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Segunda, 04 de janeiro de 2016

"Ecologizemos a economia"

“A natureza já está construindo um novo Rio Doce. Ele sobreviverá, pois faz parte da Terra. O que não atenua o tamanho da tragédia.”

Apolo Heringer (*)



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Crédito: Fred Loureiro/Secom ES

Crédito: Fred Loureiro/Secom ES

Eu nunca considerei a mineração referência em sustentabilidade e nem penso que Minas já foi vanguarda em política ambiental. Sempre me manifestei claramente, e sem sectarismo, tentando alertar a sociedade e as autoridades.

Matando gente sim, e ecossistemas, principalmente, que são estruturas organizacionais da natureza e que respondem pela vida de milhares de espécies vegetais e animais, macro e microbianas.

Quanto à proporção do desastre, não acho que vai acabar com o Rio Doce na forma linear de pensar a evolução dos movimentos da natureza, ou seja, no que denominamos tempo linear. Pensando ciclicamente o tempo, a natureza já está construindo um novo Rio Doce. Ele sobreviverá, pois faz parte da Terra. O que não atenua o tamanho da tragédia.

O acontecido em Mariana foi possível pela lógica destrutiva do sistema econômico, focado prioritariamente na produção de lucros com a maior velocidade possível, visando ao mercado internacional. Nunca esses negócios priorizaram a felicidade e a paz em nossa sociedade; usam e abusam do marketing da sustentabilidade e do compromisso social das empresas.

As empresas mineradoras e as demais - pois há uma rede do capital financeiro-empresarial unindo-as como pessoas físicas e jurídicas, em todos os ramos de negócios-, gozam da proteção do Estado, cujos governantes são patrocinados por esses mesmos negócios em suas carreiras políticas. Os conselhos chamados participativos são uma farsa visando dar maquiagem ao sistema e legitimar decisões já tomadas autoritariamente.

Há uma lição que devemos tirar do episódio que é fundamental, imperativa: temos de ecologizar a economia. Os empreendimentos só podem ser licenciados se subordinados à lógica dos ecossistemas. E por referenciamento geoespacial, por microbacias hidrográficas. Precisamos conhecer os impactos nas águas em cada território e ter planos emergenciais. Não podemos colocar em risco ecossistemas do porte de um Rio Doce. A água tem que ser assumida como eixo metodológico, territorial da gestão, do biomonitoramento e da mobilização social. Os rios são informações que fluem e os espelhos d’água mostram a cara da nossa civilização.

Temos que banir as monoculturas e o desmatamento. Banir os minerodutos e as barragens de rejeitos. Não podemos admitir lançamento de agrotóxicos por aviões e ter controle sobre sua comercialização. Nossa matriz energética tem que ser renovável e poupar nossos rios de hidrelétricas. O Brasil precisa ter um projeto de nação, e as políticas financeira e econômica serem meio para esse fim. Precisamos conquistar uma segunda geração de independência e reciclar a nossa mentalidade.

(*) Idealizador e co-fundador do Projeto Manuelzão, da UFMG.

 


Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

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Comentários

Carla Marin

Muito boa matéria!. Mas na verdade... existem muitos dispositivos legais e metodológicos...o que ocorre é a falta de compromisso por parte das pessoas (profissionais e políticos) que em prol de interesses escusos facilitam ou mesmo negligenciam circunstâncias fadadas ao desastre... um exemplo prático disso e do que jamais deveria ter acontecido é a transposição do Rio São Francisco... já dando sinais evidentes de morte!. Outra situação que no Brasil não deveríamos ter são as hidrelétricas...que de energia limpa não tem nada!. Além de destruir imensos espaços com fauna e flora de grande importância e idade...acabam muitas vezes forçando êxodo de populações inteiras... indígenas ou não... que acabam no funil da miséria... como pedintes...aumentando os bolsos de desemprego...aumentando de certa forma a criminalidade e com várias outras consequências diretas à sociedade pueril!!!


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