E ainda havia quatro desaparecidos. Sem contar as centenas de moradores desabrigados.

É difícil afirmar qual velocidade os 55 milhões de metros cúbicos de lama atingiram durante o rompimento. O que se pode afirmar ao certo é que as alegrias vividas em família, os sorrisos nas conversas de quintal, foram soterrados por ela. E, também, o álbum de retratos, o animal de estimação. O pai de família ou o filho amado que não virá mais para o jantar. O Rio Doce e parte do Oceano Atlântico que agora têm gosto de lama.

Depois de o Brasil e o mundo terem presenciado tamanha tragédia, a pergunta é: existem alternativas sustentáveis para evitar que as ameaçadoras barragens de rejeitos soterrem novas histórias?

No momento do acidente, o presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, e outros diretores estavam reunidos na sede mineira da empresa, em BH. Ele discutia, com os demais, questões de segurança nas atividades da mineradora, quando foi interrompido pela notícia que ninguém, muito menos ele, acreditou estar acontecendo a pouco mais de 100 km dali, em Bento Rodrigues.

O povoado, com mais de 300 anos, 612 habitantes e apenas 251 casas simples, foi varrido do mapa em questão de minutos. Foi a primeira vítima do rompimento, sem sirene nem aviso prévio, até hoje sem explicação, da Barragem de Fundão, construída há menos de 10 anos.

Algo equivalente a 20 mil piscinas olímpicas repletas de lama desceu vale abaixo, sob o medo que não se comprovou apenas imaginário, mas duramente real a uma população simples e bucólica. Devastando, igualmente, outros povoados, histórias de vida, matas ciliares, a fauna e flora resilientes do Rio Doce. Impactando cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo até o seu encontro trágico com o mar, em Regência, município de Linhares, no litoral capixaba.

Os números falam por si. É a maior tragédia socioambiental já ocorrida no país, que antes pouco se lixava para o meio ambiente, como comprova a degradação dos seus Tietês medonhos e São Francisco secos, que morrem de sede, devastação, assoreamento e poluição.

No Rio Doce, as fotos impressionam e explicam a tamanha mobilização da opinião pública internacional. Até o fechamento desta edição, além dos mortos e desaparecidos, havia 300 mil habitantes sem água limpa para beber, 11 toneladas de peixes mortos, 120 nascentes e mangues soterrados pela lama numa bacia hidrográfica que abastece 3,5 milhões de pessoas e já sofria com a degradação ambiental fruto de incoerências históricas.

“Contra esses fatos, não há defesa. A morte de qualquer ser humano fala mais alto. Infelizmente, fomos todos derrotados!” – declarou o ex-ministro e ex-secretário de Meio Ambiente de Minas, José Carlos Carvalho. Neste “todos”, ele se refere não apenas à Samarco, até então considerada mineradora referência em sustentabilidade, mas também ao protagonismo e à vanguarda em política ambiental que Minas já ostentou no cenário nacional, a ponto de servir de modelo para a criação do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama).

Ele se referiu às próprias ONGs ambientalistas históricas que - ao largo do dilema “contra a mineração”, como ela ainda acontece, versus “a favor dos seus produtos”, como carro e geladeira, dos quais ninguém abre mão - sempre buscaram, junto aos órgãos públicos e ao próprio setor produtivo, um modelo compartilhado de mineração sustentável ainda não alcançado no Estado mais mineral do país.

Se fomos todos derrotados pela tragédia de Mariana, segundo Carvalho, quem sabe a partir das lições pós-Bento Rodrigues, não podemos passar a pensar diferente? Por que não fazermos dessa tragédia, que está longe da sua recuperação, um novo “divisor de águas” na história da mineração, do meio ambiente e do desenvolvimento verdadeiramente sustentável, como defendem os especialistas ouvidos pela Revista Ecológico?

Fiscal da sociedade, a imprensa vem cumprindo o seu papel, mostrando como tudo aconteceu e suas prováveis consequências. Mas o porquê desta tragédia, e o que podemos reconstruir, evoluir a partir dela, é o que a Ecológico irá discutir em suas edições, doravante, ouvindo todos os lados da questão. Em respeito às vidas e à natureza que se foram. E que os responsáveis não fiquem impunes.

Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

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