Segunda, 08 de de 2009
Hugo Werneck, conservacionista e educador ambiental
“O Amor Vencerá”
Hiram Firmino - redacao@revistaecologico.com.br

O mestre dos ambientalistas no aconchego do lar, em sua última entrevista à revista Ecológico: contrariando Saramago

Aqui, na íntegra, o último recado do fundador e ex-presidente do Centro Para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, que pregava o amor e amava os pássaros e as borboletas

 

Meu último encontro com Hugo Eiras Furquim Werneck, considerado por muitos o Pai do Ambientalismo Brasileiro,  se deu em 2008. Foi há quase oito meses, antes da lua cheia de novembro de 2008, à vespera do lançamento da Revista ECOLÓGICO. Eu fui à sua casa, no bairro São Pedro, em Belo Horizonte para participar-lhe a idéia da linha editorial da nova publicação. E pedir-lhe autorização não apenas para nos apadrinhar com a sua filosofia e amorosidade pela causa, como também para dedicar o nascimento e a existência da revista à sua história de vida e pioneirismo na luta ambiental que hoje comove e pode significar a sobre vivência ou não da humanidade. Foi a forma que encontramos de homenageá-lo e agradecermos permanentemente seus ensinamentos,  antes e depois da sua morte iminente.

 

Mesmo magro e andando com dificuldade, com auxílio de aparelhos, devido ao estado avançado de um câncer fulminante nos pulmões, ele nos recebeu com a douçura de sempre. Aos 89 anos e acompanhado de Maria da Penha, sua segunda esposa e companheira fiel até o final de seus dias, Hugo não se queixou uma só vez. Nem de Deus, nem dos poluidores, muito menos da natureza e de quem ainda a degrada, apesar do placar desfavorável. Apenas sua voz saía embargada, por estar respirando e falando com dificuldade, inclusive com ajuda de um concentrador de oxigênio, via cateter nasal, 24 horas cotidianas.

 

 

Revista Ecológico – Então, doutor Hugo, como vão as coisas?

 

HUGO WERNECK – Você não morre tão cedo, rapaz! Tenho uma novidade pra te contar. Estou doido para receber alta e poder voltar ao trabalho que estava fazendo com as comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco. Meu tema agora, antes de ecológicos, é contribuir para formarmos cidadãos íntegros. E para isso eu tenho de falar dos valores da família, da escola e da sociedade. E do amor que também anda sumido nas relações atuais. Afinal, não nascemos humanos, nos tornamos humanos. Valores também são presentes na natureza, nos pássaros.....

 

  

Como assim?

 

Falo da importância do respeito mútuo e, sobretudo, no querer bem o outro, algo que existe genuíno e é mais visível nos animais. Hoje eu sou viúvo, casado outra vez e agradeço a companhia que Deus me deu. Mas sempre penso no primeiro casamento com Wanda, no qual eu vivi 56 anos na mais profunda felicidade. Nunca tivemos um atrito que estremecesse a nossa relação. Havia divergências, sim, e pensar diferente não significa ser inimigo, faz parte também da democracia doméstica. Graças a esse entendimento prévio, à tolerância mútua que é fundamental no convívio humano, nós aprendemos a transformá-las, mesmo de maneira errática, no caminho da perfeição.

 

 

E o quê o senhor fala sobre o amor em suas viagens?

 

Que ele é tudo de melhor que temos de cultivar em nós. De resgatar, inclusive, o sentido da relação de intimidade entre o homem e a mulher, onde, com o tempo, o amor ultrapassa o valor da sexualidade. Que essa transformação, tal como as borboletas que saem do estado larval para voar e ganhar a liberdade, ocorre de maneira absolutamente natural e na base do diálogo. Desejo bilaterial, decisão bilateral. Isso é muito importante e deve ter ressonância. Todas as relações, onde prevalece o afeto e o cuidado mútuos, verdadeiros, são assim. Veja os pássaros. Eles criam relações exemplares. Voam e cantam juntos, seja em tempos discretos como no verão, ou eloquentes no verão. Comem juntos, têm tempo para si. E como já disse o mestre Jesus, nunca vemos um pássaro qualquer mendigando ou morrendo de fome feitos os humanos.

