Terça, 09 de de 2009
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O jovem e apaixonado casal Ruth e Sebastião Rabello: exemplo de amor, coragem e ciência na história da medicina em Minas, reconhecido nacionalmente... |
Quem acha que a medicina e os hospitais têm de ser necessariamente frios e os médicos e seus assistentes sem coração, e ainda não assistiu, pode correr nas locadoras e pegar o filme “Quase Deuses” (“Something the Lord Made”). Vencedor de três “Prêmios Emmy” e estrelado por Alan Rickman e Mos Def, ele conta a história verdadeira e emocionante de dois homens que, nos anos 40, na cidade de Baltimore (EUA), desafiaram as regras da época e iniciaram uma revolução médica.
Ali, em meio à segregação racial e todo tipo de descrença e dificuldades, o médico Alfred Blalock e o técnico de laboratório, Vivien Thomas, realizaram as primeiras cirurgias cardíacas na história da medicina, usando uma técnica até então sem precedentes.
Ao mesmo tempo em que travavam uma corrida contra o tempo para salvar a vida de um bebê, ambos tinham diferentes condições sociais na cidade. Blalock era o saudável médico de cor branca que comandava o departamento clínico do Hospital Johns Hopkins. Já Thomas era negro e pobre, um ex-habilidoso carpinteiro. Os dois juntos, apesar dos preconceitos da época, realizaram a primeira cirurgia cardíaca e ensinaram aos seus pares do mundo inteiro como, doravante, era possível salvar milhares de outras vidas até então sem esperança.
MADE IN MINAS
A versão mineira desta revolução médica foi referenciada recentemente em Belo Horizonte, durante a realização do “36º. Congresso de Cirurgia Cardiovascular (SBCC)”, que reuniu 800 especialistas no Minascentro. Nele, como o fizera em um artigo emocionante publicado no jornal Estado de Minas, o coordenador Eduardo Victor Rocha, lembrou que a história da cirurgia cardiovascular entre as nossas montanhas se confunde com a de um “jovem casal”, um médico ginecologista e obstetra e sua mulher, recém-casados também na década de 40.
Esse médico era Sebastião Corrêa Rabello, que tornou-se cirurgião e diretor do Hospital Vera Cruz, dando continuidade aos seus fundadores Sylvio Miráglia, Antônio Figueiredo Starling e Ajax Rabello, seu pai. Ela era Ruth Rocha e, conforme sua descrição, tinha problemas cardíacos, sentia-se muito cansada e as doses de digitoxina, que outrora ajudavam seu coração, já não surtiam efeito:
“Na época, a dra. Taussig, uma médica norte-americana visitava o Rio de Janeiro. Para o casal, era a chance de ouvir a opinião de uma especialista em problemas cardíacos. Ao analisar o caso, no entanto, ela diagnosticou uma estenose mitral. E afirmou que a jovem viveria por apenas mais um ano, aumentando a angústia do casal; já que, em 1950, não se falava em cirurgias do coração e havia poucos relatos em traumas. A penicilina apenas começava a ser utilizada e não se conhecia a massagem cardíaca externa”.
Tempos depois, prossegue o artigo, Sebastião recebeu uma carta de Taussig, falando da possibilidade de tratar sua esposa. Dizia que a esperança estava em Baltimore, a mesmo do filme “Quase Deuses”, mas já sem segregação racial, onde um cirurgião de nome Blalock realizava um procedimento inovador: “A técnica que hoje vemos como muito primária, consistia em ampliar a válvula mitral por meio de um orifício com o dedo indicador do cirurgião. Era o início da cirurgia cardíaca”.
A possibilidade de cura animou sua Ruth: ”Em um ato de extrema coragem, ela despediu-se da família e embarcou para os EUA, sem saber que entraria para a história ao se tornar uma das primeiras pessoas no mundo a sobreviver depois de ter o coração operado. E por ser a primeira operada a ter filhos”.
Segundo Eduardo Rocha, apesar da formação em ginecologia, Sebastião “foi seduzido pela beleza de salvar vidas operando corações, e se inscreveu como aprendiz de Blalock”.
Em meados da década de 50, ele retornou a Belo Horizonte e, a exemplo do médico norte-americano, operou seus primeiros pacientes e fundou uma escola de de cirurgia cardiovascular. Ruth viveu até 2003 e teve cinco filhos. São eles Angela, Guilherme, Renato, Rachel e Marcos Rabello que hoje, com a família Starling, formam a terceira geração à frente do Hospital Vera Cruz. Renato seguiu a carreira e dá continuidade à gestão, história e idealismo do pai. Tornou-se cirurgião cardíaco e diretor-geral da instituição hoje considerada excelência em saúde.
Atualmente - ressalta o artigo – Minas Gerais é uma das referências neste tipo de procedimento no Brasil, com 22 serviços de cirurgia cardíaca e brilhantes serviços prestados à população:
“Daqui saíram muitos cirurgiões para o mundo. São mestres, doutores e livres-docentes, que levam a competência do cirurgião mineiro a vários cantos do planeta. Minas conta ainda com várias fábricas que produzem e desenvolvem próteses e materiais para a especialidade de alta qualidade”.
Por isso, na opinião de Eduardo Rocha (e o 36º. Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular reconheceu e homenageou), a história desta especialidade se confunde mesmo com a do amor. A ecologia humana do amor, primeiro, do casal Rabello. De Sebastião e Ruth. E depois do fruto cientificamente sustentável desse amor deixado à medicina e à humanidade.
60 ANOSFachada atual do Vera Cruz, o primeiro hospital a adotar o verde e cuidar dos canteiros centrais em Belo Horizonte

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