Segunda, 13 de de 2009
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(José Eduardo Freitas César) |
À medida que conhecemos melhor o nosso passado, aumenta a nossa curiosidade sobre o nosso futuro. As regras evolutivas que se fizeram presente até o momento e que resultaram nos seis bilhões de indivíduos a ocupar quase toda a extensão da Terra, continuarão a valer nos próximos séculos?
Hoje o ser humano interfere de forma quase irremediável em todo o ambiente. Mesmo as regiões que não ocupamos, como os dois pólos, os desertos, parte da floresta amazônica, sofrem com as conseqüências do nosso jeito de viver. Somos gastadores de combustível fóssil, milhões de toneladas a cada ano, alteramos cursos de rios, destruímos montanhas, desmatamentos extensas áreas e construímos megacidades. Produzimos lixo, poluímos águas e empestamos o ar.
Se pensarmos a longo prazo para o futuro, mal conseguimos vislumbrar bons tempos. A espécie humana sobreviverá? Viverá em harmonia com a nossa Mãe-Terra? Respeitará a biodiversidade?
Talvez os “tsunamis” do ar, como o efeito estufa, ou os “tsunamis” de água, como o degelo dos pólos provocando inundações, nos alertem para abrirmos mão de certos confortos, que na realidade são supérfluos, e tenhamos um modo de viver que não resulte no fim da nossa história.
O jogo da vida tem suas regras, que são superiores à nossa pobre capacidade de intervenção. Alterações climáticas mínimas, mas prolongadas, determinaram a extinção de muitas espécies, desde os monstruosos dinossauros até pequenos peixes e insetos. Teremos o nosso tempo limite para enxergar isto, e se agirmos tardiamente não haverá mais retorno. Estaremos já neste momento crítico? Ou seja, ou freamos agora nossa insana forma de explorar o meio ambiente, ou depois será tarde demais?
Há um milhão de anos, ao dominarmos o fogo, nos ao dominarmos o fogo, nos tornamos poderosos e senhores do meio que nos rodeava. Mas somente nos últimos séculos, o que é nada em termos de evolução histórica, alterarmos todo o planeta. Somos seis bilhões de bocas vorazes, seis bilhões de produtores de dejetos e seis bilhões de mentes exigentes, a reivindicar prazer, distração, calor, refrigeração, deslocamos rápidos e toda forma de consumo. Custe o que custar!
Que a sabedoria, e uma certa humildade, que teve o povo de Lucy e o povo de Luzia nos ilumine em caminhos mais respeitosos com a natureza, como a única forma de garantirmos o nosso futuro, necessariamente junto com as demais espécies.
É isso que mostraremos a partir desta edição. A jornada evolutiva do ser humano a partir da história de Lucy, dividida em seis capítulos, cujo início publicamos a seguir.
Corpo ereto, pescoço esticado, atenta a qualquer sinal das hienas – o grande perigo do final da tarde - Lucy complicou- se ao atravessar no lusco-fusco o pequeno riacho, avaliando mal a espessura do lodo a seus pés. Uma lama fluida e movediça a engoliu, e sem o auxílio de sua tribo, da qual se desgarrara durante a busca por folhas e raízes comestíveis, acabou por afogar-se onde menos esperava haver riscos. Mais tarde as hienas chegaram, mas não se arriscaram a enfrentar o traiçoeiro pântano. Apenas um pequeno roedor mordiscou-lhe o quadril, deixando marcas de dentes no osso pélvico. Devido à água, seus músculos e vísceras rapidamente se decompuseram, e o cálcio de seus ossos foi substituído por minerais do meio líquido. Por acaso, seu esqueleto ficou preservado através dos tempos.
Lucy tinha pouco mais de 20 anos de idade, media 1,10 metro, pesava cerca de 30 kg e, embora tivesse o mesmo volume de cérebro que os chimpanzés, possuía uma característica inovadora fundamental: era bípede. Exatamente por isso, apresentava uma particularidade que seria fundamental para a evolução da espécie. As mãos, com dedos de grande mobilidade, similares às dos humanos atuais, estavam livres e eram sua mais importante arma.
