Terça, 09 de de 2009
![]() ![]() |
![]() |
Desde que foi implantado, em 2003, o programa Minas sem Lixões reduziu à metade o numero de depósitos irregulares em todo o estado. (Sanakan) |
A gestão adequada e eficiente do lixo é um dos maiores desafios de sustentabilidade que o Brasil enfrenta. Lidar com o volume crescente de resíduos gerados no país, em especial nas grandes metrópoles, é obrigação das prefeituras, como prevê a Constituição. Entretanto, boa parte dos municípios ainda está longe de cumprir essa determinação. Lixões a céu aberto impõem riscos à saúde pública, geram desperdício de dinheiro público e de energia e ainda degradam o meio ambiente. A mudança desse cenário é urgente e requer a adoção de medidas políticas imediatas que incentivem o brasileiro a reduzir a geração de lixo, por meio da organização e promoção da reciclagem. Tal medida favoreceria o trabalho das associações de catadores e das empresas do setor. Porém, é necessário ainda adotar processos mais eficientes para o reaproveitamento alguns tipos de resíduos sólidos urbanos, que podem co-processados por determinados segmentos da indústria e também usados para a geração de energia. Um caminho mais sustentável e rentável já trilhado por inúmeros países, ainda a nos desafiar.
Em Minas Gerais, a erradicação dos lixões tem avançado, mas as dificuldades enfrentadas ainda são muitas. O Programa “Minas sem Lixões”, implantado em 2003 pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam), conseguiu reduzir em cerca de 50% o número de lixões. Segundo dados da Gerência de Saneamento Ambiental da Feam, Minas tem, atualmente, 462 lixões, 241 aterros controlados, 49 cidades atendidas com aterros sanitários e 95 usinas de triagem e compostagem. A população urbana com acesso a sistemas de disposição final de resíduos passou de 19,2%, em 2003, para 45,92% em dezembro de 2008, totalizando cerca de 7,5 milhões de pessoas. Esses resultados deixam Minas acima da média nacional na disposição adequada de lixo, atualmente em torno de 30%.
O objetivo do programa é ter, até 2011, pelo menos 60% da população urbana atendida por sistemas adequados para tratamento ou disposição final de resíduos urbanos, além de reduzir em 80% o total de lixões. De acordo com o presidente da Feam, José Cláudio Junqueira, atualmente, as atenções estão concentradas na Bacia do Rio das Velhas, em função do compromisso assumido pelo governo de Minas com a Meta 2010: nadar, navegar e pescar no rio até o ano que vem. “Sabemos que uma das grandes causas da poluição do rio ainda é o lixo e temos prefeituras que, até hoje, não fizeram nada para resolver esse problema. Procurei o secretário (José Carlos Carvalho, de Meio Ambiente), conversamos com o Ministério Público e vamos adotar projeto-sistema piloto para o Velhas, nos moldes de uma ação implantada com sucesso no Rio Grande do Sul. Vamos dar prazo para cada prefeitura inadimplente com a gestão do lixo resolver sua situação. Caso descumpra a meta, a administração municipal terá de assinar termo de ajustamento de conduta (TAC) e será obrigada a mandar seu lixo para algum aterro licenciado”, avisa.
Incentivo fiscal – Para Junqueira, não dá mais para aceitar que prefeituras continuem jogando lixo no meio ambiente sem qualquer tratamento, comprometendo todo o esforço e investimentos feitos pelo governo para recuperar a qualidade das águas do Velhas. “É como se você estivesse tratando água para abastecer a caixa da sua casa e, seu vizinho jogasse esgoto nela todos os dias”, compara. Durante anos, lembra Junqueira – antes de o “Minas sem Lixões” ganhar corpo –, a Feam atuou no comando e controle com as prefeituras, autuando e multando municípios, sem conseguir avanços. Os primeiros resultados positivos surgiram a partir da oferta de incentivo fiscal, por meio do ICMS Ecológico. Hoje, cerca de 140 cidades recebem o benefício. “Além disso, criamos normas e passamos também a trabalhar na linha de assessoria, editamos um manual de como destinar resíduos sólidos urbanos, demos treinamentos, fizemos seminários para sensibilização e orientação”. Para Junqueira, não existe nenhuma prefeitura em Minas que não possa fazer um aterro controlado, sistema que não requer projeto ou licenciamento. “Basta cercar a área, para evitar a catação, dispor o lixo e cobri-lo periodicamente com terra. Essa prática não resolve os problemas ambientais, mas diminui, e muito, os problemas de saúde pública, como o risco de transmissão de doenças, por exemplo”, esclarece.
A resistência das prefeituras em instalar aterros sanitários compromete o alcance de resultados. Prazos dados às 53 cidades mineiras com mais de 50 mil habitantes – responsáveis por cerca de 50% do lixo gerado no estado – já foram prorrogados cinco vezes. Eles foram estabelecidos em 2001, para cumprimento em 2004 e, desde então, vêm sendo sucessivamente postergados. O último expirou em outubro do ano passado. Boa parte das prefeituras está regular ou em fase de regularização, mas muitas nada fizeram. O desafio aumenta à medida que o programa avança e é preciso interagir com prefeituras de médio e pequeno porte onde, na maioria das vezes, falta pessoal qualificado e até mesmo um interlocutor: “O cumprimento da meta para 2011 (erradicar 80% dos lixões) está difícil, mas estamos empenhados e vamos conseguir”.
