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Terça, 05 de janeiro de 2016

Carta em dor maior

“Confesso, Fernando, que respeito a sua dor, mas o mundo precisa saber dessa tragédia. Da lama que soterrou vilas, inundou rios, matou peixes e toda a vida do Rio Doce.”

Déa Januzzi - redacao@revistaecologico.com.br



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As certidões de Fernando: únicos pertences resgatados - Imagens: Gualter Naves

As certidões de Fernando: únicos pertences resgatados - Imagens: Gualter Naves

Confesso, Fernando, que prometi (ou melhor, jurei) escrever palavra por palavra do que você disse. Ao completar mais de um mês da maior tragédia ambiental da história do Brasil, você tenta reconstruir a vida. Está morando em um prédio alugado pela mineradora, junto com mais nove famílias de Bento Rodrigues, distrito rural de Mariana que foi soterrado pelo tsunami de lama.

Sei, Fernando, que você não queria dar entrevista nem mesmo citar o seu nome. “Põe aí, um morador”. Só depois de algum tempo, você confiou em mim – e falou só o primeiro nome. Sentado na escada do prédio da Rua Cônego Marcial Muzzi, nº 20, nem me convidou para entrar no apartamento nº 3, do Bairro Dom Oscar, onde está morando provisoriamente com sua esposa e o filho. Quando pedi que você me contasse a sua história, você respondeu irritado: “A nossa história acabou! O que podemos fazer? Nada. Perdi tudo, até a roupa de serviço”. Fernando trabalhava como pedreiro, vigilante e qualquer serviço que garantisse a sobrevivência.

Confesso, Fernando, que percebi uma espécie de pacto de silêncio entre vocês, que parecem exaustos com tantas entrevistas, filmagens, gravações e perguntas sem-fim. Afinal, a paz centenária de Bento Rodrigues foi roubada, de repente, pelo tsunami de lama e pela imprensa.  Com licença, Fernando, mas não dá para ficar calada, não dá para assistir a tudo em silêncio. Confesso, Fernando, que respeito a sua dor, mas o mundo precisa saber dessa tragédia. Da lama que soterrou vilas, inundou rios, matou peixes e a vida do Rio Doce. Precisa saber das mortes dos moradores e dos outros quatro que ainda nem foram encontrados debaixo dessa sujeira que ficou pelo caminho. Sei que você tinha uma casa, um lar, uma história, e que tudo foi lama abaixo. Que falar tantas vezes sobre o mesmo assunto deve doer muito, pois vocês formavam uma comunidade de mais de 300 anos, que vivia em outro ritmo, sem pressa, sem intrusos, sem invasões. Sei do seu trauma e dos mais de 600 moradores de Bento Rodrigues e de Paracatu de Baixo que viram suas vidas virarem de cabeça para baixo. Sei, Fernando, que você ainda se lembra do pavor de “correr na frente da morte” para que a onda de lama de 20 metros de altura não atingisse a sua família. Vocês tinham apenas alguns segundos para escapar da morte.

Sei, Fernando, que você ainda tem esperança, por isso permanece em silêncio, à espera. Não ousa falar mal da Samarco. Você ainda confia na palavra dessa empresa, afinal, como você mesmo assegurou, “a mineradora vai depositar, todos os meses, em conta bancária, um salário mínimo para cada morador e 20% do mesmo para cada dependente, além de uma cesta básica no valor de R$ 334”.

Sei, Fernando, que você vai ganhar cerca de R$ 1.450 mensais, que está morando em um apartamento de três quartos, todo mobiliado, sem pagar aluguel nem outros tributos. Sei que você está esperando que a Samarco mapeie alguns terrenos para a construção de uma nova Bento Rodrigues. Garantiu que vocês é que vão escolher o local, entre os indicados. Sei da sua confiança, Fernando, mas não consigo deixar de temer por vocês.

Paracatu de Baixo despida: móveis e roupas pelo chão 

Tomara que seja verdade, mas devo lembrar-lhe que foi essa mesma mineradora que garantiu possuir um laudo de estabilidade da barragem. Mas que o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais, do Ministério Público de Minas Gerais, garantiu que “ela está cheia de remendos e não há fiscalização”. 