Devido à mudança do clima, com o início de uma longa era de glaciações, quando o hemisfério norte cobriu-se de gelo, a África, terra natal dos hominídeos, tornou-se mais seca, sofrendo grandes períodos de estiagem, e as florestas foram cedendo espaço para as savanas.
Os ancestrais de Lucy tinham abandonado a vida na copa das árvores e habitavam o chão. Os riscos eram imensos, assim como eram bem maiores as chances de encontrar comida. De dieta variada, consumiam vegetais e carnes. Acompanhavam os grandes carnívoros para aproveitar os restos de alimentos deixados por eles. Esta, sem dúvida, era uma estratégia perigosa, já que se tornavam uma presa fácil. Talvez pelo fato de haver quase sempre algo mais substancial disponível aos predadores, a espécie de Lucy sobreviveu e passou adiante seus genes. Fazia parte da família dos hominídeos, da qual se originaram os humanos modernos. Viveu há três milhões de anos, na região conhecida hoje como Chifre da África, então um lugar verde e cheio de vida.
O bipedismo foi o grande salto evolutivo, já que gerou uma espécie bastante diferenciada em relação às outras. Entretanto, hoje sabemos, suas conseqüências foram desastrosas para boa parte da vida na Terra. As mais antigas provas de primatas bípedes foram descobertas em 1978, também na África, na região de Laetoli, na Tanzânia, datadas de quatro milhões de anos. São 75 pegadas de dois hominídeos adultos acompanhados de uma criança, as quais ficaram perfeitamente preservadas em cinzas vulcânicas. As marcas se estendem por 24 metros de trilha e são semelhantes às que deixaria o homem moderno.
Pode-se inventar uma história sobre o momento em que os rastros foram deixados para a posteridade, ficção que certamente não estaria distante daquilo que realmente ocorreu. Suponhamos que, após dias de terremotos, estrondos e chuvas ácidas, um período de calmaria tenha se iniciado. A erupção da montanha ainda estava visível, mesmo tendo diminuído seu ímpeto. Um céu escarlate nunca visto, devido à poeira fumegante que saíra do interior da terra, e um calor intenso, provocado por um inusitado efeito estufa, criavam um ambiente pouco propício à vida.
A pequena família de bípedes - o pai, com altura bem próxima a 1,40 metro; a mãe, perto de 1,20 metro; e uma pequena cria - procurava abrigo distante do vulcão e encontrou caminho sobre a lava morna de dias anteriores. Com alguma dificuldade conseguiu atravessar a torrente de lama parcialmente ressequida. O primeiro a passar foi o macho adulto, seguido pela fêmea, que procurava colocar os pés sobre as pegadas já impressas pelo companheiro. A criança saltitava ao lado e, por um momento de dúvida, talvez por pressentir o perigo, ou talvez por mera curiosidade infantil, deteve-se por um instante, voltou-se para a esquerda e em seguida continuou a marcha. Tudo indica que conseguiram sobreviver. Seus rastros solidificaram-se e resistiram aos ventos e temporais até os nossos dias. Para a história da humanidade, são mais importantes que as famosas pegadas deixadas pelo homem na Lua, quatro milhões de anos depois.
Os hominídeos talvez tenham se originado há cerca de 10 milhões de anos, quando gradativamente começaram a se distanciar dos demais primatas. O chimpanzé é o primata atual geneticamente mais próximo do homem moderno, mas pode ser considerado nosso primo, e não nosso avô. O ancestral comum, pertencente a um tronco único, é um possível fóssil que ainda não foi encontrado. São poucas as esperanças de que um dia o encontremos, já que viveu na floresta, em regiões úmidas, o que não favorece a preservação dos ossos. A fossilização é um fenômeno muito raro na natureza. É necessário que a morte aconteça em ambientes não ácidos e que a sedimentação se faça de forma rápida, como em pântanos, ou em locais com enxurradas de lama. Dessa forma, a matéria orgânica é substituída lentamente por minerais, e o esqueleto vai se petrificando. Em situações excepcionais, os tecidos moles são preservados, como, por exemplo, os insetos que foram encontrados no âmbar, que é uma resina de vegetais, e os mamutes em perfeito estado de conservação encontrados no gelo, na Sibéria.
