Terça, 09 de de 2009
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(Luis Antonio Fontes) |
Quem mostrou isso para a equipe da Revista ECOLÓGICO, foi Solange Lemgruper Boechat, gerente do parque e a autêntica xamã, com autoridade e pulso firme para resolver questões práticas, como proteger e impedir a degradação ambiental, e também sabedoria para sustentar prosas, sentada ao lado do fogão a lenha, saboreando um café coado na hora, na casa dos moradores do entorno do parque. Todos a conhecem pelo nome e criaram cumplicidade de compadres e comadres em busca de proteger ali o meio ambiente que lhes dá qualidade de vida e uma sobrevivência com dignidade e sustentabilidade.
Quem mora por perto não arreda pé de lá, por nada desse mundo. E quem já se foi desse mundo, como um português chamado Manuel, deixou um exemplo de amor ecológico. Antes de morrer, ele comprou com dinheiro próprio, uma a uma, as centenas de araucárias e antigas, que caracterizam um outro símbolo do parque, numa tentativa de protegê-las da ação destrutiva do homem. “No caso, uma madeireira de Itamonte que já tinha obtido licença de corte da floresta. Manoel comprou a fazenda, mas a antiga proprietária havia vendido as araucárias. Ele negociou com a madeireira e pagou por cada árvore para evitar sua extinção”, pontua Maciel. Trata-se de cinturão verde, chamado de Vale das Araucárias, que impressiona pelo tamanho das árvores que chegam a atingir até 50 metros de altura, na busca pelo sol, e que serpenteiam os colos das montanhas, quilômetros afora:
“Dos 20 milhões de hectares com araucárias que existem e resistem milagrosamente desde a época da descoberta do Brasil, restam apenas 2% em Minas, notadamente na região. A espécie é considerada “em perigo crítico de extinção” desde a ECO/92, pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). A araucária controla a qualidade da fauna e flora do bioma e sua semente, o pinhão, serve de alimento para os animais e os moradores da região. E onde tem araucária tem, inevitavelmente, o pinheirinho e o xaxim. São a beleza marcante da Mata Atlântica”, ensina Solange.
O Parque Estadual da Serra do Papagaio é uma importante reserva de diversas espécies de mamíferos, aves e anfíbios.Considerada um banco genético de espécies representativas da Mata Atlântica, essa Unidade de Conservação foi criada para proteger espécies ameaçadas de extinção, como a araucária, o papagaio-do-peito-roxo, o lobo-guará, a onça-parda, a jaguatirica, o macaco bugio, o jucuaçu, a choquinha-da-serra, que convivem e se reproduzem graças à riqueza de ambientes e abrigos ali existentes. Esse extenso corredor ecológico abrange as nascentes dos rios Aiuruoca, Baependi e Verde e também as dos principais rios formadores da bacia do Rio Grande, responsável pelo abastecimento de grandes centros urbanos do Sul de Minas”.
E um grande mutirão humano está mudando a realidade local e possibilitando que o homem do campo se reconcilie com a natureza que, no passado, ele desmatou, por falta de esclarecimento. A Oscip Amanhágua, a Universidade de Lavras (Ufla), o IEF e o Projeto de Proteção da Mata Atlântica de Minas Gerais (Promata), lançaram o Projeto de Viveiros Familiares. “Estamos fomentando a implantação de viveiros comunitários com o apoio de 42 famílias locais. Graças a isso, já plantamos 756 mil mudas de candeia no entorno do parque, formando um corredor verde. Elas receberam as mudas e insumos. Quando as mudas estiverem prontas para o plantio, o próprio IEF irá comprá-las ao custo de R$ 0,30 cada. Esse apoio financeiro é fundamental para que, aos poucos, o morador rural da região abandone as práticas de degradação utilizadas no passado”, explica Mônica Buono, presidente da Oscip Amanhágua.
