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Segunda, 04 de janeiro de 2016

“Há solução para o Rio Doce”

“As mineradoras têm condições de arcar e vão arcar com a recuperação ambiental do Rio Doce. A BHP é a maior do mundo. A Vale é a segunda. Elas têm que proteger suas imagens, têm compromisso com sustentabilidade.”

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Sebastião Salgado registrando a tragédia no seu rio natal: comoção e proatividade agora em busca da recuperação de toda a bacia - Arte: Sanakan

Sebastião Salgado registrando a tragédia no seu rio natal: comoção e proatividade agora em busca da recuperação de toda a bacia - Arte: Sanakan

Fotógrafo internacionalmente reconhecido por seu trabalho em diversas regiões do mundo, o mineiro Sebastião Salgado está com as atenções voltadas para a sua cidade natal, Aimorés (MG), que assim como várias outras ao longo do Rio Doce sofrem com os danos causados pelo rompimento da barragem da Samarco, em Bento Rodrigues. Para Salgado, é essencial pensar, com planejamento, uma solução adequada para recuperar o rio. E ela existe. Confira, a seguir, depoimentos selecionados pela Ecológico que o fotógrafo deu à imprensa sobre a tragédia:

Extermínio

“A tragédia de Mariana é a maior tragédia ecológica que já houve no Brasil. É o extermínio ambiental de um rio nacional com 850 quilômetros de extensão, o maior curso d’água que nasce e morre no centro-sul do país, com uma população de mais de três milhões de pessoas que dependem dele. O rio morreu, acabou. Passou a ser um caudal estéril.”

Constatação

“A população está simplesmente constatando o desastre. As pessoas vão para a beira do rio e tentam compreender o que está acontecendo. E a compreensão é imediata. Elas veem milhares de peixes, de tartarugas e de camarõezinhos mortos. Na minha cidade, Aimorés (MG), tínhamos a maior produção de pitu, a lagosta de água doce. Hoje, acabou!”

Tristeza

“Minha voz é de extrema tristeza sim, porque o Rio Doce sempre foi a representação da fonte da vida na nossa região. Foi nesse rio que eu aprendi a nadar, que tive o primeiro contato com um grande volume de água, que aprendi a ver toda a minha fotografia. Tudo o que levei como luz para captar as minhas imagens no resto do mundo eu adquiri ali. E hoje estou vendo que ele está exterminado. Sabe o que é sentir isso? A população sente a mesma coisa. Estamos todos vivendo um drama sem limite.”

Reencontro com o rio

“Foi dramático ver também atingido o território dos índios Krenak, um pouco acima da nossa cidade. Um choque brutal. A água que corria não era água, era um gel. Um gel sem oxigênio. Morto. Por isso, estamos clamando para que um fundo financeiro seja criado e gerido com responsabilidade. Que não sirva de base para politicagem. E que a população que perdeu o rio, a qualidade de vida, seu manancial e sua pesca, seja o destino de toda a energia necessária para a recuperação.”

Ressurreição

“O Instituto Terra é a grande esperança em relação ao rio. Somos uma organização ambiental dedicada exclusivamente à sua bacia hidrográfica. Nossa bacia é imensa, corresponde ao tamanho de Portugal, são quase 90 mil quilômetros quadrados. Temos 377 mil nascentes que compõem os sistemas de águas que formam o Doce. Nossa instituição já tinha um projeto de recuperação de nascentes. Há mais de cinco anos estamos preparando, testando esse projeto. E já o mostrei à presidente Dilma e aos governadores de Minas e do Espírito Santo. O piloto está pronto. É o único programa do tipo já estruturado e, a partir dele, podemos agregar outros projetos contíguos.”

Saneamento

“Primeiro temos que aumentar o volume de água do Doce. Sua bacia já estava morrendo numa velocidade incrível pelo desmatamento que é o maior de toda a região da Mata Atlântica. Temos uma cobertura de menos de 0,5% de floresta em todo o vale. Isso nos obriga a refazermos também as matas ciliares, criar uma espécie de filtro vegetal na beira dos pequenos e médios cursos d’água que correm em direção à calha principal. Teremos de reconstituir também as áreas de Reserva Legal. O mais imediato, porém, é a criação de um sistema de tratamento de esgotos em todas as cidades do vale. Pequenas, médias e grandes, incluindo todas as aglomerações e distritos, que são mais de dois mil.”

 

Saúde pública

“O grande problema é o seguinte. Até então, o Rio Doce recebia todos os rejeitos vindos dos esgotos urbanos. Mas, como tinha vida biológica, bem ou mal, o rio “tratava” e convivia com esses rejeitos, havia um certo equilíbrio. Hoje, com a lama, esse caudal ficou completamente estéril.  Temos de criar serviços de tratamento de esgotos para proteger o rio. Se não, vai ficar tudo muito difícil para as populações, teremos vários problemas de saúde pública. A água para a irrigação das plantas estará contaminada, tornando impossível também a sobrevivência do gado e de outros animais que dependem dela.”