Lucy era com certeza bípede, pela conformação de seu arco plantar, e do sexo feminino, inferência possível a partir de detalhes de seu osso pélvico. Era jovem, mas adulta, devido às suas extremidades ósseas calcificadas e suturas cranianas soldadas, além de já ter tido a erupção dos dentes sisos. Tinha as mãos quase idênticas às nossas, com quatro dedos em oposição ao polegar. Como elas estavam disponíveis durante a marcha, foram sua grande arma para a perigosa vida no solo. Sua espécie ganhou o nome científico de Australopithecus afarensis, sendo que austral é sinônimo de sul, pitecos significa macaco, e afar é uma homenagem à região da Etiópia onde foi encontrada. A datação dos sedimentos nos quais repousavam seus ossos comprovou que viveu há 3,2 milhões de anos.
Como é possível para a ciência precisar a data de fósseis? O processo foi descoberto há algumas décadas, quando se desenvolveu a técnica para medir o carbono 14 retido pelos organismos. O carbono 14 é um isótopo radioativo do carbono comum, que é o carbono 12, e tem dois nêutrons a mais em seu núcleo. Na atmosfera terrestre encontra-se o carbono 14, resultante da radioatividade cósmica, que é absorvido pelos seres vivos. Assim, durante a vida, a quantidade desse tipo de carbono no organismo e na atmosfera é a mesma. Quando ocorre a morte, o radiocarbono começa a desintegrar-se até desaparecer totalmente, transformando-se em carbono 12.
Dessa forma, tem-se um autêntico relógio do tempo: determinando-se a quantidade de carbono 14 em um fóssil pode-se calcular a idade, já que sua meia-vida, ou seja, o período em que a metade se desintegra, é de 5.700 anos para esse átomo. Como o carbono 14 proporciona datações de até 40 mil anos, é utilizado apenas para fósseis mais recentes. Para datações mais antigas usam-se isótopos de potássio, argônio, estrôncio e outros átomos, que possuem meiavida mais longa, alguns atingindo milhões de anos.
A ciência moderna desenvolveu uma ampla variedade de métodos de investigação do passado. Alguns são muito exóticos, como o que estuda pólens fósseis e consegue estimar a época em que as plantas viveram e o clima que predominava. Sempre que possível, mais de um teste é utilizado nos estudos. Os fósseis de Lucy, por exemplo, foram datados cruzando-se informações de quatro diferentes métodos. Até recentemente, Lucy era o hominídeo mais antigo já descoberto. Mas, em 2001, no Chade, em pleno Deserto de Saara, foi desenterrado um crânio, parcialmente destruído, cuja parte posterior era semelhante à de um chimpanzé e a anterior, à de hominídeo. A datação mostrou ter a idade de sete milhões de anos. Recebeu o nome de Sahelanthropus tchadensis e passou a ser considerado o mais primitivo hominídeo. Todavia, por não terem sido encontrados outros ossos além desse pedaço de crânio, não se sabe se era bípede.
Na escala evolutiva, surgiu, há cerca de dois milhões de anos o Homo habilis, assim denominado porque foi o primeiro a fabricar ferramentas. Uma pedra encontrada na Etiópia, com datação de 2,5 milhões de anos, que foi usada para quebrar conchas e ossos, é provavelmente o mais antigo instrumento já descoberto fabricado pelo homem. Provavelmente, o Homo habilis tinha comunicação pela fala, o que é sugerido por pequenas alterações na conformação óssea da base do crânio. Ainda não dominava o fogo, mas o mantinha aceso temporariamente, quando iniciado por raios. Talvez usasse para isso uma pequena estrutura empregada até hoje por tribos primitivas: um arcabouço de osso como campânula, com um pequeno carvão fumegante embebido em óleo de origem animal.