Confesso, Fernando, que com o desenrolar da entrevista você passou a confiar em mim, depois de falar tão mal da imprensa em geral. Confesso que como repórter poderia trair a sua confiança, pois vi o seu nome completo, o de sua esposa e do seu filho nas certidões de nascimento e de casamento, os dois únicos bens que te restaram depois de tudo. Mas não vou trair a sua confiança. Você me disse que há uma semana voltou lá em Bento Rodrigues para ver se ainda achava algo. Começou a cavar a esmo, até que se deparou com as certidões. Os documentos se salvaram porque estavam plastificados, mas o cheiro dos rejeitos do minério não saiu, apesar de você ter lavado, esfregado e limpado os plásticos. O cheiro de podridão continua insuportável, irrespirável.

Confesso, também, que me assustei com a reação de outra moradora do apartamento número um, a diretora da Escola Municipal Bento Rodrigues, Eliene Geralda dos Santos. Ela não quis falar, não teve nem paciência para ouvir. Foi logo dizendo que “nós estamos caminhando, tocando pra frente”. E fechou a porta da entrada da casa.

Sei, Fernando, que vocês confiam na mineradora Samarco, que como você mesmo disse, “dá empregos para todos, injeta recursos na prefeitura, movimenta a região”. E que você reconhece que “se tivesse acontecido uma tragédia natural e se dependesse do poder público e da vontade política do governo, estariam desabrigados até hoje”. Você, Fernando, garantiu que até hoje vocês estão vivos “graças à solidariedade da população brasileira, da própria Samarco e de outras empresas privadas. Que o governo só posou com a imagem de bom samaritano”.  

Sei, Fernando, que para vocês a Samarco é mãe e madrasta. “Mariana é totalmente dependente da Samarco, que contribui com 80% do orçamento dessa cidade histórica, além de ter a Vale como ‘salvadora’ de cidades como Ouro Preto, Cachoeira do Brumado, Itabirito, Santa Bárbara, Barão de Cocais, Catas Altas.” É o que você me garante. “Não temos outra opção de trabalho. Direta ou indiretamente, as mineradoras fazem o que os políticos não fizeram. Foram esses políticos que nos deixaram à mercê das mineradoras.”

Sei, Fernando, que vocês estão correndo atrás dos seus direitos, negociando de forma pacífica e ordeira. “Você está vendo alguma baderna? Alvoroço? Manifestação? Protesto? Estamos confiando que vamos receber os nossos direitos. Se a Samarco não passasse essa confiança, se não tivéssemos essa esperança, não estaríamos tão pacíficos. A nossa história foi embora com a lama e os rejeitos. Não sobrou nada. Não quero nem voltar lá em Bento mais, pois a gente não sabe mais nem onde era a nossa casa.”


Memórias soterradas

Antônio e seu espelho: contra a solidão e o desamparo 

É hora do almoço no Hotel Providência, que fica na Rua Dom Silvério, em Mariana. Nele, estão hospedadas cerca de nove famílias que sobreviveram à fúria do mar de lama. Elas esperam por uma decisão da Justiça e da mineradora Samarco. Em breve serão transferidas para casas de aluguel e, no futuro, quem sabe, para uma nova vila que lhes dê a paz perdida na tragédia.

Antônio Raimundo Teotônio, trabalhador braçal, de 51 anos, está lá no hotel e chama a atenção porque anda para cima e para baixo com um espelho nas mãos. Foi o único objeto que restou de sua casa, em Paracatu de Baixo. Ele mostra como o espelho é forte, dando pequenos socos. Grudado no espelho, ele se lembra do dia da tragédia. Estava capinando a roça em uma baixada, quando alguém avisou que era preciso sair dali, porque a Barragem de Fundão havia se rompido e vinha um monte de lama.

