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Segunda, 04 de janeiro de 2016

"Desprezo à democracia"

"O governo estadual perdeu a oportunidade de acabar com o desenvolvimento e a mineração a qualquer custo"

Maria Dalce Ricas (*)



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Amargo retorno: os moradores conferem o que sobrou do bucólico distrito arrasado pela lama - Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

Amargo retorno: os moradores conferem o que sobrou do bucólico distrito arrasado pela lama - Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil

A trágica ruptura da barragem da Samarco é inaceitável, seja por negligência ou por fatores externos não previstos e não controláveis. Se por negligência, a tragédia é ainda maior, pois poderia ter sido evitada. Se por fatores não controláveis, penso que o acúmulo de rejeitos de minério em barragens localizadas em áreas com topografia desfavorável tem de ser banido de vez do processo de extração mineral mundial.

Pouco adiantaria plano de contingência para o meio ambiente natural, pois conter toneladas de lama morro abaixo é impossível.  Rios, florestas, campos e animais silvestres que estão no caminho de qualquer barragem têm destino de morte traçado em caso de ruptura. E obviamente não podemos aceitar isso.  Já bastam o desmatamento, incêndios florestais e o tráfico que empobrecem nossa biodiversidade ano a ano, esgotos, poluição industrial, despejo de lixo pela população e entupimento dos leitos dos rios por sedimentos carreados da desertificação do solo por seu mau uso urbano e rural, como no caso da bacia do Rio Doce.

Não há como extrair e processar minério de ferro sem produzir rejeitos e não há como viver sem os produtos derivados da atividade, que estão na base da civilização humana. Então é preciso buscar alternativas seguras para sua destinação, tarefa urgente que compete em primeiro lugar às empresas que devem desenvolver suas atividades com segurança máxima; e ao poder público, a quem cabe criar políticas de estímulo à pesquisa e implantação de atividades que utilizem os rejeitos como matéria-prima.  

À sociedade cabe deixar claro ao poder público, responsável por zelar pelo cumprimento das leis, que isso não pode mais acontecer. O governador Fernando Pimentel perdeu a oportunidade de, diante desta tragédia, assumir o compromisso de que Minas Gerais não continuará na “trilha do desenvolvimento e da mineração a qualquer custo”. Ele preferiu adotar a simplória fala de que o Projeto de Lei 2.946 – que fez aprovar a “toque de caixa” na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), enfraquecendo a participação da sociedade e concentrando poder em suas mãos–, irá impedir que novas barragens se rompam. É uma lamentável declaração de desprezo à democracia e ao conhecimento técnico que devem ser as bases primordiais da concessão de licenças ambientais.

(*) Superintendente-executiva da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda)

 


Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

 

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