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Segunda, 04 de janeiro de 2016

"Obrigado, Dom Luciano"

“Obrigado Deus e Dom Luciano, o Santo Arcebispo de Mariana, por não ter acontecido o vômito de lama e morte às 4h da madrugada, quando o galo canta.”

Cástor Cartelle (*)



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Crédito: Gualter Naves

Crédito: Gualter Naves

Vi lá do alto. À medida que o helicóptero sobrevoava, mais minha mente entrava em descompasso com a realidade abaixo. Um mar de lama suja esmagando o verde e as casas, e tingindo de morte rios que viraram cemitérios. Quando mal adivinhei o que fora a Igrejinha de Bento Rodrigues, rezei... e agradeci a Deus por ter acontecido a explosão de horror às 16h e não às 4h da madrugada. De positivo e esperança, a solidariedade anônima de tantos. E as crianças da escola salvas, in extremis, por milagre!

Dizem que temos mais de 700 barragens semelhantes plantadas pelo Estado afora. Mais de 700 espadas de Dâmocles? Nossa engenharia é de alto nível. O que acontece? Agora teremos a corrida atrás dos culpados. Malhação de Judas. Como tantas outras vezes... e catástrofes. Espadas por tudo quanto é canto das Gerais pendendo sobre a cabeça. Até os próximos incêndios, caminhões explodindo, ou derramamentos de óleo, ou de cloro escapulindo rumo ao céu azul.

Questão de mentalidade, de vida. A maior riqueza do Brasil são os brasileiros. A Deus, graças por uma diversidade fantasticamente rica. Será? Com mais de 50 mil assassinatos por ano? E outro tanto de mortes no trânsito? Nós, no jogo da morte, somos campeões. A infeliz Síria perde nesse jogo trágico. Aqui, condenam uns caras a 100 anos de prisão por assassinato e eles continuam soltos, bebendo sua cachaça em Unaí. Atropelam e matam estando bêbados e com quatro cestas básicas soluciona-se a questão. E cidades à mingua com sistemas preventivos de segurança ineficazes. E ainda, de lambuja, pode vir uma certeira bala perdida. Canso de cruzar Belo Horizonte de ponta a ponta de dia e de noite (nessas horas - medo!), raramente vejo um policial! Conclusão: a maior riqueza do Brasil são os brasileiros? Mesmo?

O Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) – leia-se Semad, Feam, IEF e Igam) está na UTI: 0,5% do orçamento público. E querem esvaziá-lo ainda mais. Prever como? Fiscalizar como? Normatizar como? A ocasião é propícia para aproveitar fatos e prever normas que tragam segurança e com fiscalização carrapato? Sim. Partindo de uma premissa que desde o início deveria estar presente: nenhuma barragem de contenção pode ser construída a montante de qualquer núcleo humano.

Obrigado Deus e Dom Luciano, o Santo Arcebispo de Mariana, por não ter acontecido o vômito de lama e morte às 4h da madrugada, quando o galo canta. Aliás, agora, nenhum canta mais em Bento Rodrigues acordando o Sol, que agradece por não ver o que aconteceu.

Afinal, nesta história, onde entra o Copam? E, ainda, a Feam, o Ibama e o DNPM? Eles não são responsáveis por omissão?

(*) Coordenador do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas e membro do Conselho Curador da Fundação Biodiversitas.

 


Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

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