 

 

Freud, que defendia que a cura pela psicanálise advinha do ato do ser humano basicamente falar e tomar consciência de seus problemas, morreu de câncer na garganta. Gandhi e Lennon pregaram o pacifismo e ambos morreram vítimas da violência. E o senhor que só fala em amor e compreensão, agora também não pode falar, por causa de um câncer violento nos pulmões. Como explicar isso? Não se revolta, não acha que Deus está lhe sendo injusto?

 

Revoltar contra o quê, meu filho,  se só tenho a agradecer? Nunca me preveni dessas coisas. Também nunca fumei um cigarro, a não ser nos meus primeiros tempos de casado, acompanhava Wanda e tomava cerveja preta. Isto ocorreu a cada nascimento de nossos 11 filhos. Nunca vi minha mãe nem meu pai, que não eram ricos se revoltarem com a vida,  mesmo quando mudaram para Belo Horizonte em meio a todas dificuldades. Na verdade, quando me disseram que eu tinha tuberculose ou câncer, eu logo pensei e me resolvi: tenho de aceitar e seguir os caminhos de Deus. Tenho um enjôo permanente, sim, mesmo quando como pequenas coisas. E não tenho mais o apetite de antes. Mas é engraçado. Não faz falta. Olha aí uma outra vantagem!..

 

 

Não sente dor?

 

Só um pouco, no início. Hoje tem remédio pra tudo. Mas, de qualquer forma eu tenho de confessar. Meu final de vida está é muito suave, tranquilo. Estou tendo mais tempo para pensar na minha paternidade e meus filhos me enchem de ternura.  Essa é a dádiva de ter, plantar e cultivar relacionamentos afetivos. A colheita, como numa lavoura orgânica, sem uso de pesticidas e outras deformidades, é certa.

 

 

Onde o senhor, que agora não pode mais ter contato com a natureza, busca essa resignação?

 

Não é resignação. É agradecimento. Hoje eu tenho e convivo com três médicos, rapazes ainda, de outra geração. São cheios de idéias diferentes, algumas até mais evolutivas que as minhas. Como aprendo a ser mais humilde com eles! Sou grato, enfim, pela oportunidade que Deus me deu para viver toda e qualquer experiência humana, positiva ou negativa, e a descoberta de um segredo.

 

 

Que segredo?

 

O segredo de nunca se comparar ou fazer comparação entre as pessoas. É não impor nada. Deixá-las livres em seu livre arbítrio. Todos os meus filhos fumaram e a nenhum deles eu disse que parassem. Isso é responsabilidade de cada um, de cada ser humano consciente de sua missão consigo mesmo e com a saúde do planeta, se deve ou não cuidar da sua saúde, da sua própria vida. E não mais se poluir, poluir o outro.

 

 

Que destino o senhor vislumbra para o planeta e a humanidade?

 

A humanidade marcha com dificuldades. Desde Cristo, os grandes pensadores, só se ouve falar em crimes, só se aponta o erro, a corrupção. Tudo bem, isso é o mundo real e não podemos fugir à sua realidade. Mas ninguém fala de uma coisa chamada  virtude. Nós precisamos de gente que saiba que está fazendo o bem, que tem a convicção que esse é caminho, a força e o instrumento poderoso que temos e não usamos, pouco divulgamos. As pessoas devem repensar naquilo que acreditam. É por isso que agarro-me com todos os dedos no amor. Não existe mais dom e instrumento de mudança que ele.

 

 

Saramago disse uma vez, e o senhor o contestou na época, que o ser humano é uma praga no universo, que o ego e o ódio, e não o amor, vencerão no fim, com a escalada da sua presença nada ecológica em todo o planeta. Continua contradizendo ele?