Antônio não acreditou e continuou o trabalho, até que “um ‘bitela’ de um avião pousou e disse que a gente tinha cinco minutos para fugir. Saí com a roupa do corpo. Nem olhei para trás. Nem tive tempo de me despedir da minha casa de cinco cômodos, toda mobiliada com madeira de sucupira”.

Uma semana depois, Antônio voltou para ver se encontrava algum pertence. No banheiro, bem acima da marca de lama, o espelho estava lá intacto. “Peguei o espelho, limpei e trouxe comigo, mas foi só”. O espelho hoje reflete a solidão e o desamparo de Antônio.

Mexendo sem parar um tacho de alumínio com sete quilos de farinha de trigo e molho para a massa das coxinhas, Sandra Dometirdes Quintão, de 43 anos, só não derrama mais lágrimas no preparado porque continua a cozinhar, mesmo no Hotel Providência. Ela é uma das moradoras de Bento Rodrigues que perdeu a própria história. Para Sandra, a situação é grave, pois ela morava numa casa centenária, herdada dos bisavôs, que tinha até rancho para tropeiros, piso de pedras que não se encontra mais e cortinas de crochê nas janelas.

Dona do “Bar da Sandra”, ela servia pratos mineiros, como frango com quiabo, ao molho pardo, para moradores e caminhantes da Estrada Real. Seu bar era ponto de referência de Bento Rodrigues, com torneio de truco, lugar de reunir todo mundo para assistir aos jogos de futebol na televisão. A retirada do bar era de quase R$ 10 mil por mês, com muita fartura e estoques de cerveja, de doces como pé de moleque e cocada. Uma referência naquele vilarejo rodeado por paz e muito verde. “Era um paraíso que se foi”, diz ela, enquanto mexe o tacho.

Ela se lembra daquele dia 5 de novembro. “Eu estava na porta de casa com a minha filha, quando um ônibus de Santa Rita Durão parou para deixar uma encomenda no bar. Minha irmã, Terezinha Custódia Quintão, disse que não sabia o que era aquela poeira vindo em nossa direção. Não era poeira, mas uma onda de lama. Tivemos 10 minutos para escapar até que a montanha de lama corresse atrás de nós. Só tive tempo de tirar o carro da garagem, colocar a minha filha, ajudar Dona Penha, uma senhora idosa, com fratura de fêmur e, zás. Tudo virou uma montanha de lama. A pressa era tanto que deixamos Dona Penha cair, mas felizmente ela foi resgatada. Minha irmã ficava repetindo, ‘nós vamos deixar o bar aberto?’.  Hoje eu digo ‘sim, irmã, a lama já tinha abraçado tudo’. Não havia salvação mesmo”.

“Estou com saudade do meu sossego, da minha paz de dormir cedo, sem nenhum barulho. Se me derem R$ 1 milhão hoje, não serei mais feliz como eu era.” Sandra Quintão, ex-moradora de Bento Rodrigues

Há um mês no Hotel Providência, Sandra recebeu uma cozinha só para ela, devido à sua fama de boa cozinheira. E não parou mais: são pedidos e encomendas de 500, 700, mil coxinhas, de pé de moleque. Ela só não faz a cocada porque a máquina de R$ 3.800, que facilitava a confecção do doce, foi tragada pela lama.

Sandra sente falta do fogão industrial, do freezer, da máquina de fazer cocada e dos dois tachos que custaram muito caro, tanto que pede para os visitantes. “Se vocês forem a Bento Rodrigues, procurem os tachos para mim, porque eu não volto mais lá.” Conta que outro dia, “um homem telefonou dizendo que acharam o troféu do ‘IV Torneiro de Truco’ lá perto de Governador Valadares e que virá trazê-lo para mim”.

Como ela está se sentindo diante de tudo? “Um peixe fora d’água. Tudo desmoronou, mas a lama não levou meu ânimo nem minha paixão pelo Cruzeiro Esporte Clube. Vou conquistar tudo de novo, mas te digo. Estou com saudade do meu sossego, da minha paz de dormir cedo, sem nenhum barulho. Se me derem R$ 1 milhão hoje, eu não serei mais feliz como eu era.”


Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

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