Os fósseis dessa espécie foram encontrados na Tanzânia e no Quênia. Essa espécie é considerada a primeira do gênero Homo, devido ao fato de apresentar uma capacidade craniana em torno de 700 centímetros cúbicos, um terço maior do que o de Lucy -, apesar de ser ainda um terço menor do que o volume cerebral dos humanos modernos. Segundo controversa opinião de antropólogos, o marco inicial da cultura se deu no momento em que o Homo habilis, intencionalmente, lascou uma pedra de tal forma a criar um gume que o auxiliasse a cortar carne.
Polêmicas à parte, reside a certeza de que, forçados pelas mudanças climáticas, primeiro fomos bípedes e somente em uma fase posterior, mais inteligentes. A teoria da evolução, que postula que mutações aleatórias permitem que o ambiente selecione os mais aptos a sobreviver, é hoje aceita sem restrições no meio científico, dado o enorme acúmulo de evidências que foram coletadas nas áreas da paleontologia, da genética e da anatomia comparada.
Todavia, uma forte e ainda muito popular corrente de religiosos, que se intitula criacionista, nega a evolução e não admite outra versão que não a da Bíblia para a história da vida na Terra. Insiste que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e que os fósseis encontrados seriam apenas macacos, sem qualquer vínculo com a humanidade.
Além do bipedismo e da expansão do volume do cérebro, que se deu principalmente na região frontal, que é a área associada à inteligência mais elaborada, como o raciocínio a partir de associação de idéias, a memória e a fala, foram várias as particularidades anatômicas que os estudiosos consideraram para definir o gênero Homo. Devido ao aumento do crânio, ocorreram alterações, tanto na mãe como no filho, para permitir o parto. A cintura pélvica feminina tornou-se mais larga, e como os ossos cranianos da criança, ao nascer, ainda não estavam fundidos, permitiam ser parcialmente comprimidos. Disso resultou uma perda de maturidade ao nascimento, com o prolongamento do período da infância e da dependência dos pais.
Além disso, os humanos podem produzir uma grande variedade de sons devido a pequenas, mas importantes, alterações na posição das cordas vocais na laringe. É possível constatar também, a partir do calibre dos orifícios do crânio, o aumento progressivo do diâmetro dos nervos que comandam os movimentos da língua. Em parte, devido às modificações na alimentação habitual,- como redução da consistência – os dentes caninos e os molares tornaram-se menores, da mesma forma que a mandíbula, que não necessitava mais sustentar uma musculatura reforçada. E, ainda, não se sabe por quê, ocorreu uma diminuição generalizada dos pêlos, que deixaram de cobrir todo o corpo. O fato é que isso permitiu que o organismo perdesse temperatura quando fosse necessário e, assim, se adaptasse melhor a um ambiente quente.
Com passar do tempo, a região do Chifre da África deixou de ser úmida e fértil e se transformou em um deserto. Um clima extremamente hostil começou a tomar conta da África Oriental há cerca de um milhão de anos, e o local onde Lucy morreu é hoje uma árida extensão de pó e pedras, em que a temperatura atinge 50 graus no meio do dia.
Em 1974, na região de Afar, na Etiópia, Donald Johanson, paleontologista norte-americano, caminhando por um sulco ainda não percorrido, mesmo estando palmilhando os arredores há vários anos, encontrou aflorado em uma área pedregosa um fino osso de braço, que imediatamente identificou como sendo de um hominídeo. Aquele indivíduo, certamente, não usaria um membro tão delgado como apoio para a marcha. Logo em seguida viu surgir sob uma pequena camada de areia parte do crânio, um fêmur, a pélvis e, posteriormente, centenas de fragmentos de ossos, cerca da metade do esqueleto. Ainda hoje, permanece como o mais completo fóssil de hominídeo encontrado.
Naquela noite, comemorando o achado histórico, toda a equipe que o acompanhava bebeu e dançou ao som dos Beatles. A música Lucy in the sky with diamonds, repetida à exaustão, serviu como sugestão para denominar a frágil criatura, destinada a um tardio sucesso após prolongadíssima espera no anonimato.
JORNADA EVOLUTIVA II - O crucial domínio do fogo, há um milhão de anos

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