Megafundo (1)

“Pela lei brasileira, a empresa que provoca o desastre é responsável por ele. A Vale – que junto com a BHP Billiton é sócia da Samarco –, é a maior empregadora do Vale do Rio Doce e sempre teve o seu nome associado ao curso d’água. O seu presidente, Murilo Ferreira, já declarou que participará de um megafundo para revitalizá-lo. Como será um projeto de recuperação de longuíssimo prazo, precisamos garantir que haja dinheiro disponível ao longo de toda a sua execução. Precisaremos de um fundo gigante, para investir e ir recuperando continuamente toda a bacia. Não temos como investir tudo imediatamente, sem projetos. Teremos que trabalhar no longo prazo. Mas com a garantia de que daqui a 20 anos continuaremos a ter recursos suficientes para enfrentar o problema. As matas ciliares e as nascentes não serão refeitas em menos de 20, 30 anos.”

Megafundo (2)

“A Vale e a BHP têm grande capacidade para constituir esse fundo. Lembram da catástrofe que houve no Golfo do México, em 2010? A quantidade de petróleo que vazou no mar não era maior que o equivalente a um estádio de futebol. Lá, levou-se cerca de dois anos para restabelecer o equilíbrio ecológico da região, hoje ele é completamente estável. Aqui o processo será muito mais longo, porque o nosso desastre é muito maior. No México, na época, foi definido um fundo de R$ 80 bilhões. O nosso precisa ser consequente, proporcional. Não sei de quanto seria, mas teremos que trabalhar nisso.”

Compromisso

“As mineradoras têm condições de arcar e vão arcar com a recuperação ambiental do Rio Doce. A BHP é a maior do mundo. A Vale é a segunda. Elas têm que proteger suas imagens, têm compromisso com sustentabilidade, se esforçam para serem limpas, apesar de serem mineradoras. O problema maior não é esse.”

Desconfiança

“O problema é sabermos se o fundo vai ser aplicado em seu destino: o Rio Doce. O dinheiro não pode se transformar em pequena praça pública para campanha de prefeito, não pode se converter em camisetas de grupamentos políticos, e sim em natureza refeita. Temos que saber como esse fundo vai ser gerido. Como impedir que o dinheiro vá parar no redemoinho do sistema político que, como a lama, tudo digere e nada recicla. Tenho medo disso.”

Contingenciamento

“Sei, por exemplo, que o Ministério Público negociou com a Samarco a liberação de parte de um  fundo de R$ 1 bilhão; esse tem que ser emergencial. Mas é preciso ter muita atenção com as multas. Se entrarem nos cofres públicos, elas serão destinadas a pagar dívidas do estado e usadas fora da Bacia, e não para o que é preciso.”

Explicação

“Não tenho como explicar essa tragédia. Não cabe a mim. Há mais de 700 barragens como esta em Minas Gerais. Um acidente pode acontecer. E outros podem vir. Você tem um carro? Tenho certeza quase absoluta de que ele saiu de uma dessas minas. Todas elas são feitas para garantir o conforto no qual optamos por viver. As empresas fazem parte de tudo isso. A sociedade de consumo em que vivemos faz com que tenhamos mineração, exploração de petróleo. As pessoas gritam porque polui, mas têm seus carros. Quem polui mesmo somos todos nós, e o nosso modo de vida. É este modelo que temos de questionar.”

Expulsão

“Nós nos distanciamos da natureza e temos que reencontrá-la. Precisamos dessa aproximação, nem que seja espiritualmente. Do contrário, o planeta vai nos expulsar.”

Saiba mais

Rio Doce

Com extensão de 850 quilômetros, o Rio Doce nasce em Minas, nas serras da Mantiqueira e do Espinhaço, e deságua no Oceano Atlântico, na região do distrito de Regência (ES). É formado pelas sub-bacias dos rios Piranga, Piracicaba, Santo Antônio, Suaçuí Grande, Caratinga e Manhuaçu. Sua população, estimada em cerca de 3,5 milhões de habitantes, está distribuída em 228 municípios. Mais de 85% desses municípios têm até 20 mil habitantes, e 73% da população total concentram-se na área urbana. A atividade econômica na Bacia é diversificada. Na agropecuária, lavouras tradicionais, cultura de café, cana-de-açúcar, criação de gado de corte e leiteiro, suinocultura, entre outras; na agroindústria, sobretudo produção de açúcar e álcool. A região abriga o maior complexo siderúrgico da América Latina, ao qual estão associadas empresas de mineração e reflorestadoras. Com rica biodiversidade, a Bacia do Rio Doce tem 98% de sua área inserida no bioma de Mata Atlântica, um dos mais importantes e ameaçados do mundo. Os 2% restantes são de Cerrado.

Fonte: Instituto BioAtlântica (www.ibioagbdoce.org.br)

 

Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

 

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