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Segunda, 04 de janeiro de 2016

Quando o rejeito vira produto e solução

A luta de um ambientalista em busca de parceria com as mineradoras para elas recuperarem os rios que assoreiam. E lucrarem com isso

Bia Fonte Nova - redacao@revistaecologico.com.br



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Flávio Passos e o seu paviECO, na forma de peixe, no que restou do Córrego Alegria, cujo assoreamento por rejeito e lama causado pela mineração continua o mesmo, quase 40 anos depois de um acidente - Crédito: Divulgação

Flávio Passos e o seu paviECO, na forma de peixe, no que restou do Córrego Alegria, cujo assoreamento por rejeito e lama causado pela mineração continua o mesmo, quase 40 anos depois de um acidente - Crédito: Divulgação

“Meu sonho é ver o Córrego Alegria totalmente desassoreado e revitalizado. Limpo, com vários pocinhos e quedas d’água, como ele era antes de ser soterrado pela lama de minério que vazou, em 1969, com o rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Somil.”

A frase acima resume a esperança e o empenho do empresário e ambientalista Flávio Mourão Passos, de 63 anos, que luta há tempos para fazer deslanchar uma tecnologia e um produto desenvolvidos por ele, que podem ser uma saída para acabar – ou pelo menos – reduzir os riscos e o impacto ambiental causados pela deposição de rejeitos de minério de ferro em barragens.

Ainda sob o efeito da comoção causada pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, Passos afirma que Minas Gerais precisa reagir, unir forças e construir um novo paradigma na história da sua mineração.

E o melhor: já dispõe de tecnologias e de alternativas ecologicamente corretas, capazes de favorecem não só a recuperação da natureza devastada, mas sobretudo de transformar esse grave passivo em um valioso ativo ambiental, com ganhos econômicos e sociais.

Prova disso é o paviECO. Um piso ecológico desenvolvido por Passos, juntamente com seu filho Rafael, em sua fábrica-laboratório-escola Bacia Viva, que fica na região de Macacos, em Nova Lima (MG). Sua principal matéria-prima são os rejeitos sedimentados retirados de cursos d’água assoreados pela mineração, que substituem a areia e a brita.

Misturados ao cimento, eles ganham vida nova sob a forma de blocos retangulares ou em formato de peixe – inspirado no pacu, espécie encontrada na Bacia do Rio das Velhas, do qual o Córrego Alegria é afluente –, que são destinados à pavimentação de diferentes espaços, como ruas, avenidas, estradas, condomínios residenciais, estacionamentos de lojas e pátios de indústrias.

Adotado como piso ecológico pelo Verdemar - Imagem: Divulgação

Experiência em Bento

O produto está no mercado desde 2009, mas as primeiras amostras começaram a ser testadas em 2002. De lá para cá, foi instalado em vários locais. Entre eles, na Rua Monte Vista, no bairro Jardim Canadá, em Nova Lima; no Instituto Kairós, em Macacos; na loja ecológica do Supermercado Verdemar, também no Jardim Canadá, onde recobre estacionamentos e passeios externos; na usina de pelotização de Vargem Grande e na planta de concentração da Mina do Pico, ambas da Vale.

Resistente e sustentável, o paviECO – por uma dessas ironias do destino –, também foi instalado em caráter experimental no distrito de Bento Rodrigues, devastado pelo rompimento da barragem da Samarco.

“Em 2004, fizemos a nossa primeira produção industrial itinerante, em parceria com a empresa Interpavi. Pavimentamos 18 mil m2 de ruas nos distritos de Bento Rodrigues e Santa Rita, com rejeitos retirados do leito do Rio Itapecerica. Numa das imagens mostradas pela TV, durante a cobertura do acidente da Samarco, apesar da tristeza pela perda de vidas e destruição, pudemos constatar a eficiência do paviECO, que resistiu intacto à passagem da avalanche de lama por Bento”, relata Passos.

E, coincidentemente, implantado também em Bento Rodrigues, conforme registro televisivo, onde sobreviveu à própria catástrofe. A exemplo dos rejeitos no Rio Piracicaba, transformado em bloquetes - Imagens: Reprodução TV

Depois de percorrer um trecho às margens do Córrego Alegria e de beber da água pura que escorre da nascente, perto da fábrica da Bacia Viva e de sua casa, o ambientalista faz questão de apontar o minério ainda acumulado no chão. As marcas deixadas pelo acidente de 1969 também seguem vivas nos barrancos próximos, onde há traços da lama de minério que atingiu mais de 15 metros de altura.

Para Passos, Minas precisa recuperar o tempo perdido. E seguir – com urgência – o exemplo de países como a França, onde há pelo menos uma década os sedimentos da mineração são estudados, tratados, reciclados e usados para fins diversos, entre eles pavimentação, construção e ampliação de aterros para portos e fabricação de produtos voltados principalmente para a construção civil.

“A Bacia Viva tem diversos experimentos, soluções e aplicações prontos para saírem da prateleira e serem adotados nas mineradoras”, explica o empresário, vencedor do “Prêmio Sebrae-MG de Práticas Sustentáveis (2011)” e também do “5º Prêmio Furnas Ouro Azul (2006)”.

Cadeia de negócios

Devido ao megavolume de rejeitos gerado pela atividade de mineração, a solução para o seu reaproveitamento tem que ter escala e ser sustentável. O grande desafio portanto, reconhece Flávio Passos, é fazer com que a produção do paviECO e toda a filosofia que ele envolve – de desassoreamento e revitalização dos cursos d’água e ecossistemas afetados pelos rejeitos e de seu aproveitamento como matéria-prima de segunda geração – alcancem escala industrial. E possam, assim, serem replicadas em novos núcleos estado afora.

