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Terça, 05 de janeiro de 2016

Uma cidade fantasma

“Não há mais vida ali, apesar de um broto verde de bananeira se destacar no chão enlameado.”

Déa Januzzi - redacao@revistaecologico.com.br



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Submersa sob a lama, Paracatu de Baixo é o retrato da destruição - Imagens: Gualter Naves

Submersa sob a lama, Paracatu de Baixo é o retrato da destruição - Imagens: Gualter Naves

Apenas o galo, seguido por duas ou três galinhas, denuncia que há vida nesta cidade fantasma e submersa, abandonada às pressas pelos moradores que fugiram da lama de minério e resíduos tóxicos, só com a roupa do corpo. Não deu tempo nem de pegar as melhores lembranças. Do distrito de Paracatu de Baixo não sobrou nada. Até as casas foram enterradas pela lama. As árvores retorcidas, machucadas, arrancadas do chão exibem uma ou outra fruta que restou no pé. Os galhos agora têm cachos de lama tóxica e marrom. As únicas mangueiras sobreviventes estão pedindo socorro, e as jabuticabeiras, mais de um mês depois da tragédia, insistem com alguns brotos verdes.

Em Paracatu de Baixo tudo é destruição: pedaços de janelas e portas arrancados pela fúria da lama e dos resíduos de minério.  O clima é de desolação. Uma das casas afundou na lama, só restando o telhado. As roupas que um dia vestiram o dia a dia dos moradores estão rasgadas pelo chão. São pedaços de colcha, e cortina, de roupas de cama, de vestidos. O que mais dói é ver um armário de cozinha, que voou pelos ares com a força da lama, com pratos e xícaras e copos quebrados e sujos, mas que revelam que havia uma casa e uma família ali cumprindo o ritual diário, de cozinhar, sentar à mesa para o café da manhã, o almoço e o jantar.

Em Paracatu de Baixo, a lama aparentemente endureceu por cima de casas e vidas, mas é só pegar um pedaço que ela se desfaz nos dedos lembrando que uma tempestade ali pode causar outra tragédia.

O único movimento na hoje cidade fantasma são de carros sem identificação, só com números, de vidros fechados apesar do calor. Eles trabalham retirando a lama, vistoriando os estragos, seguidos por tratores, escavadeiras, como formigas silenciosas.

Acaba de passar o carro praticamente blindado com o número 88. Os ocupantes dele acenam, mas não dizem nada e passam rápido pelas margens do rio de águas turvas, ora marrons, ora acinzentadas. Um rio doce, mas morto.

Morte e desolação não impedem o aceno vital da natureza

Não há sinal de vida ali, a não ser pelos pássaros que continuam a cantar do lado de lá, onde a lama de 20 metros de altura não conseguiu chegar, apesar de ter subido, sem pedir licença, pelos postes de iluminação elétrica e passado por cima das casas. Se alguém prestar atenção verá alguns cães que ainda esperam pelos donos, remexendo o lixo podre. As moscas zumbem naquele monte putrefato. Não há mais vida ali, apesar de um broto verde de bananeira se destacar no chão enlameado. O broto luta para viver, para restaurar o verde, para ensinar que a natureza é maior.

Geladeiras, antenas parabólicas e fogões revirados não prestam para mais nada, a não ser para poleiro das últimas galinhas que continuam ali, sem saber da realidade devastadora que expulsou os moradores. Indiferentes, elas ciscam, sob o comando imperial do galo.

Mas o maior tormento é sair de Mariana, passar pelo município de Monsenhor Horta, com casas pintadas de todas as cores e uma paisagem bucólica, onde o verde dá o tom da comunidade que escapou do tsunami de lama. Ao passar por aquele caminho dá vontade de ajoelhar e rezar, porque Deus é feito de natureza, daquela paisagem harmoniosa. Deus está ali, em cada árvore, em cada flor, no traçado natural de ramos e arbustos. Só o rio ao lado denuncia a cor da tragédia, até que a paisagem reconfortante, silenciosa, termina de repente para chegar ao deserto de Paracatu de Baixo.

E agora?


Em tempo: a Ecológico abriu espaço para a Samarco se pronunciar. Mas, até o fechamento desta edição, não houve retorno de sua assessoria.


Acompanhe a reportagem completa:

Um dia para não esquecer

"Fomos todos enganados?"

"Desprezo à democracia"

"É preciso entender"

"Obrigado, Dom Luciano"

"Assim se rompe uma barragem"

"Minas, ainda a ver navios"

"Ecologizemos a economia"

"Barragens de rejeito, não!"

O Sisema represado

"Há solução para o Rio Doce"

Quando o rejeito vira produto e solução

Carta em dor maior

Uma cidade fantasma

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