 

Claro. O amor vencerá sim. O mundo está mudando mais depressa do que somos capazes de perceber e encarar. A natureza se recompõe e existirá sem o homem, mas o contrário não é possível. No entanto, não há sentido da vida, sem a existência do homem em interação com a natureza,  e que seja norteado pelo encantamento e amor a natureza, pois esse homem também é elemento da natureza, gerado pelo mesmos Criador. Se a consciência ambiental chegar apenas através do intelecto, a humanidade ficará apenas mais culta do ponto de vista ecológico. Mas se a tocarmos pelo afeto, pelo coração, a mudança e a salvação serão inevitáveis. Não existe outro caminho. Quando qualquer pessoa, rica ou pobre, branca ou amarela, enxergar uma borboleta e disser: “Que beleza!”, pronto. Ela estará sensibilizada. E jamais se negará a ajudar quando um seu semelhante, ainda num estado socialmente larvário lhe pedir esmola, mesmo se for um impostor.       

 

 

Seu pai gostava da natureza também?

 

Muito. Como eu tinha desejo de pegar passarinhos, um dia ele inventou uma frase para os meus castigos, que não foram poucos: “Maltratar animais e plantas é indício de mau caráter”, que tinha de repetir escrevendo. Eu não sabia o que era “indício”. Escrevia 100 vezes e, quando tinha folga e sabia que ia desobedecê-lo outra vez, já deixava previamente escritas outras 100 dessas frases. Parece que aprendi o significado delas.

 

 

Que recado o senhor mais gostaria de passar aos nossos leitores?

 

Que eles se tornem pessoas pensantes, que usem sua inteligência para se descobrirem e tornarem capazes de amar, descobrirem novas formas de expressá-lo em suas vidas cotidianas e na profissão que exercem. Até na política ambiental não existe sua contra-indicação para isso.

 

 

Na política?

 

Vou te dar um exemplo. O maior erro que existe na nossa legislação, baseada tão somente na fiscalização e controle, é transformar os atos contra a natureza em crimes, é transformar o sujeito ou a empresa que a degrada em criminoso. Ao fazer isso, a nossa jurisdição transforma e consolida alguém que fez uma coisa errada em bandido. Perante os mecanismos da natureza que nos protege, alimenta e nos faz viver, quem a degrada o faz por ignorância, por não ter podido aprender a sua grandeza, da qual depende para viver. Uma pessoa assim, por ignorar de maneira suicida tamanha obra de Deus, a ponto de agredí-la, merece o nosso apoio e não julgamento.

 

 

Como assim?

 

Crime supõe intenção, e nem sempre existe isso. Se rotulada de bandida, criminosa, aí sim, ela pode se transformar nisso pelo resto da vida. Já o contrário, ao perdoá-la e esclarecê-la através do que chamamos de educação ambiental, podemos estar transformando esta mesma pessoa em uma defensora do meio ambiente. Veja o caso dos caçadores de ovos de tartaruga no Brasil. Hoje esses próprios nativos ganham inclusive mais dinheiro, como funcionários ou prestadores de serviço ao Ibama, para defendê-las. Tal como uma borboleta em seu processo de transformação, uma criança delinquente não merece punição, mas que a transformemos em um cidadão digno amanhã. Imagine se matássemos ou aprisionássemos todas as larvas de borboletas? Não existiriam as borboletas adultas, esvoaçantes em sua beleza, leveza e graça. Não existiram as “cores que voam” a nos encantar,  como uma criança uma dia me ensinou a vê-las, visitando o borboletário da Fundação Zôo-Botânica de Belo Horizonte.Já pensou nesta criação e Deus? Uma cor que voa? Só isso, a beleza do mundo, deveria bastar para respeitarmos, amarmos e preservarmos a natureza. 

 

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