Terça, 09 de de 2009
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Depois de um inverno rigoroso, com ruas e carros sob a neve... (Andréia Zenóbio) |
A última vez que nevou tanto como neste último inverno foi em 1960. Como em uma operação de guerra, os tratores rodavam dia e noite para manter as ruas e os passeios ‘limpos’, pelo menos transitáveis. Afinal, o país não pode se dar ao luxo de parar por causa da neve, seja qual for o seu volume. Se fosse assim, a Noruega hibernaria então pelo menos por quatro meses, como fazem alguns dos seus mais ilustres cidadãos: os ursos polares. Impossível.
Mas como acontece todos os anos – e este é o nosso conforto e o que nos faz suportar invernos tão rigorosos –, a primavera chega trazendo consigo a explosão da vida. Galhos secos de repente se enchem de brotos. As florestas voltam a ser habitadas pelos cantos dos pássaros que, um a um, estão retornando de sua longa viagem até o sul da Espanha e muitos ainda até da África do Sul. Flores vermelhas, azuis, amarelas e brancas começam a pipocar em todos os lugares. E o chão das florestas? Estão cobertos por pequeninas flores brancas. Depois vêm as azuis.
O mais esperado e celebrado é o retorno da luz. De novembro a fevereiro convivemos não com o ‘sol’, mas apenas com sua ‘luz’ das 9h15 até as 15h da tarde; no restante do dia somos engolfados pela escuridão. Daí a neve ser tão importante para os nórdicos. Além de refletir a ‘luz’ da Lua e das estrelas, iluminando um pouco nosso dia-a-dia, permite que os noruegueses, amantes de todas as categorias de esportes ao ar livre, continuem com suas rotinas de exercícios, como esquiar por exemplo. Mas quando a primavera chega... o oposto acontece. A luz e o calor do Sol nos envolvem 24 horas por dia. Não há noite, mas apenas um leve crepúsculo de madrugada. A luz do Sol brilha o tempo todo, dia e noite. No Norte, é possível ver o Sol da meia-noite, que nada mais é do que o Sol brilhando no meio céu por volta dessa hora.
Em vez das pesadas botas de neve, roupas íntima, meias e blusas de lã, mais um casaco comprido, chapéu, luvas e cachecol, agora andamos pelas ruas de shorts, camisetas, vestidos de verão e sandálias. Não mais de cabeça baixa para nos proteger do vento frio ou como se quiséssemos manter todo grama de calor possível dentro do nosso corpo, mas sim de cabeça erguida, leves e sorridentes. É o milagre anual da primavera.
Dugnad primaveril
E agora que a neve se foi e a luz retornou... é hora de nos prepararmos para vivenciar deliciosos dias de luz e calor que irão durar até o fim de agosto. E a maneira como nós, a sociedade com um todo, fazemos isso é através do ‘dugnad’. No nosso prédio, o aviso foi pregado no quadro da portaria com uma semana de antecedência: “Dugnad será na próxima quarta-feira. Venha participar!” Não há hora marcada. Você aparece quando pode. Não há tempo de duração. Depende de quanto somos e o quão efetivo trabalhamos.
Não existe tradução para a palavra ‘dugnad’. Do mesmo jeito que ‘ombudsman’ foi assimilado no mundo inteiro – também uma palavra e conceito de origem norueguesa – assim poderia ser com o ‘dugnad’. Enquanto ‘ombudsman’ se refere a uma pessoa responsável por cuidar, defender e assegurar os interesses e direitos de um grupo contra um tratamento injusto dentro de qualquer campo, ‘dugnad’ diz respeito à prática de uma comunidade trabalhando para o bem da própria comunidade, assegurando benefícios para a própria localidade e, consequentemente, para a sociedade com um todo.
Munidos de vassouras, enxadas, foices, regadores, terra adubada e sementes fornecidos pela firma que administra o prédio, todos nós, moradores (cada um no seu tempo e disponibilidade), passamos o dia colhendo folhas e gravetos, limpando a grama e os jardins, plantando flores, pintando os brinquedos do playground, cortando grama, podando as árvores, tudo para que a área comum em frente ao nosso prédio esteja completamente preparada para a primavera e o verão.
Só que todos os prédios na nossa rua fazem o mesmo, cada um no seu dia. Todas as casas do nosso bairro se organizam em ‘dugnad’; todos os bairros de Oslo participam do mesmo processo. E no final, a cidade e todo o país viram um só jardim!
Responsabilidade social
Resultado: porque ‘dugnad’ é uma ação praticada por todos nós, cada um se sente responsável por manter limpas e por proteger as áreas verdes. As praças e os jardins passam a não ser só uma responsabilidade do governo, mas o jardim particular de cada um. Sabe aquela história: quem conhece, cuida?
Até os jardins de infância têm o seu ‘dugnad’. Apesar de serem escolas públicas, são os pais, durante o ‘dugnad’, que preparam a escola de seus filhos para mais uma primavera e um verão.
Entretanto, o maior benefício que o ‘dugnad’ propicia é o laço entre as pessoas. Todos os relatórios científicos e políticos que tratam de meio ambiente e consumo sustentável referem-se à importância dos vínculos sociais e das relações comunitárias como instrumento de combate ao individualismo – que gera solidão e o vazio existencial – sensações que tentamos preencher com o consumo excessivo que tanto degrada nossos recursos naturais.
Enquanto trabalhamos juntos no ‘dugnad’, temos oportunidade de nos relacionar com vizinhos para os quais nunca antes, apesar de vivermos anos no mesmo prédio ou na mesma rua, dissemos nem ao menos bom dia. Não é que depois do ‘dugnad’ eles vão frequentar sua casa ou lhe convidar para um café. Não é o caso. Mas depois de um ‘dugnad’, quando nos encontramos no elevador, na rua ou no metrô, quando nos cumprimentamos, intimamente sentimos que somos parte de uma mesma comunidade, que passamos juntos por uma experiência comunitária e que lutamos por uma causa comum. E como membros de um grupo, somos mais poderosos!
‘Dugnad’ poderia ser assimilado por todos os países como aconteceu com o conceito de ‘ombusdman’; como uma atividade que além de fortalecer os laços interrelacionais entre as pessoas propicia o sentimento de responsabilidade para com o meio ambiente e para com o bem-estar coletivo.
Ah, me esqueci de dizer. Ao fim de um ‘dugnad’ cada um sempre aparece com cervejas, refrigerantes, café, bolos e cachorro-quente e, em um piquenique comunitário, celebramos a vida!

Sem comentários no momento.
Assim falou...