Ele lembra que a candeia (Eremanthus erythropappus) se desenvolve em ambientes hostis, com pouca umidade, solos pouco férteis, e sua altura varia de 800 a 1.700 metros. É uma espécie de múltiplos usos, porém sua madeira é mais utilizada como moirão de cerca, pela durabilidade, e para a produção de óleo essencial, cujo principal componente é o alfabisabolol, que possui propriedades antiflogísticas, antibacterianas, antimicóticas, dermatológicas e espasmódicas
“Depois que criaram o parque, tudo o que a gente fazia na nossa propriedade passou a ser errado e proibido”, conta o produtor Juarez de Castro. Mas hoje ele não está mais ressentido com essas medidas protecionistas e se reconciliou com a natureza. Castro mantém uma área reflorestada dentro de sua propriedade familiar, é viveirista e integra o corpo de brigadistas voluntários, serviço pelo qual ele recebe uma bolsa mensal de R$ 200,00.
Investir no desenvolvimento local sustentável é a aposta do programa de ampliação de fragmentos florestais, iniciado em 2007 nos municípios de Baependi, Aiuruoca, Alagoa, Itamonte, Pouso Alto e São Tomé das Letras, todos no entorno do parque. “De lá pra cá, graças a um trabalho de conscientização e educação ambiental, 118 proprietários já abriram suas terras para a recuperação da Mata Atlântica. Até agora, mais de 1.500 hectares de futuras áreas de reserva legal e de preservação permanente foram cercadas. São áreas que estão sendo enriquecidas com mudas nativas ou se regenerando naturalmente”, explica Mônica.
Iniciativa sustentável e louvável essa de incentivar com dinheiro os proprietários das terras que desejam preservar ou enriquecer seus remanescentes florestais. “O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) já beneficiou 300 agricultores de 30 municípios mineiros, entre 2004 e 2008. As áreas selecionadas para recomposição precisam ter no mínimo um e no máximo 20 hectares. Cada produtor recebe de R$140 a R$ 300 por ano, por hectare recuperado, dependendo da modalidade de intervenção feita nas suas terras. Um dos pilares do projeto é fazer a conexão entre os fragmentos florestais, permitindo um intercâmbio genético entre as espécies vegetais e animais que ali vivem”, emenda a especialista.
“É muito difícil chegar até um produtor rural e simplesmente dizer: ´Olha, preservar a natureza é importante, a fauna é bonita´. O agricultor depende da terra. Ou você dá uma compensação financeira ou ninguém protege de bom grado”, argumenta Ricardo Galeno, consultor técnico do Promata.
E porque ninguém quer ver essa beleza destruída, a Oscip Amanhágua, de Baependi, criou e treinou uma brigada voluntária de combate a incêndios florestais, formada pelos próprios moradores da área rural. Uma parceria entre o poder público e os cidadãos que nasceram por ali, se criaram, casaram, tiveram filhos, netos e, hoje, estão aprendendo com a própria natureza a preservar esse presente de Deus que é o Parque Estadual Serra do Papagaio.
Sua imponência e beleza merecem! Conhecê-lo é preciso. Preservá-lo, mais ainda.
Fique por dentro
Área do parque: 22.917 hectares
Onde: municípios de Baependi, Aiuroca, Alagoa, Itamonte e Pouso Alto
Distância: 384 quilômetros de Belo Horizonte
Acesso: Seguir pela BR-381, entrar no trevo de Três Corações, no sentido de Caxambu
Clima: Temperado úmido, com média anual de 20 graus.
Informações: (35) 3341-7532
Apoio
No Vale das Araucárias, com os papagaiosO Parque Estadual da Serra do Papagaio, no Sul de Minas, preserva a exuberante Mata Atlântica e a árvore-símbolo das terras altas da Mantiqueira

ANA e LUIZ A equipe do Parque Estadual da Serra do Papagaio parbeniza a belissima reportagem sobre a UC. A sensibilidade ao texto e das fotos caracterizam os profissionais que vcs são. Agradecer é pouco para quem luta e agredita em um mundo melhor.A todos o nossos eternos agradecimentos. Aproveito para solicitar o envio de pelo menos 5 revistas para que possamos enviar aDiretoria do IEF. Att. Solange Lemgruber Boechat gerente PESP
Assim falou...