Soluções compartilhadas – Uma das apostas do governo de Minas para acelerar a erradicação dos lixões é a criação de consórcios intermunicipais de gestão de resíduos, nos quais prefeituras se unem e compartilham os custos da instalação de aterros sanitários. Além disso, desde o ano passado, a Feam passou a incentivar projetos de pesquisa, por meio de edital da Fapemig, para estimular a recuperação energética de resíduos e a estruturação de alternativas de baixo custo e complexidade técnica, para atendimento a pequenos municípios e comunidades. Cerca de R$ 1 milhão já foi destinado a pesquisas sobre o tema. Outro projeto desenvolvido pela Feam, o "Resíduo é Energia", incentiva a realização de pesquisas para subsidiar políticas de incentivo à construção de usinas térmicas a lixo, co-processamento de resíduos em fornos da indústria cimenteira e aproveitamento do gás metano em aterros sanitários.
Soluções regionais e de inclusão social, que priorizem as associações de catadores para o processo prévio de triagem e reciclagem também estão sendo adotadas, em parceria com ONGS. “Estamos assinando este mês um protocolo com a Cemig para instalação de uma usina térmica movida a lixo. O local ainda não está decidido, mas com certeza será numa área industrial que tenha população mínima de 350 mil habitantes (não necessariamente na mesma cidade), para que o projeto seja economicamente viável. Esse é um caminho novo e estamos empenhados em apoiar esse avanço. Precisamos dar o primeiro passo”, conclui Junqueira.
Política Estadual
A publicação da Lei 18.031, de janeiro deste ano, que dispõe sobre a política Estadual de Resíduos Sólidos, representa outro avanço em Minas. Pioneira no Brasil, estabelece o princípio da logística reversa, no qual o resíduo, em vez de ser encarado como problema, é visto como oportunidade de renda e desenvolvimento sustentável para a sociedade. Seja por meio de seu uso como insumo – especialmente para a geração de energia; como por meio da determinação para que órgãos públicos editem normas de incentivo fiscal, financeiro ou de concessão de crédito para programas de gestão integrada de resíduos, em parceria com organizações de catadores de material reciclável. A nova lei contempla alguns itens referentes à melhoria da Lei do ICMS Ecológico, no tocante ao subcritério saneamento ambiental. Hoje, 140 municípios recebem o incentivo por manter sistemas adequados de disposição final de lixo urbano e de tratamento de esgoto. Biomassa nas cimenteiras A Feam deve concluir ainda este ano um projeto de pesquisa para uso da biomassa – recurso natural renovável – como combustível alternativo na indústria cimenteira. A proposta integra as proposições estabelecidas pelo governo de Minas destinadas a estimular a adoção de práticas e tecnologias capazes de promover a redução das emissões de gases de efeito estufa, principalmente pelas indústrias, e propõe o uso de resíduos agrícolas e florestais, bem como de determinados resíduos presente no lixo urbano em fornos das cimenteiras. A equipe de pesquisa já identificou algumas biomassas disponíveis como, por exemplo, a casca do café, do arroz, o bagaço da cana, palha de milho, galhos e ponteiras de eucalipto, moinha (finos de carvão) e a matéria orgânica encontrada nos resíduos sólidos urbanos gerados após o processo de compostagem. Panorama Nacional No Brasil, segundo dados divulgados ano passado pelo Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre), cerca de 60% das 140 mil toneladas de lixo urbano geradas por dia seguem direto para os lixões. Não há sistemas de incineração com controle ambiental e recuperação de energia. Menos de 1% desse total é incinerado, incluídos aí os resíduos dos serviços de saúde. O brasileiro gera, em média, 800 gramas de lixo/dia. Nas grandes capitais, esse índice chega a 1,5kg.
SAIBA MAIS
RECADOS DA FEAM
Ao prefeito de BH
“Estamos aguardando uma oportunidade de contato com o prefeito Márcio Lacerda, para apresentar resultados de estudos que a Feam encomendou, com alternativas em relação ao destino do lixo de BH que, atualmente, está sendo recolhido e levado para um aterro privado em Sabará. Quando era secretário de Desenvolvimento Econômico, ele participou do grupo inicial que deu origem ao programa “Resíduo é Energia”. Sabemos que a PBH, em função da população e do volume de resíduos gerado na capital, tem como investir no aproveitamento energético do seu lixo.”
Aos prefeitos
“É ilusão pensar que há um processo onde se põe lixo de um lado e se obtém dinheiro do outro. A disposição de resíduos sempre tem custo. Hoje, muitos pensam que não estão pagando nada e mantém lixões, mas se esquecem do quanto gastam com medicina curativa e até mesmo com o pagamento de multas por descumprimento da legislação. Já temos casos de jurisprudência no Rio Grande do Sul, onde dois prefeitos foram condenados criminalmente por não dispor o lixo adequadamente. Essa é uma obrigação constitucional.”
Consórcios ajudam a mudar realidadeRedução de custos e apoio para obtenção de licenças ambientais são incentivos para prefeituras se unirem na construção de aterros sanitários

Sem comentários no momento.
Assim falou...