Aos poucos, o caminho para que isso aconteça está sendo “pavimentado”. “De 2004 a 2011, mesmo com pouco capital, conseguimos aprimorar o nosso processo. Produzimos e instalamos mais de 45 mil m² de paviECO, usando 7.900 m³ de rejeitos. A partir do prêmio e com o apoio do Sebrae-MG, também desenvolvemos um maquinário específico, mais resistente e preciso, otimizando a fabricação do paviECO”.

Outro avanço, detalha Passos, foi o desenvolvimento, pela Bacia Viva, de um projeto chamado “Mineradora Sustentável”. Ele é voltado para barragens de rejeitos e para instalações de tratamento de minério (ITMs). Trata-se, em síntese, de um processo que desagua a lama do rejeito, separa a seco ou a úmido a areia e a argila, recupera e pelotiza o minério e também trata a água. Segundo ele, para os rejeitos de barragens já rompidas também há solução disponível.

“Nesse caso, temos uma solução de aplicação imediata: a construção de plantas de processamento da lama de rejeito com capacidade de 500 toneladas/hora, início de operação em seis meses, atingindo produção plena em até um ano. Prêmios e reconhecimentos são importantes, mas precisamos de mais. Estamos em busca de parcerias e correndo atrás de capital. Nossa ideia é criar uma nova e rentável cadeia de negócios, dentro ou próximo às mineradoras onde os rejeitos são gerados. As taxas de retorno do investimento são altas”, garante.

A retirada e o reaproveitamento desse material para fins industriais, garante o ambientalista, podem ser replicados em todo o Quadrilátero Ferrífero, onde se localiza a maioria das mineradoras. “Há 50 anos o processo de mineração é o mesmo. Essa inovação vai reduzir custos, diminuir riscos e equilibrar a sazonalidade das commodities. Queremos assegurar ganhos e alcance em grande escala, por meio da instalação de núcleos, com fábricas fixas ou itinerantes que possam ser realocadas para pontos estratégicos. Temos a chancela de pesquisadores do Cefet-MG, comprovando a viabilidade técnica de nossas soluções e produtos.”

Caminho certo

Esperançoso, Flávio Passos acredita que é possível escrever um novo capítulo na conturbada história da mineração em Minas. Afinal, segundo dados da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), são mais de 700 as barragens de rejeitos existentes no estado, um valioso banco de matérias-primas que pode ter destino mais nobre, seguro e rentável.

“Queremos mudar o paradigma da mineração. Especialistas atestam que é possível fazer mudanças estruturais relativamente simples no processo industrial, para que os rejeitos deixem de ser um passivo e se transformem em ativos integralmente reciclados, alimentando novos ciclos de produção e de consumo. Com isso, daremos um importante salto, tanto em termos de ecoeficiência quanto de transmutação, substituindo as barragens – que têm grande potencial de dano –, por depósitos a seco. Paralelamente, ainda geraremos novos empregos e evitaremos o impacto ambiental da exploração de novos recursos, como a areia e a brita, diretamente na natureza.”

Determinado, o ambientalista conclui: “O conceito da Bacia Viva é o de uma empresa do terceiro milênio. Nascemos, trabalhamos e queremos crescer amparados na certeza de que é preciso aprender como o passado. Mas, acima de tudo, ter os olhos voltados para o futuro, investindo na criação de novos negócios na esteira da produção mineral. A experiência de outros países e as pesquisas feitas aqui comprovam que estamos no caminho certo. Cabe às empresas de mineração acordar. Acreditar e investir.”

 

Saiba mais

Vantagens do paviECO

Ambientais

Melhor capacidade de drenagem: as frestas entre o piso permitem a percolação e a infiltração da água da chuva, assegurando a recarga dos lençóis freáticos, diminuindo a vazão das enxurradas e reduzindo o risco de enchentes.

Conforto térmico (redução da absorção de calor).

Sua produção proporciona o desassoreamento e a revitalização de cursos d’água.

Reciclagem de rejeitos de mineração, evitando a retirada de brita e areia diretamente na natureza.

Econômicas

Custo competitivo.

Alta durabilidade e resistência.

Fácil instalação e manutenção.

Sociais

Conforto e menor trepidação para a locomoção de cadeirantes.

Superfície antiderrapante (reduz riscos de quedas).

Geração de emprego, renda e de oportunidade de capacitação da mão-de-obra envolvida na fabricação/instalação/recuperação/revitalização.


O ambientalista e seu sonho: a mineração (ex-Somil e ex-Rio Verde, hoje pertencente à Vale) ajudá-lo parceiramente na despoluição do Córrego Alegria, que tem menos de 2 km de margens tristemente assoreadas por rejeitos - Imagem: Divulgação

Exemplo a ser seguido

“O trabalho da Bacia Viva é muito importante. Ao buscar meios para aprimorar e desenvolver novos materiais – a partir de resíduos da atividade minerária e siderúrgica –, Flávio Mourão demonstra sua preocupação incansável com o meio ambiente e com as comunidades, não poupando nem recursos financeiros nem tempo para atingir seus ideais.

Outras empresas e empresários deveriam seguir o seu exemplo, ajudando a preservar a natureza que ainda nos resta, com soluções que envolvam a conservação da Mata Atlântica, a proteção dos recursos hídricos e a redução das emissões de CO2, entre outros desafios.

Que essa ideia se dissemine pelo mundo e ecoe também na Conferência do Clima (COP21), em Paris, fazendo com que os cidadãos e todos os setores da sociedade se conscientizem e se mobilizem cada dia mais. Se cada um fizer a sua parte, com certeza teremos um planeta preservado, melhor e mais digno para esta e para as futuras gerações.”

Sidney Nicodemos da Silva, pós-doutor em Engenharia de Materiais e professor do Departamento de Engenharia de Materiais do Cefet-MG.

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Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

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